Olivais "alentejanos" dos espanhóis recolhem aprovação das cooperativas, mas críticas dos ambientalistas

Beja, 16 Mar (Lusa) - Os novos olivais que "nascem" das mãos de espanhóis no Baixo Alentejo, sobretudo em concelhos "banhados" por Alqueva, suscitam reacções diferentes na região, com a aprovação de cooperativas agrícolas, que querem primar pela diferença, e críticas dos ambientalistas.

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"Os espanhóis vieram `espicaçar` o sector da olivicultura em Portugal e no Alentejo, que estava adormecido, e trazer tecnologia e outra mentalidade", opina à agência Lusa Aníbal Martins, da Cooperativa Agrícola de Brinches (CAB, Serpa) e da União de Cooperativas Agrícolas do Sul (UCASUL).

Idêntica opinião tem Manuel Fialho, da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos, o maior produtor e embalador de azeite em Portugal: "Não vejo inconvenientes em terem vindo para cá, são investidores como quaisquer outros".

"O mal seria se plantassem olivais e levassem a azeitona para Espanha. Mas eles investem em lagares e o azeite que produzem é exportado, contribuindo para diminuir o défice enorme da balança comercial portuguesa", diz.

Aplausos que esbarram com críticas dos ambientalistas, que afirmam que os olivais intensivos nas herdades de grandes grupos económicos, como os espanhóis, "ameaçam os recursos naturais no Sul do país".

Segundo a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a Quercus, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e o Centro de Estudos da Avifauna Ibérica (CEAI), alguns desses investimentos olivícolas "nascem" em áreas classificadas como Rede Natura 2000.

"Esta é uma estratégia de desenvolvimento rural insustentável, a médio e longo prazo, e, por essa razão, inaceitável, grave e ilegal", alertam os ambientalistas, dirigindo especiais críticas ao projecto de instalação de um olival intensivo na Herdade dos Machados, Moura.

Aspectos ambientais à parte, as cooperativas agrícolas da região de Moura e Serpa, com forte implantação olivícola, e também o Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL) preferem destacar a visão dos espanhóis, acompanhada de maior liquidez financeira, ao aproveitarem o "enorme potencial" da região.

"O Alentejo tem condições extraordinárias para a produção olivícola e de azeite e, além dos terrenos serem mais baratos, a água de Alqueva foi o chamariz para o início desta `avalanche`", afiança Henrique Herculano, director técnico do CEPAAL.

Já o responsável da CAB, que diz ter sido a cooperativa a "culpada" pela vinda dos espanhóis, com um projecto-piloto de plantação de novos olivais divulgado em Espanha, recua até à altura em que Portugal obteve apoios de Bruxelas para mais 30 mil hectares de olivicultura para acrescentar outra razão.

"Entre 2000 e 2002, se nos tivéssemos apercebido que seria possível plantar 30 mil novos hectares com os portugueses, nunca teríamos avançado com as acções para atrair espanhóis. Foi uma oportunidade que os agricultores portugueses desperdiçaram e que os espanhóis aproveitaram e os subsídios, junto com a terra barata, foram determinantes", assegura.

O total de terra já comprada por grupos económicos espanhóis é uma das questões para a qual não há resposta certa, mas as estimativas variam entre os 15 e os 20 mil hectares.

"Já alguém fez a conta ao número de hectares que os espanhóis compraram aqui e comparou-o com a área total do Baixo Alentejo? É um Baixo Alentejo muito grande, num Alentejo maior ainda, e há muita terra. Do que há falta é de investidores nacionais, aí é que está o problema", lança também à discussão Manuel Fialho, sem se perder em contas.

De uma coisa todos estão certos. Os olivicultores alentejanos não podem almejar concorrer com os espanhóis em termos de quantidade de azeite, mas sim na qualidade.

Para tal, devem aproveitar as variedades características do olival tradicional e o facto da região ter três Denominações de Origem Protegida (DOP): Moura, Alentejo Interior e Norte Alentejano.

"O resultado final das variedades escolhidas pelos espanhóis é um azeite pouco estável, mas de boa qualidade, que não influencia o azeite alentejano, que continuará a ser produzido com as variedades tradicionais da região, como a galega ou a cordovil", afiança Aníbal Martins.

Para Manuel Fialho também está claro que o azeite dos olivais dos espanhóis serve, sobretudo, para exportação, pelo que o da cooperativa de Moura e Barrancos, destinado principalmente ao mercado nacional, terá de primar pela diferenciação de ser produto DOP.

"O olival tradicional de Moura e Serpa vai ficar quase como uma ilha rodeada, em todo o Baixo Alentejo, de plantações modernas, com produções e escalas completamente diferentes. Mas não nos incomoda, antes pelo contrário, todos contribuímos para resolver o problema grave que é o défice astronómico da balança comercial do azeite", diz.

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