Projeto reformulado da central solar Sophia continua com impactes graves dizem ambientalistas

Projeto reformulado da central solar Sophia continua com impactes graves dizem ambientalistas

Várias organizações ambientais alertaram hoje para os impactes graves que a central solar fotovoltaica Sophia apresenta, apesar de o projeto reformulado ter encolhido, e defenderam que a transição energética não pode ser feita à custa da natureza.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Nuno Veiga - Lusa

Num comunicado conjunto enviado hoje à agência Lusa, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a BirdLife, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) e a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) sustentaram que, apesar da redução da área ocupada por painéis solares, a reformulação do projeto não resolve os principais problemas ambientais identificados.

Um dia após terminar a segunda consulta pública do projeto reformulado da central solar fotovoltaica Sophia que abrange os concelhos do Fundão, de Idanha-a-Nova e de Penamacor, na Beira Baixa, distrito de Castelo Branco, os ambientalistas mantiveram a sua posição desfavorável à construção desta central solar.

Alertaram ainda para a destruição de azinheiras e sobreiros protegidos, para a perda de habitats e para a fragmentação de corredores ecológicos fundamentais para a biodiversidade da região.

"Segundo a análise da SPEA-BirdLife, o projeto reformulado poderá implicar o corte ou a afetação de, pelo menos, 2.473 azinheiras e sobreiros, incluindo árvores não contabilizadas pelo promotor ao longo das vedações. Estima-se o corte de, pelo menos, 1.646 árvores protegidas, um aumento de cerca de 07% face ao projeto anterior, apesar da redução da área de painéis", vincaram.

Argumentaram que um dos aspetos mais preocupantes é a destruição de árvores autóctones protegidas e realçaram que a sua substituição por novas plantações "não permite recuperar estas funções num prazo equivalente à vida útil da central, estimada em 40 anos".

Em setembro, a multinacional britânica promotora da central solar fotovoltaica Sophia reduziu a capacidade instalada do projeto em 34% na reformulação que submeteu à autoridade de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA).

"Relativamente à capacidade instalada, é feita uma redução de 34%, de 867MWp (Megawatt pico) para cerca de 573MWp. Neste contexto, a área vedada do projeto é reduzida em 32% e o número de núcleos vedados diminui de 44 para 22, uma redução de 50%", explicou a Lightsource BP na informação disponibilizada à agência Lusa.

O projeto inicial apresentava uma capacidade instalada de 867 MWp.

A área ocupada do projeto por módulos fotovoltaicos era de 390 hectares, 435 hectares considerando todas as infraestruturas, e um total de 1.734 hectares de área vedada.

Os ambientalistas sustentaram que, apesar de uma central "mais pequena", continua a ter "uma enorme pegada ecológica" cuja área de implantação integra o Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, situando-se numa região de elevado valor ecológico, entre o Tejo Internacional e as serras da Malcata e da Gardunha.

"A transformação desta paisagem ameaça a conectividade entre áreas naturais e poderá comprometer a sobrevivência de espécies ameaçadas. Entre as aves potencialmente afetadas destaca-se a águia-imperial-ibérica e o cortiçol-de-barriga-branca, classificados como criticamente em perigo, bem como o abutre-preto, o britango e a cegonha-preta".

Segundo as organizações subscritoras do documento, os efeitos do projeto não se limitam à biodiversidade.

"A remoção da vegetação, a compactação e a degradação dos solos, a alteração da paisagem e a perda de terrenos com usos agrícolas e florestais terão consequências para as comunidades locais e para atividades económicas como a agricultura, a atividade agropastoril e o turismo de natureza e cultural", sublinharam.

A SPEA, a BirdLife, o GEOTA e a LPN defenderam que a produção de energia renovável é indispensável para combater as alterações climáticas, mas a sua localização deve respeitar os valores naturais e as comunidades locais.

"A prioridade deve ser dada a áreas já artificializadas ou degradadas, evitando a destruição de habitats de elevado valor ecológico, paisagístico e geológico".

 

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