Obama pode criar "jangada de problemas" na economia
O Estados Unidos podem "acabar enterrados em dívida" no rescaldo das políticas de estímulo adoptadas pela Administração Obama, o que deixará o Mundo confinado a uma "jangada de problemas", sustenta o economista Philip I. Levy. Em entrevista ao site da RTP, o especialista norte-americano avalia os defeitos e as virtudes das ideias em análise na cimeira do G20, em Londres.
Há grandes diferenças entre os Estados Unidos e a Europa. A Administração Obama tem advogado fortemente uma política de pesados empréstimos para financiar fundos de estímulo. Pelo contrário, as nações europeias têm privilegiado uma política de reavaliação da abordagem global à regulação. Existem problemas reais relacionados com ambas as políticas. Há poucos indícios de que tais estímulos fiscais discricionários funcionem e os constrangimentos dos empréstimos observados pelas nações europeias são muito reais. Ao mesmo tempo, uma manobra excessivamente rápida para regular o sistema financeiro mundial poderia causar mais danos do que benefícios.
Ao invés de eliminarem a clivagem, parece-me que vão encontrar outra coisa em que ambos podem estar de acordo: novos fundos para o FMI.
O Presidente dos Estados Unidos tem pedido mais acção aos líderes políticos do G20, em particular aos parceiros europeus, no sentido de estimularem as respectivas economias. Na Europa, o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, criticou os apelos de Barack Obama e o primeiro-ministro demissionário da República Checa, Mirek Topolanek, referiu-se aos planos da Casa Branca como um "caminho para o inferno". A longo prazo, o que acontecerá aos Estados Unidos e ao resto do Mundo em resultado da estratégia de estímulo fiscal de Obama?
Perfil
O economista Philip I. Levy, especialista residente do centro de
reflexão American Enterprise Institute (AEI) for Public Policy
Research, é um produto das universidades do Michigan e Stanford.
Enquanto membro do quadro de peritos do AEI, um think-tank recheado
de figuras ligadas ao movimento neoconservador (Paul Wolfowitz, Irving
Kristol, Richard Perle, entre outros), Philip I. Levy dedica-se ao
estudo de temas relacionados com o comércio internacional e o
desenvolvimento.
Antes de entrar para os quadros do AEI, em Washington, integrou a
equipa de conselheiros económicos do Presidente George W. Bush, entre
2003 e 2005.
De 2005 a 2006, trabalhou no gabinete de planeamento
político do Departamento de Estado, ao serviço de Condoleezza Rice.
No plano académico, Levy leccionou durante nove anos na Universidade
de Yale, onde desempenhou o cargo de director académico do Centro para
o Estudo da Globalização.
Essa é uma questão que está a motivar uma discussão vigorosa entre economistas reputados. Os defensores do estímulo fiscal argumentam que isso vai reavivar as economias e, com elas, as receitas fiscais. Assim sendo, dizem, de um ponto de vista fiscal é melhor do que a alternativa. O problema é que há poucas provas (ou teorias) de que isto funciona bem. Nos Estados Unidos, o pacote de estímulo de quase 800 mil milhões de dólares desembolsa relativamente pouco no primeiro ano (e uma grande parte em cortes fiscais). Após o primeiro ano, a Administração Obama prevê que o país já esteja em recuperação. No entanto, continuam a planear despender centenas de milhares de milhões em estímulos.
Eu sou um céptico. Temo que os Estados Unidos e o resto do Mundo possam muito bem acabar com os Estados Unidos enterrados em dívida. Isso pode, por si só, causar mais problemas. Talvez tenha sido isto o que o primeiro-ministro Topolanek quis dizer com o "caminho para o inferno".
O primeiro-ministro britânico encontrou-se recentemente com altos quadros de 13 grandes instituições bancárias. Os executivos instaram Gordon Brown a manter as medidas de regulação de curto-prazo à margem dos resultados da cimeira do G20. De acordo com os gestores, tais acções acabariam por "minar a recuperação económica ou os objectivos mais amplos para uma reforma de médio-prazo". Isto também faz algum sentido, não?
Eles têm realmente razão. É expectável que um apertar da regulação neste momento acabasse por suprimir o crédito numa altura em que precisamos dele para estimular a economia. É por isso que a abordagem mais sensata para a regulação seria um caminho de médio a longo-prazo, depois de termos uma imagem mais ampla daquilo que correu mal.
Talvez valha a pena notar que o último grande esforço global de cooperação para a regulação financeira, o Acordo de Basileia II sobre a adequação do capital dos bancos, levou cerca de uma década a negociar e, no fim, foi incapaz de prevenir as falhas recentes. Isto é difícil de fazer.
É crível que os estímulos fiscais e as medidas de resgate da Administração Obama venham, eventualmente, a minar a estabilidade dos mercados financeiros globais?
É possível. A análise que o Gabinete de Orçamento do Congresso fez ao orçamento da Administração Obama prevê que a dívida dos Estados Unidos cresça de cerca de 40 por cento do PIB para mais de 80 por cento em 2019. O que é assustador nessa previsão é que a dívida deverá aumentar de forma regular nos últimos cinco anos da estimativa de dez e a situação demográfica dos Estados Unidos irá piorar as coisas.
