Joe Berardo aponta “aldrabice” no BCP e lembra caso com BPP
O 3.º maior accionista do Banco Comercial Português (BCP) disse que continuam a verificar-se situações de "roubo" e "aldrabice" no banco e recordou que tirou o seu dinheiro do Banco Privado Português (BPP) após se ter apercebido de movimentos pouco transparentes. Por sua vez, Diogo Vaz Guedes, presidente da Privado Holding refere ter sido vítima de falta de ética da anterior administração.
O presidente da Privado Holding refere que o objectivo de momento é "redesenhar a actividade do banco", assim como encontrar "novos investidores disponíveis para colocar dinheiro no negócio" e recapitalizar o banco. A estratégia faz parte do plano de viabilização que Diogo Vaz Guedes vai apresentar no início do mês.
Berardo recorda episódio de 1998
A anterior administração do BPP, liderada por João Rendeiro, foi também alvo das críticas do antigo accionista Joe Berardo, que decidiu vender todas as acções e retirar dinheiro da instituição quando se apercebeu de alguns movimentos pouco transparentes.
Em entrevista ao Correio da Manhã, publicada a 15 de Março, citada pela Lusa, Berardo explica o contexto. "Tínhamos uma guerra com o Sousa Cintra sobre as Pedras Salgadas. Aconteceram umas transacções e o banco estava a dever uns dinheiros. E como é que me pagaram? O fundo do banco vendeu-me acções a um preço mais barato".
O investidor prossegue: "Um mês depois comprou-me essas acções a um preço mais caro. Os fundos dirigidos pelo banco foram comidos. Em vez de pagar o banco pagou o fundo. Nesse dia, logo que recebi o meu dinheiro, disse ao meu advogado para reunir com João Rendeiro e vender tudo. Mias cedo ou mais tarde algo ia acontecer. Porque se ele fez isso para meu benefício, porque é que não irá fazer outra vez para benefício de outras pessoas?".
Joe Berardo afirmou que alertou em 1998 para a actuação do banco. Quando questionado sobre eventuais falhas na supervisão, Berardo acrescenta: "quando as pessoas não são honestas, nem o Banco de Portugal nem ninguém pode ter o controle sobre a situação".
Em relação à actuação do regulador, o investidor considera que esta será sempre questionável porque "não resolveram o problema, mas não é fácil para o Banco de Portugal".
As situações na banca portuguesa foram apontadas durante o "Ideia Fórum", encontro promovido, em Lisboa, pelo diário "i".
Berardo acusa BCP de "roubo" e "aldrabice"
Joe Berardo vai mais longe, desta vez sobre o BCP, instituição em que detém uma posição de 6,2 por cento. Apesar de não especificar a identidade dos visados nas acusações, o terceiro maior accionista do banco afirmou que "o BCP continua a roubar ainda hoje em dia e posso provar".
O investidor critica ainda os elevados valores das reformas de administradores. "São valores extremamente elevados. Não tenho problema de eles serem bem remunerados, mas sim com as aldrabices feitas, alterados os resultados para daí beneficiarem eles próprios".
Ao final do dia, o comendador refere que "deposita inteira confiança na actual administração do BCP e reconhece o trabalho que tem realizado em prol do BCP e dos seus stakeholders".Em comunicado, deixa claro que "de forma alguma imputou ao BCP e/ou aos seus actuais dirigentes qualquer acto incorrecto". A actual administração do BCP é liderada por Carlos Santos Ferreira, antigo presidente da Caixa Geral de Depósitos, que levou do banco público os administradores Armando Vara e Vítor Fernandes.
"Vi Gordon Brown (primeiro-ministro britânico) repreender o presidente do Banco da Escócia porque ele tinha 800 mil libras (por ano) de reforma. Isso não é nada comparado com o que estes tipos fazem! E toda a gente está feliz" disse durante a conferência. "Aqui (no BCP) alguns administradores reformados ganham mais do que isso", acrescentou.
Riqueza de gestores, perdas de accionistas e culpas de reguladores
O presidente do Espírito Santo Investimento aponta o afastamento entre os accionistas e as administrações como motivo para os episódios registados na banca. "Muitos gestores estão hoje ricos, enquanto os accionistas perderam muito valor", nota José Maria Ricciardi, para quem, durante 20 anos, havia "banqueiros que não tinham capacidade para gerir as instituições. Não é um problema dos banqueiros mas de responsabilidade".
Ricciardi não poupa críticas ao comportamento dos reguladores, que "não fizeram o seu trabalho", contribuindo para a amplificação do problema. "Os reguladores tiveram culpa, tal como as agências de rating", sublinhou.