Produção de café em risco devido ao aquecimento global

Produção de café em risco devido ao aquecimento global

No início de 2025, os preços do café atingiram um novo máximo histórico.

RTP /
Alexandre Meneghini - Reuters

Os países produtores de café estão a tornar-se demasiado quentes para o cultivo dos grãos, sugere uma análise da Climate Central.

O estudo mostra que os cinco principais países produtores de café, responsáveis por 75 por cento do abastecimento global do produto, enfrentam, em média, mais 57 dias por ano de calor prejudicial ao cultivo dos grãos, do que aquilo que é suposto.

O estudo da Climate Central, noticiado esta quarta-feira pelo jornal britânico The Guardian, contabilizou o número de dias em que as temperaturas nas regiões produtoras ultrapassaram os 30°C, entre 2021 e 2025.Posteriormente, os investigadores compararam esses dados com uma simulação de um mundo sem poluição de carbono, de forma a medir o impacto das alterações climáticas.

Os resultados indicam que El Salvador foi o país mais afetado pelo aquecimento global, com 99 dias adicionais de calor extremo prejudicial ao café. Já o Brasil, maior produtor mundial e responsável por 37 por cento da produção global, registou mais 77 dias nessas condições.

Na Etiópia, contaram-se 34 dias adicionais acima dos 30ºC. Apesar de surgir mais atrás, Dejene Dadi, Diretor-Geral da Oromia Coffee Farmers Cooperatives Union (OCFCU) aponta a região como uma das mais impactadas pelo calor extremo, segundo o Guardian.

No país da África Ocidental, mais de quatro milhões de famílias dependem do café como principal fonte de rendimento. O produto representa quase um terço das receitas de exportação do país, amplamente considerado o berço do café.

Segundo Dejene Dadi, o café arábica etíope “é particularmente sensível à luz solar direta”, pelo que “sem sombra suficiente, os cafeeiros produzem menos grãos e tornam-se mais vulneráveis a doenças.De acordo com o jornal britânico, para travar a desflorestação, uma vez que as árvores servem de abrigo natural para o cultivo de café, a cooperativa Oromia distribuiu fogões energeticamente eficientes na região etíope, onde muitas famílias dependem da lenha para cozinhar.

Os membros da organização alertam para a escassez de financiamento destinado à adaptação climática. Urgindo a uma intervenção mais firme dos governos na “salvaguarda do abastecimento do café”, Dadi defende que os pequenos agricultores não têm meios suficientes para enfrentar os impactos da crise climática.

De acordo com um estudo citado pelo Guardian, os pequenos agricultores são responsáveis por 60 a 80 por cento da produção mundial de café, mas recebem apenas 0,36 por cento dos fundos necessários para enfrentar os impactos das alterações climáticas.

Esta problemática sente-se também nas carteiras dos consumidores de café em todo o mundo. Dados do Banco Mundial indicam que os preços do café arábica e robusta quase duplicaram entre 2023 e 2025.

A crise observada na produção de café acompanha uma tendência observada noutros produtos alimentares. Um estudo encomendado pela European Climate Foundation, divulgado pela Euronews em maio do ano passado, revelou que mais de metade das importações europeias de culturas essenciais como milho, arroz, trigo, cacau, café e soja, provêm de países vulneráveis às alterações climáticas e com recursos limitados para uma adaptação eficiente a uma realidade cada vez mais alarmante. Entre eles, destaca-se o cacau, cuja indústria na União Europeia enfrenta riscos elevados.

No ano passado, os preços dos bens alimentares na União Europeia subiram 2,8 por cento face a 2024. O preço do chocolate foi aquele que mais aumentou, segundo dados da Eurostat divulgados pela Euronews.

De acordo com o Salata Institute for Climate and Sustainability da Universidade de Harvard, citado por um artigo do mesmo órgão de notícias e que data de dezembro de 2025, nos últimos dois anos, a produção de cacau caiu até 40 por cento. Os especialistas alertam para a possibilidade de um mundo sem cacau até 2050.
Tópicos
PUB