Preocupação ambiental europeia é genuína, mas também protecionista - Governo brasileiro
O secretário de Negociações Bilaterais no Médio Oriente, Europa e África do Brasil considerou hoje à Lusa que as preocupações ambientais da União Europeia, um dos bloqueios do acordo comercial com o Mercosul, são genuínas, mas também são políticas e protecionistas.
"As preocupações ambientais da sociedade europeia são autênticas, a sociedade europeia é uma sociedade que se preocupa com as questões ambientais", disse Kenneth Nóbrega, em entrevista à Lusa, no palácio do Itamaraty em Brasília.
Ainda assim, na opinião do gigante sul-americano "há um certo `banding together`, uma mistura na forma como essa postura é expressa, é uma mistura de preocupações ambientais autênticas com interesses protecionistas".
"Há uma mistura dessas duas motivações e o resultado é um bloqueio do processo de assinatura e ratificação do acordo", disse.
As dúvidas em relação à política ambiental do Brasil praticamente paralisaram o processo de ratificação do acordo comercial entre o Mercosul (bloco económico formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e a União Europeia anunciado em meados de 2019, após duas décadas de negociações.
Na opinião do governante brasileiro existe um mito e um receio dos produtores agrícolas europeus de que os produtos brasileiros, país que é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, vão invadir e entupir o mercado europeu.
"Se você olhar no papel, preto no branco, é um acordo que permite muitas salvaguardas a proteger eventuais invasões de produtos brasileiros na Europa", considerou, acrescentando que, no acordo negociado, para as grandes `commodities` agrícolas, existem quotas volumétricas, tarifárias e salvaguardas de segurança.
"Essa ideia de que o acordo Mercosul-União Europeia resultaria numa invasão dos produtos brasileiros, ou mesmo argentinos, (...) ela não tem reflexo na realidade do que está escrito", defendeu.
As questões e os desafios ambientais brasileiros, considerou o responsável, acabaram por se tornar numa "forma de exercer uma pressão sobre o Brasil, dentro de uma perceção de que o Brasil deveria garantir os seus compromissos ambientais".
"Eu vejo muito mais o vínculo entre o meio ambiente e acordo Mercosul-União Europeia como um vínculo político, não a um vínculo ligado `a uma possível invasão` dos produtos agrícolas", concluiu.
O acordo de livre comércio entre os dois blocos foi negociado durante 20 anos, mas aguarda ratificação dos Estados-membros dos dois blocos.