Moçambique identifica 78,2 ME suspeitos de branqueamento no imobiliário
O Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) suspeita de fundos de origem ilícita no setor imobiliário, envolvendo mais de 5.000 milhões de meticais (78,2 milhões de euros) em alegadas práticas de branqueamento de capitais.
Num Relatório de Análise Estratégica, o segundo divulgado este ano pelo GIFiM, neste caso sobre o setor imobiliário e a que a Lusa teve acesso, o organismo conclui que pessoas singulares e coletivas receberam valores avultados através de depósitos em numerário e transferências, incluindo provenientes de entidades públicas, posteriormente canalizados para aquisição de imóveis.
A análise, referente ao período entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, apurou operações no valor de 5.006.719.207 meticais (78,2 milhões de euros), correspondente a "valores que se suspeitam serem de origem ilícita aplicados no setor imobiliário".
Segundo o relatório, os intervenientes identificados "aplicaram fundos, cuja proveniência se presume que seja ilícita, na aquisição de ativos no setor imobiliário, dissimulando assim a origem ilícita destes fundos, materializando a prática de atos suscetíveis de consubstanciar branqueamento de capitais".
O documento indica que 2025 concentrou, por si só, cerca de 66% do valor total identificado no período analisado, com 3.009 milhões de meticais (47 milhões de euros) movimentados em operações suspeitas relacionadas com o setor.
Os dados apontam para um crescimento acelerado dos montantes detetados, de 408 milhões de meticais (6,4 milhões de euros) em 2023 para 1.589 milhões de meticais (24,8 milhões de euros) em 2024 e mais de 3.009 milhões de meticais (47 milhões de euros) em 2025, representando um aumento anual de 89,4%.
O GIFiM refere o envolvimento de "empresários, colaboradores, gestores de empresas e entidades supostamente fictícias, bem como funcionários e administradores públicos e Pessoas Politicamente Expostas (PPE)" na movimentação de fundos destinados a operadores do setor imobiliário.
Entre os montantes agregados por categoria destacam-se operações associadas a empresários, no valor de 2.696 milhões de meticais (42,1 milhões de euros), empresas de fachada, com 940,5 milhões de meticais (14,7 milhões de euros), funcionários públicos, com 793,9 milhões de meticais (12,4 milhões de euros), e PPE, com 503,7 milhões de meticais (7,9 milhões de euros).
O organismo relata igualmente situações em que entidades públicas transferiram fundos para empresas privadas que posteriormente adquiriram imóveis. Em alguns casos, refere o relatório, os recursos foram utilizados na aquisição de bens por pessoas ligadas a agentes públicos, "presumindo-se que parte destes bens tenham sido adquiridos em nome de terceiros, funcionários públicos, ou pessoas a estes relacionadas, como forma de pagamento de subornos".
Segundo o documento, foram ainda identificadas "várias empresas supostamente fictícias" que registaram recebimentos de montantes elevados sem demonstrarem uma atividade económica compatível, acabando os fundos por ser encaminhados para operadores imobiliários.
As cidades de Maputo, Matola, Beira e Nampula concentram a maioria dos casos analisados, embora o GIFiM admita que a dimensão efetiva do fenómeno poderá ser superior à identificada.
A análise sustenta suspeitas relacionadas com crimes precedentes como corrupção, fraude fiscal, tráfico de influências, associação criminosa e falsificação de documentos, entre outras infrações económico-financeiras.
O estudo baseou-se na análise de 672 comunicações de operações suspeitas, 15 comunicações de atividade suspeita, 11.612 comunicações de limiares, 12 pedidos de informação e 36 relatórios de informação financeira produzidos pelo GIFiM.
Moçambique deixou a lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) em 24 de outubro de 2025, após três anos sob monitorização reforçada, mas terá de começar a demonstrar, a partir de setembro de 2027, os progressos alcançados na consolidação das medidas de combate ao branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo e proliferação de armas de destruição em massa.