Ministra do Ambiente na Grande Entrevista. "Agora interessa trabalhar"

Ministra do Ambiente na Grande Entrevista. "Agora interessa trabalhar"

"A maior urgência é recuperar o que foi danificado" nas semanas de mau tempo, afirmou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho na Grande Entrevista da RTP.

RTP /
Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia RTP

"A extensão da devastação desta calamidade é enorme", reconheceu a governante, lembrando a imensa pluviosidade em três semanas, devido a um "comboio" de sete tempestades. A ministra lembrou que se registou "um dezembro que teve 130 por cento acima da pluviosidade média, seguido de um janeiro que foi duas vezes e os primeiros 15 dias de fevereiro bateram o recorde de registo do país em termos de pluviosidade".

"Houve um recorde absoluto de quantidade de chuva em fevereiro" em Coimbra, lembrou e, com a depressão  Kristin, além da chuva, houve "ventos superiores a 210 quilómetros hora", muito acima das previsões do IPMA, os quais tiveram "consequências muito graves".

"Alguns pinhais estão destruídos a 70 e 80 por cento", revelou, lembrando o impacto também em casas e empresas e frisando a necessidade imperativa de "regressar à normalidade".
Recuperar o país

Em termos de Ambiente, "há a recuperação dos rios e ribeiras", dando o exemplo do rio Mondego e seus diques. "Há todo um país que é preciso recuperar", referiu a ministra, lembrando que o litoral ficou muito destruído. "Há praias sem areia" e é necessário vigiar as arribas e limitar acessos enquanto decorrem os trabalhos mais urgentes antes de uma intervenção mais profunda, referiu Maria da Graça Carvalho.

A crise com o rio Mondego foi a mais preocupante, com descargas da barragem da Aguieira a decorrerem logo desde janeiro, para controlar o fluxo do rio e as inundações. Mas, "houve um conjunto de dias na altura pior, em que choveu três vezes e meia a dimensão da Aguieira".

A ministra destacou a operação "muito minuciosa" implementada pelos técnicos da Agência Portuguesa do Ambiente, que foi essencial para impedir que a baixa da cidade de Coimbra ficasse inundada.

A prevenção foi a pedra de toque, destacando-se a decisão de interditar a A1, uma ideia da própria ministra de imediato adotada pelos autarcas e restantes técnicos.
Girabolhos é "fundamental"

Maria da Graça Carvalho fez questão de mostrar a destruição ao seu homólogo europeu e sabe que ele fez já "um relatório muito realista de tudo mau que viu", algo importante para a ajuda que Lisboa se prepara para pedir a Bruxelas.

A presença de responsáveis do executivo e dela mesma. foi aliás determinante para apoiar a população das zonas afetadas, até para convencer as pessoas a sair ou prestar conforto, considerou.

A construção da barragem de Girabolhos poderá ser muito relevante para controlar os fluxos das águas. "Se tivessemos ali outra barragem teríamos mais uma variavel de retenção", referiu.

A barragem poderá levar entre cinco e sete anos a construir, mas, "é fundamental para o controle", referiu, admitindo que Girabolhos será "para avançar".
Adaptar o país

Sobre o PTRR, o programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência,  anunciado pelo primeiro-ministro, a ministra revelou que "é de adaptação do país às alterações climáticas", referindo que o plano é "muito mais rápido e focado nas políticas" do que o PRR em curso. "A primeira fase é a de recuperação" de tudo o que se perdeu, a segunda é a de "resiliência, preparar um país mais resistente", adaptado, "olhando para o ciclo da água, para as infraestruturas, os nossos rios, o litoral, a cibersegurança, para os sistemas de saúde, para a gricultura", exemplificou. 

"Algumas coisas já estavam previstas no nosso programa de governo [o Sustentável 20/30], mas vão ser realizadas de forma mais focada e mais acelerada", acrescentou, dando como exemplo os programas já em andamento no litoral.

"Temos de ser muito mais rápidos, se calhar olhar para toda a costa", reconheceu. 

A "dimensão de obra" é "muito grande, é nas barragens, no litoral, nos rios, nos diques, na resiliência do sistema elétrico nacional, nas infraestruturas..." referiu.

Maria da Graça Carvalho pediu em novembro um relatório sobre as barragens, que comprovou que as hidroelétricas "estão muito bem", tendo sido detetados "alguns problemas nas mais pequenas, precisando de vigilância e cuidados".

