Moçambicanos cortam refeições e procuram trabalho fora face a dificuldades
Famílias pobres em Moçambique estão a reduzir refeições, a procurar trabalho fora das suas comunidades e a depender mais dos mercados e de importações para aceder a alimentos, perante dificuldades persistentes de subsistência, segundo a FEWS NET.
Na sua mais recente análise sobre Moçambique, a Famine Early Warning Systems Network (FEWS NET), rede internacional de alerta precoce para crises alimentares financiada pelo Governo dos Estados Unidos, aponta que os agregados familiares mais vulneráveis enfrentam crescentes dificuldades de acesso a alimentos devido à combinação de choques climáticos, rendimentos insuficientes e preços elevados.
Segundo a organização, responsável pela monitorização e projeção de situações de insegurança alimentar e fome em diversos países, nas zonas mais afetadas pela insegurança e por perturbações dos meios de vida em Moçambique, as famílias pobres deverão recorrer a estratégias de sobrevivência negativas, incluindo a "redução do tamanho e da frequência das refeições" e a priorização da alimentação das crianças.
No centro e sul de Moçambique, a FEWS NET prevê igualmente um aumento da procura de trabalho fora das áreas habituais de residência, indicando que os agregados mais vulneráveis deverão recorrer à "migração laboral atípica" para compensar a perda de poder de compra e as dificuldades de acesso a alimentos.
Refere que os mercados moçambicanos estão a ser apoiados por importações regionais, salientando que "as importações da África do Sul estão a complementar a oferta dos mercados locais", numa altura em que a recuperação agrícola continua condicionada por atrasos nas plantações e limitações no acesso a sementes.
Segundo o relatório, a colheita da segunda época agrícola deverá contribuir para melhorar gradualmente a disponibilidade de alimentos em algumas regiões, mas muitas famílias continuarão sob pressão económica e alimentar nos próximos meses.
No norte do país, a situação permanece condicionada pelo conflito armado em partes de Cabo Delgado, onde ataques de grupos armados continuam a provocar deslocações populacionais e a limitar o acesso normal aos meios de subsistência.
Já no centro e sul, volta a alertar que a recuperação após as cheias registadas no início do ano continua lenta.
Essas inundações afetaram mais de 700 mil pessoas e danificaram cerca de 440 mil hectares de terras agrícolas nas províncias de Maputo, Gaza e Sofala, situação agravada posteriormente por períodos de seca e episódios de precipitação intensa, segundo dados anteriormente divulgados pelas autoridades moçambicanas.
A FEWS NET alerta ainda que o fenómeno El Niño deverá favorecer condições mais secas e temperaturas acima do normal em partes do sul e centro de Moçambique durante a próxima campanha agrícola, aumentando os riscos para a produção alimentar e para as famílias dependentes da agricultura de subsistência.