Lota de Matosinhos regressa à normalidade
Matosinhos, 05 Jun (Lusa) - A lota de Matosinhos regressou hoje à normalidade depois dos pescadores regressarem ao mar para "ganhar a vida", embora convencidos de que as medidas anunciadas pelo Governo "de nada vão valer".
Em Matosinhos, foram muitas as embarcações que regressaram esta madrugada ao mar, depois da suspensão da greve dos pescadores e armadores que durante seis dias ficaram em terra em protesto contra a escalada dos preços do combustível e para reivindicar apoios à sua actividade.
Os pescadores suspenderam a greve depois de terem aceite as propostas do Governo, designadamente a redução da taxa de venda nas lotas, de 4 para 2 por cento, e a criação de uma linha de crédito de 40 milhões de euros, sem taxa de juros, a reembolsar pelos recorrentes em cinco anos, com um ano de carência, entre outras medidas.
No entanto, para os pescadores de Matosinhos estas medidas, anunciadas quarta-feira pelo Governo, "não vão mudar nada".
"A gente acabou a greve mas vai ficar tudo igual", disse à Lusa o pescador Paulo Terroso, considerando que "o que o Governo deu não foi nada de mais e não se vai fazer notar".
A embarcação "Reino de Deus", onde trabalha Terroso, atracou na lota de Matosinhos carregada de sardinha e alguma cavala.
O pescador admitiu que já tinha saudades do mar e lamentou a semana em que parou o seu ofício e que o fez perder "ganhos que serveriam para governar a casa durante uma semana".
Já Jesus Coutinho, pescador de 25 anos a trabalhar no ofício desde os 14, regressou também ao mar porque - disse à Lusa - "é preciso fazer a vida e comer".
Contudo, confidenciou que a faina de hoje "não deu para o gasto do gasóleo".
Este pescador adiantou que apenas os barcos da "arte da sardinha" foram esta madrugada ao mar.
As outras embarcações, que usualmente pescam "peixe grosso", ficaram em terra "porque o acordo não lhes deve ter interessado".
De acordo com as contas de Jesus Coutinho, apenas 40 por cento das embarcações reiniciou a actividade depois do fim da paralisação de seis dias.
No mercado da lota de Matosinhos o "peixe fresco e português" regressou às bancas, mas os compradores quase não se viam esta manhã.
"Está fraco, há pouca gente a comprar", afirmou à Lusa a vendedora Celeste Silva, há 12 anos a trabalhar naquela lota.
Congratulando-se com o regresso dos barcos ao mar, a vendedora Rita Rodrigues só desejou que "tudo volte à normalidade agora".
"Dá gosto ver o peixe aqui na banca, pena não se estar a vender bem", sustentou.
Maria Adelaide Santos, que esta manhã vendia sardinha, peixe-espada preto, polvo e linguado, considerou que o desconhecimento do fim da greve deve ser o "principal" motivo para a ausência de mais clientes.
"As pessoas pensam que ainda se está em greve, mas a lota está aberta e há aqui muito peixinho fresco", frisou.
Um comerciante, que preferiu o anonimato, pretende agora que a Docapesca assuma os prejuízos causados sábado, depois dos pescadores invadirem aquelas instalações e destruírem uma tonelada de peixe aí armazenado.
JAP.