"Depois destas tempestades é importante verificar como está tudo", adiantou.
Coragem para demolir

"O nosso país está muito exposto às alterações climáticas devido à sua situação geográfica", por isso "temos de ser mais resilientes" recomendou a responsável, lembrando a seca verificada há apenas dois anos.

Para já, "temos água para dois anos" mas, atualmente, "passamos das cheias para a seca num instante", referiu. "São fenómenos que se vão repetir com alguma frequência, mas imprevisíveis", sendo necessário perceber se a região centro será normalmente a mais danificada.

As inundações verificaram-se em áreas onde vivem mais de 100.000 pessoas, notou o jornalista Vitor Gonçalves, questionando o que se pode fazer perante os riscos.

"É preciso que não haja mais construção" afirmou de imediato a ministra.

"Cometeram-se muito erros nos anos 70 e 80" do século passado, apontou. 

"Quando temos uma cheia a invadir a casa, o rio está no seu leito, é a casa que está no sítio errado", admitindo que terá de "haver coragem para haver demolições", incluindo das habitações junto às arribas.

A ministra recordou que, no verão passado, houve demolições na ilha de Faro, tendo sido possível oferecer novas habitações aos moradores ao abrigo do PRR. "Conseguimos que as pessoas mudassem voluntariamente, para casas novas", disse.

"Este tipo de exercício tem de se repetir por todo o país", recomendou. Uma competência que cabe sobretudo às câmaras, com apoio do governo e da APA e do LNEC, que terá de verificar o risco "para as pessoas e os animais".

"A vida é o primeiro bem que tem de se proteger", defendeu.
Soluções para preparar o verão

A hipótese de enterrar os cabos da rede elétrica para fazer face a futuros fenómenos extremos, uma operação extremamente onerosa, fez com que já tenha sido pedido um estudo sobre a hipótese, o seu custo/benefício e localização e as fontes de financiamento, revelou Maria da Graça Carvalho. "Comparando com outros países Portugal tem a menor percentagem de linha enterrada, 20 por cento", lembrou, admitindo que a solução venha a ser adotada para a região centro e para a entrada das grandes cidades.

"Não tínhamos vento, os eventos de vento são muito recentes", justificou a governante. "Agora, é preciso fazer esse esforço".

Maria da Graça Carvalho admitiu ainda estar já preocupada com o verão e com os incêndios, revelando que "estamos já a fazer a preparação".

Vai ser um verão "difícil por várias razões", reconheceu, lembrando que as árvores derrubadas devido ao vento e às cheias se irão tornar combustível fácil. "O verão vai ser mau, com muitos incêndios, é um ciclo, cada um torna o outro muito pior", referiu. 

"Temos de agir" afirmou, assumindo que, só em Leiria, há cinco a oito milhões de árvores caídas que terão de ser retiradas e as áreas limpas. 

"Vamos tentar", prometeu, revelando que poderão vir a ser utilizados fundos já alocados ao Ambiente no PRR, em conjunto com a Agricultura, para intervir na Floresta e "limpar aquela zona de Leiria, Marinha Grande e Pombal".

"Temos o dinheiro, vamos utiliza-lo nisso e vamos fazer um modelo muito simples, em que as próprias pessoas podem limpar, com dinheiro que vão receber, tipo voucher", limpando elas os terrenos ou contratando quem o faça, adiantou a ministra. 

"Temos de resolver a questão da mão-de-obra", reconheceu, referindo que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, ICNF, os sapadores florestais e os vigilantes da natureza, poderão ajudar na logística, "com a sua gente". "São eles que vão liderar este programa do PRR, do fundo ambiental, para distribuir este dinheiro e fazer com que toda aquela região seja limpa". "Se [as pessoas] tiverem algum financiamento pode ser mais simples" para limpar os terrenos, avançou a responsável com alguma esperança de obter resultados entre março e o verão.

Nos espaços públicos terá de ser o Estado a intervir, sendo que o ICNF poderá entrar em terrenos privados para cortar árvores e limpar. "Tem de ser muito rápido, muito ágil", advertiu a governante.

"Agora interessa trabalhar", rematou no final da entrevista de Vítor Gonçalves.

Veja, ou reveja, a entrevista a Maria da Graça Carvalho.
 
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