Nuno Santos afirma-se inocente e exige inquérito imparcial

O ex-diretor de Informação da RTP Nuno Santos reagiu esta quinta-feira às conclusões do inquérito levado a cabo na empresa sobre o alegado fornecimento de imagens não editadas da manifestação de 14 de novembro garantindo que não autorizou nenhum "visionamento de brutos", tendo mesmo sido ele que impediu a saída de DVD com imagens gravadas.

Eduardo Caetano, RTP /
Nuno Santos rejeita conclusões de inquérito apelidado de "parcial" RTP

Nuno Santos reagiu ao “inquérito aos factos relacionados com a entrada indevida, facultada pela Direção de Informação de Televisão, de elementos estranhos à empresa tendo em vista a visualização e eventual entrega de imagens não emitidas por qualquer serviço de programas da RTP, relacionadas com os incidentes verificados no dia 14 de novembro”.

Começando por considerá-lo desde logo pelo seu título tendencioso para depois afirmar que “o mesmo – não refletindo a verdade dos factos – é já um convite às conclusões à medida que, pelos vistos, resultaram do auto-denominado “inquérito”.

Não lhe tendo sido facultado o relatório final nem a alegada prova produzida em sede de inquérito, o jornalista considera que lhe devem ser facultados esses instrumentos para que possa, exercendo o direito ao contraditório que todos os cidadãos é constitucionalmente garantido, se possa defender.

“O 'resumo' que foi divulgado é-me pessoalmente dirigido, o que é tanto mais estranho quanto me foi transmitido telefonicamente ao final do dia de sexta-feira 23 e posteriormente reiterado por escrito a meu pedido, que não havia necessidade de me ouvir no “inquérito”, pois teriam sido recolhidos todos os elementos relevantes para o apuramento dito “rigoroso” dos factos.” afirma Nuno Santos. “E que factos eram? A resposta foi lapidar: “Esses que andam aí nos jornais”. Se fui ouvido, e por insistência minha, fiquei com a consciência plena de que o meu depoimento de nada poderia servir, como veio a verificar-se.” “Um desfecho incompreensível!”, denuncia o antigo diretor de informação da estação pública.

No texto que tornou público esta sexta-feira, o jornalista considera que o resultado do inquérito estava à partida condicionado, e se lhe “afigura um pretexto para obter e, depois, justificar” o seu afastamento, não compreendendo “que se manche a reputação de profissionais, e por arrastamento se coloque potencialmente em perigo a integridade física de repórteres da RTP que cubram as próximas manifestações, só com o objetivo de arranjar esse pretexto”.

Nuno Santos chega a esta conclusão, diz no comunicado, por considerar analisado o processo que o enformou, que o “resumo do inquérito” contém aquilo que qualifica de graves falsidades e lamentáveis juízos de valor.

O agora ex-diretor faz questão de reafirmar que não autorizou “em momento algum o visionamento de brutos sobre os incidentes de 14 de novembro”, a saída dos polémicos DVD´s “cuja transcrição foi feita sem o meu conhecimento”, se deveu à sua intervenção e à do diretor-adjunto, Vítor Gonçalves, sendo que ausente em serviço em Londres, solicitou ao diretor-geral da RTP [Luís Marinho] um contacto para discussão do assunto encontro esse que foi concretizado no dia seguinte, em Lisboa, na sede da RTP.

Nuno Santos reafirma na sua nota que os seus “comportamentos acima referidos não se coadunam com qualquer actuação desleal ou desconforme às regras”, recordando que alguns meses antes tinha “recusado ao Provedor do Espectador (…) acesso aos designados “brutos” numa reportagem sensível sobre a utilização de crianças da Casa Pia em experiências científicas, tendo ficado bem claro o meu pensamento sobre o tema”, para questionar como seria possível explicar “que, de repente, tivesse mudado tão radicalmente a minha posição de fundo sobre esta matéria?”.

Havendo “semelhanças flagrantes entre os tópicos do “resumo” agora dado a público e aqueles que me foram referidos, antes da abertura do “inquérito”, pelo Presidente do Conselho de Administração. Aliás, a declaração deste órgão a anunciar a minha demissão contém já estas conclusões, antes do “inquérito”, Nuno Santos questiona a imparcialidade do Inquérito.

“Os inquiridores da RTP dependem do Conselho de Administração, o que torna evidente a necessidade de uma entidade imparcial apurar a verdade”, lembra o jornalista, que termina o seu comunicado exigindo a realização de um inquérito “imparcial” seja da ERC, do Sindicato dos Jornalistas ou da Comissão da Carteira Profissional do Jornalista, para o qual manifesta desde logo a sua disponibilidade.

A título de balanço final Nuno Santos deixa uma mensagem, para dentro e para fora da RTP. “Durante os últimos vinte meses foi possível trabalhar na Informação da RTP com inteira liberdade e total independência perante todos os poderes e forças políticas, o que só pode ter causado incómodos. Trabalhar com inteira liberdade e total independência não é um detalhe desprezível nestes tempos incertos para o jornalismo e no clima que se vive na empresa e no país”.
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