Jornalismo perde leitores por falta de interação com o público

Jornalismo perde leitores por falta de interação com o público

Uma investigadora do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, concluiu que o jornalismo português está a perder leitores, sobretudo entre os mais novos, nomeadamente por falta de interação com o público.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Segundo Aldina Margato, autora do estudo "A Reinvenção do Jornalismo a Partir das Comunidades Online" e professora naquela instituição de ensino de Coimbra, não é a tecnologia que está a afastar o público do jornalismo, mas a sensação de que, dentro das redações, ninguém liga ao que pensam os leitores.

"As redações continuam a tratar o leitor como um espetador, quando o futuro do jornalismo depende de transformar os seus destinatários em participantes", afirmou a investigadora naquele estudo.

De acordo com a investigação, seis em cada dez jovens dizem já não querer saber das notícias e três em cada quatro, entre os 18 e os 24 anos, informam-se mais nas redes sociais do que nos `sites` dos jornais, enquanto mais de metade diz-se saturada da negatividade e considera que os média dão demasiado destaque aos políticos e pouco às pessoas comuns.

A investigação analisou os hábitos de consumo de notícias de 174 jovens entre os 18 e os 24 anos, avaliou os dez maiores `sites` noticiosos portugueses, entrevistou jornalistas e acompanhou durante nove meses uma comunidade `online` com 240 mil membros.

A investigadora Aldina Margato concluiu que os meios de comunicação adotaram as ferramentas digitais do século XXI, mas continuam a utilizá-las sobretudo para distribuir notícias, em vez de promover o diálogo com quem as lê.

A autora do estudo considerou que a confiança do público, mais do que a tecnologia, será determinante para a relevância futura do jornalismo e recomendou "que a relação com os leitores deixe de ficar ao acaso e passe a constar dos próprios códigos da profissão".

"As ferramentas do século XXI já estão nas redações, só falta usá-las para fazer o jornalismo que o século XXI pede: um jornalismo que escute, envolva e construa relações de confiança com quem o lê", concluiu.

Para Aldina Margato, "o espaço para uma nova relação entre o jornalismo e o público existe, só não está a ser usado", apesar de estar à distância de um clique.

Ao analisar os dez maiores `sites` noticiosos portugueses, a investigadora registou que as ferramentas que permitiriam ao leitor reagir, comentar ou perguntar estão quase sempre escondidas e, na maior parte das vezes, ausentes.

"Mesmo os dois sítios que considera mais bem preparados -- o Observador e o Público -- aproveitam apenas 17 das 27 possibilidades de interação identificadas. Nos restantes, o leitor quase não tem como interagir ou responder", evidenciou.

Através do estudo recomenda-se a criação de comunidades de notícias em torno de temas que interessem mesmo aos leitores, incentivos à reação do público e o uso de uma linguagem simples que conduza depois às peças mais desenvolvidas, além de formação para os jornalistas comunicarem no digital, gerirem comunidades e levarem os cidadãos para dentro da conversa.

"O maior concorrente do jornalismo já não são as redes sociais, é a incapacidade de criar relações de confiança", avisou Aldina Margato.

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