Pressão dos EUA força gigantes da tecnologia a deslocar produção da China
Pequim, 09 out 2020 (Lusa) - Os gigantes norte-americanos do setor tecnológico estão progressivamente a deslocar a sua produção para fora da China, à medida que Washington exerce uma campanha internacional de contenção das ambições de Pequim, que afeta também Portugal.
As duas maiores economias do mundo enfrentam já uma prolongada guerra comercial, que inclui a imposição de taxas alfandegárias sobre centenas de milhares de milhões de dólares das exportações de ambos.
Mas a pressão do Governo norte-americano sobre as empresas para boicotarem entidades chinesas específicas tornou-se um esforço concertado para forçar fornecedores e países terceiros a aderirem a um bloqueio à tecnologia chinesa.
No espaço de pouco mais de um ano, Washington reviu por três vezes as suas regras de controlo sobre as exportações para o grupo chinês das telecomunicações Huawei, afetando fornecedores da empresa chinesa em todo o mundo.
Nos últimos dois anos, a administração de Donald Trump colocou outras 70 empresas chinesas na Lista de Entidades do Departamento de Comércio, limitando o seu acesso a tecnologia norte-americana.
"Washington transformou as cadeias de fornecimento de tecnologia numa arma [contra a China], por exemplo, em semicondutores, visando conter as ambições tecnológicas" do país asiático, observou Alex Capri, investigador da Fundação Hinrich, com sede em Singapura.
Os EUA têm como objetivo "conter o modelo tecno autoritário de Pequim", apontou.
Num périplo realizado no início deste mês pela Europa, que incluiu Portugal, o subsecretário de Estado norte-americano Keith Krach voltou a pressionar os países aliados a aderirem à `rede limpa` (clean network), ou seja, a excluírem fornecedores chineses das suas redes de telecomunicações de quinta geração, particularmente a Huawei.
Em resposta às crescentes tensões entre os dois países, multinacionais como a Apple ou a Google estão rapidamente a deslocar a sua produção e negócios da China para o Vietname, Índia, Tailândia e Malásia.
Segundo observadores, nos últimos 36 meses, o setor tecnológico registou uma deslocação inédita em quase três décadas.
Cerca de 2.000 empresas de Taiwan, Japão ou Coreia do Sul, - incluindo muitos fornecedores importantes de tecnologia - indicaram planos para retirar produção da China, de acordo com dados oficiais.
Empresas de tecnologia, especialmente fornecedores de marcas norte-americanas como a Apple, pretendem transferir entre 15% e 30% da sua produção total para fora do país asiático, uma parcela equivalente às suas vendas nos EUA, segundo o portal japonês Nikkei Asia.
A Apple começou já a produzir os AirPods sem fio no Vietname, no início do ano, e planeia deslocar mais da sua produção para aquele país. Até ao ano passado, toda a produção da marca era feita na China.
A gigante tecnológica tem também apelado à Foxconn e Wistron, os principais fabricantes do Iphone, para expandirem a capacidade na Índia.
A produção de servidores para centros de dados do Google, Amazon e Facebook, que até há dois anos eram todos feitos na China, passaram a ser produzidos em Taiwan.
"As crescentes tensões entre Washington e Pequim forçaram a pensar em estratégias de produção", afirmou um executivo de um dos fornecedores do iPhone, citado pelo Nikkei Asia.
"Nos próximos dois a três anos, veremos não apenas as grandes fabricantes de eletrónicos, mas também mais e mais fornecedores de componentes a mudar a sua capacidade para fora da China, para formar uma nova cadeia de abastecimento", previu.
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