Investigador da Universidade de Coimbra diz que barragem de Fagilde é um erro
O professor e investigador da Universidade de Coimbra Fernando Seabra Santos defendeu hoje que a nova barragem de Fagilde, no rio Dão, em Viseu, é um erro, já que a futura de Girabolhos, no Mondego, poderá abastecer a região.
"A construção de Fagilde, aquilo que está em cima da mesa, é aumentar a capacidade de Fagilde ao construir uma [nova barragem] maior a jusante, por 30 milhões de euros (ME)", indicou o professor e antigo reitor da Universidade de Coimbra, quando questionado pela plateia do congresso sobre a importância das barragens e açudes.
Seabra Santos falava no primeiro congresso "Mondego, que futuro para esta bacia hidrográfica?", a decorrer hoje na cidade de Viseu e que contou com a presença, na abertura, dos presidentes de câmara de Viseu e Guarda e de um vereador de Coimbra.
Os presidentes de Viseu e da Guarda saíram após a abertura, como constatou, nesse momento, o professor que pertencia ao painel da manhã, juntamente com outros três intervenientes.
"A resolução desse problema de uma forma técnica e economicamente vantajosa é trazer água [da barragem] de Girabolhos", no rio Mondego, "praticamente sem elevação". "Portanto, se tivéssemos a capacidade em Portugal de integrar estas várias funções ganhávamos dinheiro e resolvíamos uma série de problemas", apontou o professor e investigador.
E acrescentou: "Construímos Fagilde, mal. Vamos construir Fagilde dois, mal", mesmo reconhecendo que "Girabolhos não vai resolver os problemas todos".
A barragem de Girabolhos está projetada para o rio Mondego, abrangendo os concelhos de Seia, Gouveia, Mangualde e Nelas.
Seabra Santos lembrou a falta de água em Almada, este verão, e recuou a setembro de 2017, quando foi feito o transporte de água da barragem da Aguieira para a de Fagilde, com recurso a camiões cisternas.
A barragem de Fagilde, no rio Dão, abastece os municípios de Viseu, Mangualde, Sátão, Penalva do Castelo e Nelas.
No seu entender, "uma cidade capital de distrito e com importância que tem ficou sem água um mês inteiro e isso não é possível num país decente", indicando que levar a água de uma barragem para outra "não resolveu o problema".
Fernando Seabra Santos disse ainda que toda a quantidade de água que foi transportada nesse mês de 2017 entre as barragens - cinco mil metros cúbicos -- foi o equivalente a "dois segundos e meio de cheias em Coimbra", em fevereiro passado.
No final da sessão, à agência Lusa, o professor reforçou que a futura barragem de Girabolhos pode "abastecer a cidade de Viseu com vantagem técnica e economicamente, porque a cota permitiria, evitando até o investimento no reforço de Fagilde" e "seria uma solução para várias dezenas de anos" no abastecimento.
Para isso, "seria necessário recuar um bocadinho para repensar as coisas em conjunto", já que o processo da nova barragem de Fagilde está em andamento.
Ainda assim, Fernando Seabra Santos reconheceu que seria "vantajoso, basta que Girabolhos tenha cota de 310 metros" cúbicos de reserva.
"Claro que, se tivesse 325 [metros cúbicos] como chegou a estar previsto, tinha essa vantagem. Admito que possa ter outros inconvenientes, não estou por dentro do projeto que me permita comparar as várias funções, mas poderia ser uma resolução definitiva do problema", insistiu.
Para isso, era "fazer as infraestruturas e condutas necessárias para transportar água para Viseu e para a povoação" abrangida pela barragem de Fagilde e que, atualmente, "é feita em condições muito pouco satisfatórias".
A nova barragem de Fagilde foi anunciada no dia 02 deste mês pelo presidente da câmara de Viseu, João Azevedo, num investimento de 60 ME para a nova barragem e para uma nova ETAR que será feita pela Águas Douro e Paiva.
Durante a intervenção, o professor alertou para a necessidade de manutenção dos equipamentos, dando como exemplo as Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) e a rede de saneamento básico.
"Todas as obras têm um prazo de validade o que nos coloca hoje um problema também, que é uma espécie de bomba relógio. São construídas há 40 anos, para um prazo de validade de 40 anos, são mal mantidas, como quase todas as infraestruturas de Portugal - é uma `pecha` nossa, uma dificuldade brutal que nós temos, até conseguirmos arranjar milhões de euros para fazer".
No entender de Fernando Seabra Santos, "todos os políticos gostam de arranjar milhões de euros para investir, mas não gostam de arranjar milhões de euros para manter".