Os países com uma espiral de dívida por gerir têm relativamente poucas opções válidas. Se seguirmos por esse caminho, isso vai certamente encorajar as preocupações com a inflação e a depreciação do dólar. Isso criaria uma verdadeira jangada de problemas.
O Presidente norte-americano esteve há uma semana no Capitólio para "vender" as propostas orçamentais da sua equipa ao Senado. Depois de exortar a opinião pública dos Estados Unidos a apoiar a política económica da Administração, Barack Obama sustentou que a espinha dorsal da proposta de orçamento coloca o país na direcção certa, "porque é isso que estabelece os alicerces de uma prosperidade segura e duradoura. Concorda com ele?
Não concordo. Concordo que precisamos de lidar com falhas no sector da saúde do país e com os problemas do aquecimento global. Mas as abordagens que o Presidente Obama tem proposto ameaçam minar as forças económicas do país. Até mesmo os números horrendos da dívida que já descrevi são optimistas, uma vez que partem do pressuposto de que algumas medidas controversas de receita vão ser aprovadas e de que as intervenções do Governo e os novos impostos não vão abrandar seriamente a economia. Eu não vejo equivalência entre uma dívida elevada, uma crise financeira global e uma "prosperidade segura e duradoura".
Num dos seus artigos mais recentes, publicado pela revista The American, escreveu que "o ponto crucial do problema é que não estamos a permitir que as grandes companhias falhem". Deveria a Administração federal simplesmente desistir de grandes entidades como a AIG, o Citigroup ou mesmo a General Motors?
O Governo federal deveria trabalhar para garantir que as companhias que já não são viáveis passem por um processo ordeiro de falência. É certo que isso iria requerer muito trabalho. Como tal não seria propriamente o mesmo que desistir. Significaria que os accionistas que apoiaram gestões fracas seriam eliminados. Ao mesmo tempo, em particular nas instituições financeiras, seria necessário um esforço para assegurar que as reorganizações não causassem problemas sistémicos.
A analogia seria o fracasso de um banco pequeno, onde os depósitos estão garantidos até a um nível razoável.
Por que motivo descreve como um risco sistémico a "revolta do público" perante as políticas de bónus em algumas das instituições resgatadas?
O público tem muitas razões para se sentir revoltado. Centenas de milhares de milhões de dólares estão a ser derramados para instituições com relativamente pouca responsabilização. Accionistas e gestores de grandes bancos lucraram fabulosamente quando os tempos eram bons. Se eles se limitam a apresentar a factura aos contribuintes quando os tempos são maus, é provável que os contribuintes rejeitem elementos importantes do sistema no seu todo.
Vimos algo semelhante com as críticas aos bónus da AIG. A investida ameaçou empurrar um número significativo de executivos talentosos para fora dos nossos maiores bancos, no preciso momento em que precisamos dos seus conhecimentos para a recuperação do sistema.
As restrições aos bónus não foram limitadas àqueles que transgrediram. Atingiram toda a gente. Além do mais, iriam certamente violar as protecções constitucionais que têm sido, há séculos, uma importante pedra angular da nossa economia.
Argumentaria também que a componente absolutamente indispensável da recuperação económica deve ser a revitalização do sector financeiro. Todas as estimativas credíveis que tenho visto sugerem que isto vai custar outras centenas de milhares de milhões de dólares. Neste momento, os políticos dos Estados Unidos consideram que o humor do público não permitiria uma tal despesa. Sem um sistema financeiro funcional, citando o presidente do Banco Mundial Robert Zoellick, os pacotes de estímulo vão produzir um simples "impulso de açúcar".
Depois de a China ter sugerido a criação de uma unidade monetária global, Barack Obama fez uma defesa pública do dólar, dizendo que a moeda dos Estados Unidos se encontra "extraordinariamente forte". É assim tão impensável, a proposta de Pequim?
A preocupação da China tem fundamento. Contudo, penso que a sugestão para uma alternativa não é realista. Em suma, as pessoas querem ter moeda porque ela pode ser trocada por coisas tangíveis. Isso é verdadeiro para o dólar, para a libra britânica, para o euro ou para o iene. Já não é tão verdadeiro para os Direitos Especiais de Saque do FMI, excepto na medida em que os DES se traduzem nessas outras moedas.
O que eu quero dizer é que a China está a procurar uma moeda extraterrestre, mas está limitada às nossas opções terrestres.
Pode a crise económica e financeira impedir Obama de obter um segundo mandato na Casa Branca?
É uma possibilidade. O Presidente Obama ainda goza de um apoio superior a 60 por cento nas sondagens e tem sido cuidadoso ao falar da forma como herdou um défice e uma crise. Mas, através do seu pacote de estímulo e do orçamento, enveredou por uma abordagem distintamente partidária na resolução da crise. A sua abordagem para o resgate dos sectores financeiro e automóvel tem muito em comum com o Presidente Bush, mas tem valido a oposição de porções significativas do Partido Republicano.
Se as propostas do Presidente não produzirem os resultados prometidos, ele poderá chegar vulnerável a 2012.