Kiev tenta travar avanço russo e Moscovo reclama mais posições a leste

As forças militares ucranianas parecem estar a conseguir travar o avanço russo, mas Moscovo garante que tomou posse de mais nove localidades no leste da Ucrânia, enquanto continuam "pouco substanciais" negociações de paz.

Lusa /

As forças ucranianas continuam a "repelir" as tentativas da Rússia de ocupar o sul da cidade de Mariupol, segundo um relatório do serviço de informação militar publicado hoje pelo Ministério da Defesa do Reino Unido.

No mais recente relatório, publicado na conta do ministério britânico na rede social Twitter, é referido que "apesar dos intensos combates, as forças ucranianas continuam a repelir as tentativas russas de ocupar o sul da cidade de Mariupol".

Também o Pentágono disse hoje que o exército ucraniano está a realizar contraofensivas que permitiram, em particular no sul, recuperar terreno às tropas russas, que se debatem com dificuldades de comunicação.

Os militares ucranianos "estão agora, em certas situações, na ofensiva", disse John Kirby, porta-voz do Pentágono, em declarações a uma estação televisiva, acrescentando que "estão a perseguir os russos e a expulsá-los de áreas onde estes estiveram antes".

Uma autoridade ocidental também confirmou que a resistência ucraniana retardou o avanço das forças russas, quase até parar, e a Ucrânia repeliu as tentativas dos invasores de tomarem o porto estratégico de Mariupol.

Contudo, a mesma fonte confirmou que as tropas russas não foram afastadas de posições estabelecidas e ainda dispõem de capacidade para manter uma guerra de desgaste por algum tempo -- tornando improvável um rápido avanço nas negociações destinadas a acabar com a violência na Ucrânia.

Perante este cenário, o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, pediu aos habitantes da região de Donbass que resistam à mobilização forçada realizada pelo exército russo, sublinhando que as diferenças entre os cidadãos ucranianos serão abordadas no futuro.

Reznikov apelou aos cidadãos da região no leste da Ucrânia para que "tentem evitar a mobilização forçada, de qualquer maneira", porque "isso salvará as suas vidas".

Por outro lado, o Governo de Moscovo anunciou que as forças pró-russas de Donbass, com o apoio das tropas russas, tomaram no último dia o controlo de nove localidades no leste da Ucrânia.

O porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashénkov, afirmou no primeiro relatório militar da manhã que as unidades das forças armadas russas avançaram mais seis quilómetros e capturaram o acantonamento de Urozhayne, na região de Donetsk.

Ao mesmo tempo, a Rússia negou que esteja a preparar ciberataques contra os Estados Unidos em resposta às sanções impostas pelos países ocidentais por causa da invasão russa da Ucrânia.

"A Rússia, ao contrário de muitos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, não se envolve em banditismo a nível estadual", disse o porta-voz da Presidência russa (Kremlin), Dmitri Peskov, comentando as denúncias do Presidente norte-americano, Joe Biden, que acusou Moscovo de estar a preparar ciberataques contra Washington e os interesses norte-americanos.

Moscovo e Kiev divulgaram, entretanto, números divergentes sobre os soldados russos mortos na invasão da Ucrânia, com o Ministério da Defesa russo a contabilizar 9.861, aquém dos mais de 15.000 indicados por fonte oficial ucraniana.

O Estado-Maior-General das Forças Armadas ucranianas estimou hoje em cerca de 15.300 os soldados russos mortos desde o início da invasão russa da Ucrânia.

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, avisou que qualquer acordo de paz alcançado com a Rússia, incluindo quaisquer mudanças territoriais no país, terá de ser apoiado pela população através da realização de um referendo.

"Se estiverem em causa mudanças [territoriais], a única solução será convocar um referendo. Serão as pessoas que irão decidir a questão", afirmou Zelensky, em entrevista às emissoras checa CT24, francesa France Télévision e ucraniana NSTU.

No campo diplomático, a presidência russa (Kremlin) considerou que as negociações em curso com Kiev são "pouco substanciais", apesar de o Presidente ucraniano ter dito que está pronto para submeter eventuais "compromissos" a um referendo.

"Está a decorrer um processo de negociações, mas gostávamos que fosse mais enérgico, mais substancial", disse o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, na conferência de imprensa diária que realiza em Moscovo.

Entretanto, o Papa fez hoje uma nova chamada telefónica para Zelensky, que disse a Francisco que "é o convidado mais esperado" no seu país.

Francisco, por sua vez, declarou ao Presidente ucraniano que está "a rezar e a fazer todo o possível para acabar com a guerra, provocada após a invasão da Rússia", escreveu o embaixador ucraniano na Santa Sé, Andrii Yuash, na rede social Twitter.

Os líderes da UE vão aprovar a criação de um fundo de solidariedade com a Ucrânia e estão prontos para aprovar novas sanções, segundo o projeto de conclusões do Conselho Europeu.

"Tendo em conta a destruição e as enormes perdas causadas à Ucrânia pela agressão militar russa, a União Europeia (UE) está empenhada em prestar apoio ao Governo ucraniano para as suas necessidades imediatas e, uma vez cessada a ofensiva russa, para a reconstrução de uma Ucrânia democrática. Para o efeito, o Conselho Europeu concorda em criar um Fundo Fiduciário de Solidariedade da Ucrânia e apela a que se iniciem sem demora os preparativos", lê-se no projeto de conclusões, que não especifica montantes.

No patamar da ajuda humanitária, os moradores de Mariupol, cercada e bombardeada pelos russos há várias semanas, souberam que vão poder deixar a cidade através de três corredores humanitários.

A invasão russa da Ucrânia já provocou pelo menos 953 mortos e 1.557 feridos entre a população civil, a maioria dos quais devido a armas explosivas com vasta área de impacto, indicou hoje a ONU.

No seu relatório diário sobre vítimas civis confirmadas desde o início da agressão militar russa na Ucrânia, a 24 de fevereiro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) contabilizou, até às 24:00 de segunda-feira (hora local), 78 crianças entre os mortos e 105 entre os feridos.

Mais de 3,5 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia desde a invasão da Rússia, cerca de 60% das quais foram recebidas pela vizinha Polónia, anunciou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

De acordo com esta agência da ONU, 3,53 milhões de pessoas deixaram a Ucrânia devido ao conflito, tendo 2,1 milhões ido para a Polónia, 540 mil para a Roménia e 367 mil para a Moldova.

Cerca de dois milhões de crianças já deixaram a Ucrânia desde o início da invasão russa e outros 3,3 milhões de menores foram forçados a deslocarem-se dentro do país, revelou hoje a UNICEF em Itália.

"O número de crianças que fogem da Ucrânia está a aumentar a cada hora e aproxima-se inexoravelmente de dois milhões", disse Andrea Iacomini, o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância em Itália, num comunicado.

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