Motores de combustão serão ativos tóxicos para fabricantes de automóveis

A União Europeia quer acabar com os carros com motor a combustão a partir de 2035, mas os produtores de automóveis e especialistas receiam que estes veículos se tornem os ativos tóxicos na revolução dos elétricos. A Volkswagen, a Ford Motor e outras grandes empresas do setor estão já a transformar os veículos para que sejam movidos a bateria, numa altura em que a procura por automóveis que queimem combustíveis fósseis está a diminuir.

RTP /
Tingshu Wang - Reuters

No início deste ano, Bruxelas anunciou que pretende proibir a venda de automóveis que usem combustíveis fósseis após 2035, de modo a eliminar 100 por cento das emissões de dióxido de carbono dos automóveis novos até essa data. Mas este plano a longo prazo está a gerar apreensão no setor.

Após a crise financeira de 2008, muitos bancos tentaram livrar-se dos chamados “empréstimos inúteis”, transferindo-os para outros bancos menos reconhecidos, ou em situações financeiras piores, assim limitavam os seus “ativos tóxicos” e aparentavam uma imagem melhor aos acionistas. De acordo com os analistas da Reuters, as empresas automóveis podiam fazer algo semelhante para não serem prejudicadas com a quebra de vendas dos carros com motor de combustão.

Para começar, um ativo tóxico é um investimento difícil ou impossível de vender a qualquer preço porque a procura por este entrou em colapso. Não há compradores dispostos a ativos tóxicos porque são vistos como uma forma garantida de perder dinheiro.

Contudo, as secções de produção de veículos mais poluentes não são consideradas ainda ativos tóxicos, visto que ainda são lucrativas. Mas com as imposições a nível ambiental, a venda destes automóveis tem os dias contados.

Na Europa, por exemplo, mais de três quartos dos carros novos serão elétricos até 2030, de acordo com analistas da Jefferies.
Como funciona a tranferência de ativos tóxicos?
De acordo com os dados do Refinity, a venda de veículos elétricos da Volkswagen vai representar um quinto das vendas da empresa alemã até 2025, o que pode gerar uma receita de 55 mil milhões de euros.

Já para a Tesla, de Elon Musk, as previsões apontam para um valor três vezes superior a este, com um lucro a superar os 160 mil milhões de euros
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Os fabricantes podiam, contudo, ter um lucro superior se se associassem, tanto na produção de motores a combustão como de veículos elétricos. Ao juntarem os departamentos de produção de carros a combustível e vendessem parte a um investidor financeiro, conseguiam manter o lucro, mesmo com a queda nas vendas destes veículos. Assim, ao reterem apenas uma pequena parte, as empresas de produção não teriam prejuízo nas suas contas.

Mas fazer uma reestruturação semelhante à dos grandes bancos em 2008 não será assim tão fácil, alertam os analistas. Ainda assim, à medida que a revolução verde se vai tornando uma realidade, as fabricantes terão de ponderar investir em alterações cada vez maiores e mais rapidamente.
Menos veículos a combustível, menos emprego
As fabricantes europeias de automóveis alertaram no início deste mês que, se a Comissão Europeia acabar mesmo por proibir os carros com motores a combustão a partir de 2035, cerca de meio milhão de empregos poderão ser postos em causa no setor.

Uma sondagem divulgada no Financial Times, que envolveu quase 100 empresas da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis, CLEPA, revelou que, dos 501 mil postos de trabalho em perigo, mais de dois terços desapareceriam nos cinco anos anteriores a 2035, o que dificultaria a mitigação dos “impactos sociais e económicos” causados pelo desemprego em massa.

Contudo, em simultâneo, um inquérito da PwC mostrou que seriam criados 226 mil novos empregos no fabrico de peças para os automóveis elétricos, o que reduziria as perdas de postos de trabalho para cerca de 275 mil durante as próximas décadas.

Ainda que Bruxelas não tenha ordenado a substituição dos automóveis com motores de combustão por carros movidos a energia elétrica em concreto, fabricantes de automóveis como a Volkswagen, a maior da Europa, praticamente excluíram outras tecnologias, como o hidrogénio.
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