Economia
"No limite, vamos ter dias de paragem". Indústrias "fazem contas" aos custos da energia
O aumento do preço da energia está a tornar-se numa das grandes preocupações da indústria europeia, como o setor do papel e do vidro. Há empresas em Portugal que veem os custos do gás e da eletricidade a duplicar ou triplicar. Receando os efeitos, tentam que não se reflitam nos preços finais, mas admitem a possibilidade de abrandar a produção.
" Todos os dias faço contas como fazia na escola primária." As contas de Conceição Bairrada são para tentar gastar o mínimo de gás. "Faço contas à fabricação, todos os dias faço contas às peças e devo lhe dizer que está a ser muito difícil", admite esta responsável na empresa I.Glass, em Leiria, que produz peças de vidro e onde os fornos nunca se desligam.
As despesas do gás na empresa aumentaram cerca de 20% este ano, ultrapassando os sete mil euros. Estas contas juntam-se a outras como o IVA ou o ISP: "Isto não está a dar com nada", confessa Conceição.
Diana Craveiro - RTP Antena 1
Noutra empresa, a Vidrexport, na Marinha Grande, Jorge Casal queixa-se do mesmo. Por enquanto, a empresa tem preço fixo de gás, mas aproxima-se a renegociação do contrato e o diretor teme um aumento na ordem dos 38%. "Estamos a falar em aumentos a rondar os 60 mil euros por mês", detalha, rejeitando subir o preço de venda.
"Dificilmente o mercado vai aceitar", considera Jorge. É um aumento que também Conceição Bairrada teme fazer: "É uma batalha, porque a gente não pode aumentar todos os dias os preços aos clientes, porque os clientes, por sua vez, também não podem aumentar aos clientes deles", comenta.
Contas disparam na Navigator
Apesar dos investimentos dos últimos anos feitos em energias de fonte renovável, o gás continua a ter um peso importante para a Navigator, um dos pesos pesados da indústria do papel em Portugal. As estimativas da empresa apontam que o consumo corresponde a 5% do gás natural utilizado em Portugal e 3% na energia elétrica.
Miguel Bastos - RTP Antena 1
Na fábrica de Cacia, em Aveiro, é produzida pasta de papel, mas também guardanapos, papel higiénico e rolos de cozinha. É a partir daqui que Nuno Rodrigues, diretor de energia da Navigator, explica à RTP Antena 1 que as contas estão também a apertar nesta firma. "Tínhamos um preço na ordem dos 25 a 26 euros megawatt-hora (MWh) e já assistimos a um preço acima dos 80 euros MWh num período recente", refere. Enquanto no caso do gás as contas têm triplicado, na energia elétrica vão duplicando: já houve um "pico" de 120-140 euros MWh , quando antes rondavam os 60 euros MWh.
"No limite, vamos ter dias de paragem", admite Nuno Rodrigues, perante um cenário de falta de ajudas do Estado. Para o próximo ano, a Navigator antevê custos agravados impulsionados pela componente do gás.
c/ Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1 (texto)