"Quando o primeiro-ministro nos mete medo, o que é que ele sabe que nós não sabemos?", questiona Mário Centeno

"Quando o primeiro-ministro nos mete medo, o que é que ele sabe que nós não sabemos?", questiona Mário Centeno

"Governar sob o medo é péssimo", diz o antigo ministro das Finanças.

Andreia Brito com Mário Rui Cardoso /

Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas

O economista desafia por isso o primeiro-ministro a explicar-se: "o que é que ele sabe que nós não sabemos?".

Ao programa da Antena 1 e do Jornal de Negócios, Conversa Capital, o economista comenta as declarações de Luís Montenegro quando afirmou que não quer voltar aos “tempos da tragédia”, ao perigo de um novo resgate financeiro e de que não quer entrar num “leilão de medidas” porque não quer ser o “pai da austeridade”.

Nesta entrevista Mário Centeno diz que o primeiro-ministro devia explicar exatamente de que é que tem medo. 

Mário Centeno diz que o primeiro-ministro, ou o ministro das Finanças, deviam explicar, por exemplo, onde é que o Governo vai cortar 12 mil milhões de euros para cumprir as metas europeias.

Na opinião do antigo Governador do Banco de Portugal, se não houver uma revisão das metas orçamentais por parte de Bruxelas, o Estado vai ter de cortar, nos próximos dois anos, 12 mil milhões de euros. E defende por isso, que o Governo, em vez de vir dizer que ainda tem margem orçamental, devia era explicar como é que pretende resolver esse problema, caso não haja uma revisão das metas.
 Confrontado com a possibilidade de se estar a posicionar à esquerda, da mesma forma que Passos Coelho se estará a posicionar à direita para uma solução governativa de médio prazo, Mário Centeno diz que qualquer comparação com Passos “é mera coincidência”.

Mário Centeno diz que se fala muito em excedentes e margens orçamentais, mas o economista avisa que as contas públicas estão em défice.

Sobre o saldo orçamental de 0,5% no primeiro semestre e a estimativa do Conselho de Finanças Públicas de saldo positivo de 0,2% no final do ano, Centeno diz que, na verdade, só se pode falar num excedente porque se está a contar (mal) com o excedente da Segurança Social. Na realidade há um défice profundo das contas públicas, garante.
Assim sendo, alerta que não há verdadeiramente a margem orçamental de que se fala para a aprovação de medidas mitigadoras do aumento do custo de vida.
Nesta entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, Mário Centeno afirma que Portugal já teve excedentes que podiam dar agora muito jeito para adotar medidas mitigadoras do aumento do custo de vida, sem prejuízo do equilíbrio das contas públicas.

Utilizando a expressão que tem sido utilizada pelo secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, Centeno defende que esses excedentes foram desbaratados nos últimos anos. Sobretudo quando se baixou impostos, coisa que o PS também fez anteriormente, mas tinha uma almofada que agora não existe, relembra.
No Conversa Capital, Mário Centeno critica as medidas do Governo de redução do IRS e de atribuição de um bónus aos pensionistas para mitigar os impactos da crise dos combustíveis.
O economista mostra-se igualmente muito crítico das propostas do PS e do Chega de IVA zero nos bens alimentares e de redução do IVA nos combustíveis. Defende antes, por exemplo, aumentos no abono de família.
O antigo ministro das Finanças, defende uma combinação de apoios mais inclusivos para as famílias e empresas, sobretudo dos setores mais afetados.
No Conversa Capital, Mário Centeno reconhece que concorda com a aplicação de uma sobretaxa extraordinária sobre os lucros do setor petrolífero, desde que seja temporária.
Centeno diz não entender a lógica de investir 400 milhões de euros na compra de capital da REN, neste momento, porque isso tem de ser feito contraindo dívida e o país está numa situação complicada de inflação e juros elevados.
Mário Centeno admite não perceber a política do Governo sobre a imigração quando a situação do mercado de trabalho é de uma forte desaceleração do emprego.
E deixa um aviso: “estamos a brincar com o fogo na questão do endividamento”.
Entrevista conduzida por Mário Rui Cardoso, da Antena 1, e Diana Ramos, do Jornal de Negócios.
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