"Não é tempo de pensar na fatura". A Grande Entrevista a Mário Centeno

Mário Centeno defende que a prioridade para Portugal nesta fase de crise pandémica não é a fatura, mas acredita que a economia e a sociedade devem reabrir de modo a que o país possa regressar aos valores do período anterior à Covid-19. Na Grande Entrevista da RTP, o ministro português das Finanças admitiu que abril foi um mês "dramático" do ponto de vista económico, mas acredita que em 2022 já teremos recuperado.

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"A crise económica, como tem origem na crise sanitária, seguirá exatamente a curva epidemiológica" da Covid-19, explicou Mário Centeno na Grande Entrevista da RTP. Foto: Pedro Nunes - Reuters

“Não é o tempo de pensar na fatura. Nós temos de combater a crise na primeira dimensão dessa crise, que foi sanitária e atingiu o mundo na sua quase totalidade de forma muito violenta, e devemos neste momento estar orgulhosos da forma como o fizemos”, declarou à RTP Mário Centeno. “Os resultados mostram o sucesso dessa nossa ação, que é absolutamente coletiva e que requereu um grande esforço do nosso Serviço Nacional de Saúde” e dos portugueses, acrescentou.

No entanto, o ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo defende a necessidade de “começar a abrir a nossa economia e a sociedade àquilo que nos permita regressar ao período anterior a esta crise”.

“Vamos ter de adaptar o período de recuperação económica, que começa já, a medidas que sejam compatíveis com essa recuperação, e não são necessariamente medidas que apelem à dimensão da fatura, mas sim à retoma da atividade”, sustentou.

Para Centeno, a palavra que melhor descreve o momento em que vivemos é “incerteza”. “A incerteza quanto à curva epidemiológica, a incerteza quanto à existência de uma segunda vaga ou de saber se ganhamos imunidade. Todas estas incertezas, que não são do foro económico, transpõem-se para as decisões económicas e financeiras de uma forma muito rápida e com grande impacto”, afirmou.
Níveis de atividade “recuperados” em 2022
Quanto à recuperação económica de Portugal, o ministro mostrou-se positivo. “Abril foi o momento mais dramático do ponto de vista económico desta crise sanitária. Em maio já estamos a ver mais atividade e vamos, se conseguirmos seguir o plano que o Governo definiu de abertura sequencial com as garantias do ponto de vista do distanciamento social e físico (…), conseguir recuperar gradualmente”.

“O terceiro trimestre vai ser de forte recuperação e o quarto trimestre provavelmente abrandará um pouco essa recuperação. Nós prevemos que ao longo do ano 2022, daqui a dois anos, estejamos a recuperar os níveis de atividade de 2019”, adiantou. "A crise económica, como tem origem na crise sanitária, seguirá exatamente a curva epidemiológica” da doença, explicou Mário Centeno.

Centeno descreveu todas as dificuldades sentidas no último mês de abril e o modo como o Governo fez face às mesmas, começando pelo grande número de empresas que acederam ao lay-off. “É uma enorme almofada de proteção do emprego que conseguimos montar em tempo absolutamente record e com sucesso indesmentível face à severidade da crise”, considerou.

O responsável pela pasta das Finanças reconheceu, porém, que “há números que vão fugindo a estas almofadas”, tais como os do desemprego. “Temos já números de desemprego que mostram um aumento significativo”, declarou, acrescentando que o número de registados nos centros de emprego está na ordem dos 75 mil a mais face a abril do ano passado.

“Calculamos que o desemprego possa crescer três ou quatro pontos percentuais até ao final de 2020”, apontou Mário Centeno.
Quebras de atividade fazem PIB cair 6,5%
O presidente do Eurogrupo apresentou ainda os números relativos ao PIB, para os quais terá contribuído a redução da atividade originada pela pandemia.

“Temos diferenças de comportamento setorial que vão desde quebras superiores a 40 por cento nos setores do comércio e do retalho, que estiveram praticamente fechados, a quebras muito mais reduzidas nas atividades financeiras e nalguns serviços menos afetados pela crise sanitária, quebras que podem não exceder os dez por cento”, começou por explicar.

“No seu conjunto, estas quebras de atividade em abril podem ter retirado ao PIB anual qualquer coisa como seis e meio por cento”, estimou. “Nós podemos estar a observar uma queda em termos nominais no PIB em Portugal superior aos 15 mil milhões de euros, em termos anuais”.

“Esta crise, dada a sua incerteza, vai ter de ser vivida mês a mês, com decisões muito coordenadas a nível europeu. Nós tínhamos no início do ano 45 por cento do PIB em exportações. Se o mercado único não recuperar, se as fronteiras continuarem fechadas, todo este processo se torna mais complexo. Por isso, este é um exercício de coordenação único, nunca na história foi tentado nada parecido com isto, daí também a valorização que devemos fazer da resposta que foi dada”.
A fundamental resposta europeia
Mário Centeno considera, assim, que a recuperação económica dos Estados-membros “passa por refazermos o mercado único, pela livre circulação de trabalhadores. Juntamente com o Euro, são os três pilares daquilo que é a Europa social e o nosso destino comum do qual beneficiámos de forma extraordinária ao longo das últimas décadas”, afiançou.

“Todos os países sentiram necessidade de transpor parte da resposta para a União Europeia”, explicou o ministro, acrescentando que 850 mil milhões de euros é o valor necessário para “dinamizar a economia europeia e recuperarmos os níveis que tínhamos anteriores ao [novo] coronavírus”.

“Esse é um primeiro número, depois temos outras parcelas que têm a ver com dimensões mais sociais e de rendimento”, continuou. “O BCE somou as parcelas todas e obteve um número próximo dos 1,5 biliões, e nós devemos continuar neste processo de identificação das necessidades de que vamos precisar e construir um acordo que seja muito robusto”, algo que o ministro não tem dúvidas que vai ser conseguido.

“Vai ser um compromisso duradouro, que vai atravessar todo o quadro financeiro plurianual que se avizinha e que deverá iniciar-se em janeiro de 2021”, afirmou.
Não há razão para temer crise de financiamento, diz Centeno
Com a confiança elevada quando a esta resposta europeia, Mário Centeno disse não existir razão para temermos uma crise de financiamento. “Prevê-se que a resposta europeia seja forte e que permita aos países financiar-se a taxas muito baixas e com financiamento garantido em grandes proporções”, explicou, acrescentando que “as instituições europeias reagiram de forma célere e muito coordenada” a esta crise.

“As nossas taxas de juro estão abaixo do que estavam há um mês e abaixo do que estavam há um ano”, e vão seguir “aquilo que for a evolução da economia europeia”, mas a perspetiva é que se mantenham baixas. “Esta é uma oportunidade também única para o investimento”, defendeu.

Quanto à TAP, o ministro das Finanças garantiu que “a responsabilidade financeira com que o Governo tratou nos últimos quatro anos” essa empresa irá manter-se. “Não há razão para inverter” a posição do Governo sobre a TAP, afirmou, frisando que tanto a defesa dessa empresa como a defesa do Estado enquanto acionista “estarão acautelados”.

Veja ou reveja aqui a Grande Entrevista com o ministro das Finanças, Mário Centeno.
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