Infraestrutura do Mondego é útil para reduzir as cheias, mas abaixo do previsto
A infraestrutura existente no rio Mondego tem sido útil para reduzir as cheias em Coimbra e no Baixo Mondego, mas menos eficiente do que o previsto, concluiu uma análise de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) apresentada hoje.
O grupo de trabalho, liderado pelo antigo reitor da UC Fernando Seabra Santos, analisou as cheias no rio Mondego em fevereiro.
As conclusões preliminares foram apresentadas hoje à tarde no colóquio "As Cheias do Mondego", que decorreu no Departamento de Engenharia Civil da UC.
De acordo com as conclusões, organizadas por perguntas e respostas, a que a agência Lusa teve acesso, a infraestrutura existente no rio tem sido útil para reduzir a cheia em Coimbra e no Baixo Mondego, apontando-se que, desde que as barragens entraram em funcionamento, em 1981, "houve apenas quatro anos" em que os caudais em Coimbra ultrapassaram os 1.900 metros cúbicos por segundo (m3/s).
"Entre 1917 e 1982, houve 20 anos com caudais em Coimbra superiores àquele valor", observou.
O grupo de trabalho concluiu que, "apesar das reduções de caudal que tem proporcionado, a infraestrutura tem sido menos eficiente do que o previsto" devido à "subavaliação em projeto da contribuição da bacia intermédia, que levou à definição de um protocolo pouco exigente da gestão hidráulica das barragens" e à "modificação do comportamento hidrológico da bacia, provavelmente em resultado da desflorestação e dos incêndios".
Para repor a segurança da obra, apontou-se que "a resposta estrutural correta a este desafio, possível e desejável, mas com efeitos de longo prazo, seria diminuir a contribuição da bacia intermédia para valores mais próximos dos de projeto, através da implementação de uma política de intensa reflorestação das encostas, em particular das Serras do Açor e da Lousã".
Segundo o documento, mesmo que seja possível iniciar a curto prazo a reflorestação e reduzir a intensidade e frequência de grandes incêndios, "a segurança do sistema não será reposta nas próximas dezenas de anos sem a introdução de um reforço estrutural adicional".
"Não se vê outro que não seja a construção de uma nova grande barragem", defendeu o grupo de trabalho.
Enquanto não for reposta a segurança da obra, considerou-se que, "no curto prazo, a modificação do protocolo de exploração hidráulica das comportas da Aguieira e de Fronhas parece ser a única forma de atuar sobre a formação da onda de cheia a jusante e nomeadamente sobre o valor do caudal máximo de cheia no Açude".
A recomendação é que o protocolo seja substituído por um outro, baseado em "níveis de espera nas barragens inferiores aos atuais" e "uma gestão em contraciclo da Agueira e de Fronhas".
De acordo com o grupo de trabalho, a cheia de fevereiro não teve caráter "centenário", tendo sido "a terceira em valor" desde que há registos (1971).
O grupo de trabalho integra os académicos Alfeu Sá Marques, Cidália Fonte, Isabel Pedroso de Lima, Nuno Simões, Paulo da Venda Oliveira, Ricardo Martins e Rita Fernandes de Carvalho.
A sessão de abertura do colóquio "As Cheias do Mondego" contou com a participação dos vice-reitores da UC para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, e para o Património, Edificado e Turismo, Alfredo Dias.
Delfim Leão disse que as conclusões desta análise serão publicadas em livro, "em setembro/outubro", para "dar aos decisores políticos, mas também à população em geral, informação trabalhada, densificada do ponto vista científico".