Milhares de manifestantes cantam a "Grândola" no Terreiro do Paço

Milhares de manifestantes concentrados no Terreiro do Paço, em Lisboa, entoaram a canção "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, depois de ter sido lido o manifesto do movimento "Que se lixe a `troika`", que organizou o protesto.

RTP com Lusa /
Manifestação terminou com a cantiga de José Afonso "Grândola, Vila Morena" António Antunes/RTP

A seguir ao cântico, que marcará o final do protesto, os manifestantes gritaram "o povo unido jamais será vencido" e "está na hora, está na hora de o Governo ir embora".

Do palco dezenas de pessoas incluindo os cantores Vitorino, Carlos Mendes, Janita Salomé e Filipa Pais, viram a multidão que os acompanhou na canção de José Afonso, numa praça onde ainda estavam a chegar muitas pessoas que começaram a marcha no Marquês de Pombal pelas 16 horas.

Depois de cantada a `Grândola`, viram-se lágrimas e abraços entre quem estava no palco e muitos, muitos sorrisos.

Carlos Mendes disse à agência Lusa que, por muitas vezes que tenha cantado `Grândola, Vila Morena`, "esta teve um sabor muito diferente".

"No desporto costuma dizer-se que cheira a golo. Agora cheira-me a revolução, a mudança", disse.

O cantor afirmou que a manifestação de hoje "era uma coisa impensável" quando, há algumas semanas, integrou o grupo de pessoas que foi cantar a `Grândola, Vila Morena` no hemiciclo da Assembleia da República, quando discursava o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

"Até fico emocionado. Já não se via tanta gente junta há muito tempo", afirmou, referindo que toda a gente que participou na manifestação "Que se lixe a `troika`" "está de parabéns".

Depois de cantada de viva voz, ouviu-se a versão gravada de `Grândola, Vila Morena`, tal como "Liberdade" e "O Primeiro Dia", de Sérgio Godinho.

A debandada começou ainda não tinha acabado de chegar todo o corpo da manifestação, que enchia ainda a Rua do Ouro.

Junto à estátua de D. José I, no Terreiro do Paço, Beatriz e João refletiam na manifestação e tinham um balanço marcado por algum desânimo.

"Esta manifestação, como todas, acaba por ser uma fantochada, não traz consequências nenhumas, é giro, mas não passa disso. O povo português não está a ter força para devolver as consequências que está a sofrer na pele", afirmou João.

O jovem defendeu que uma melhor ação de protesto seria "uma acampada": "Podia ser aqui mesmo, ninguém pagava mais impostos, ninguém trabalhava e vinha tudo para aqui".

"Temos que fazer alguma coisa, porque temos décadas de gestão danosa", afirmou, citando Cavaco Silva, José Sócrates e outros como parte de uma "herança brutal de péssimos políticos".

Nuno Miguel e a mulher Regina Ferreira, saíam do Terreiro do Paço convictos de que "aqui e lá fora mostrou-se o sentimento negativo que este Governo provoca".

Como milhares de outros manifestantes que começavam a deixar a praça, a boa disposição era visível no rosto deste casal: "Sabe sempre bem um dia de luta", resumiu Nuno Miguel.

No centro do Terreiro do Paço, junto à estátua, foi instalado um microfone e um sistema de som, abertos a quem quiser dar voz ao seu protesto.

Pelas 19:15 continuavam ainda várias centenas de pessoas no Terreiro do Paço, muitas delas sentadas no chão, conversando e empunhando ainda os cartazes com que desfilaram pelas ruas da Baixa desde o Marquês de Pombal.

O movimento "Que se lixe a `troika`" convocou para hoje manifestações em mais de 40 cidades, em Portugal e no estrangeiro para pedir o fim das políticas de austeridade.

Com o lema "Que se lixe a `troika`, o povo é quem mais ordena", a manifestação hoje convocada para dezenas de cidades portuguesas e algumas estrangeiras, que conta com o apoio da CGTP, coincide com a presença da delegação da `troika` (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), em Lisboa, para fazer a sétima avaliação do memorando de entendimento.

As manifestações foram antecedidas por diversos protestos que ocorreram nas últimas semanas, junto de governantes, quase sempre ao som de "Grândola, Vila Morena".

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