ONU. Discriminação por se ser pobre deve ser tornada ilegal

Olivier De Schutter, relator especial das Nações Unidas irá pedir na Assembleia Geral da ONU que o termo "pobreza" seja incluído na lei antidiscriminação ao lado de sexismo e racismo, "para parar de destruir a vida das pessoas".

RTP /
Adriano Machado - Reuters

Tal como discriminar pela raça ou sexo foi tornado ilegal, assim também deverá ser ilegal discriminar por se ser pobre. Olivier De Schutter, relator especial sobre pobreza extrema e direitos humanos irá levar o tema para debate na próxima sexta-feira, durante a Assembleia Geral da ONU.

Para o relator, o preconceito contra os pobres é "uma mancha na sociedade" que precisa ser ilegalizada.

"A pobreza nunca será erradicada enquanto se permitir que seja razão para restringir o acesso à educação, casa , trabalho e benefícios sociais àqueles que mais precisam" afirma o alto funcionário da ONU, citado na publicação britânica The Guardian.

"O mundo está finalmente a acordar para as injustiças do racismo, sexismo e outras formas de discriminação, estabelecendo leis para impedir que destruam a vida das pessoas. A pobreza… deve ser tratada com a mesma seriedade", acrescenta De Schutter.

No relatório, a ser divulgado na sexta-feira, De Schutter identifica a "pobreza" como o estereótipo negativo dos pobres e "uma importante fonte de não-aceitação de direitos" na medida em que pode desencorajar as pessoas a se candidatarem a empregos e benefícios.

O documento apresenta casos onde empregadores julgam os currículos pela área de residência – ou seja, se morar numa zona pobre, o candidato é excluído.
Outro caso citado remete para a recusa de proprietários a alugar casa a inquilinos com benefícios e alunos de escolas primárias mais pobres, privilegiando pessoas com recursos.

De Schutter pede aos governos que incluam "desvantagens socioeconómicas” nas leis anti-discriminação como um elemento de proteção das pessoas, semelhante à já existente para a idade, sexo, deficiência e raça. O relator também pretende uma “ação afirmativa pró-pobres”, que considera essencial para interromper a "viciosa armadilha da pobreza".

O relator acredita que muitos países reconhecem a questão,  principalmente porque "a desvantagem socioeconómica não é uma identidade fixa que alguém não pode mudar, como raça, idade ou orientação sexual". "Embora seja um princípio correto, a pobreza é, no entanto, uma armadilha da qual os indivíduos podem achar difícil escapar", argumenta De Schutter.

Porque a "humilhação e exclusão" não desaparecerá só por si, De Schutter afirma: "O que precisamos combater é um discurso que vem crescendo desde a década de 1980, sobre pessoas que 'abusam do sistema', pessoas em situação de pobreza que 'têm a culpa em si mesmas'. Essa culpabilização das pessoas em situação de pobreza é algo que devemos desafiar".

"Os formuladores de políticas globais devem agir agora", já que milhões de pessoas estão a ser atingidas pela crise e aumento do custo de vida. "Precisamos mais do que nunca proteger as pessoas em situação de pobreza desse tipo de impacto", disse De Schutter. "Se não forem tomadas medidas, a desigualdade provavelmente aprofundar-se-á e a coesão social será enfraquecida", conclui.
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