Reservas internacionais moçambicanas recuam para mínimos de mais de um ano
As Reservas Internacionais Líquidas (RIL) moçambicanas recuaram para 3.436 milhões de dólares (2.908 milhões de euros) em julho, o nível mais baixo em pelo menos 12 meses, segundo dados do Banco de Moçambique.
De acordo com o mais recente relatório estatístico do banco central, a que a Lusa teve hoje acesso, o volume das RIL caiu face aos 3.463 milhões de dólares (2.931 milhões de euros) registados no mês anterior, somando dois meses consecutivos de queda.
As reservas correspondem a divisas em moeda estrangeira detidas pelo banco central e utilizadas, entre outros fins, para assegurar a cobertura das necessidades de importação de bens e serviços da economia moçambicana, que garantem atualmente quatro meses.
O valor de julho representa o nível mais baixo desde, pelo menos, o mesmo período do ano anterior, segundo a série estatística disponibilizada pelo Banco de Moçambique.
O Ministério das Finanças de Moçambique confirmou anteriormente que fez uma "amortização integral e antecipada" de 698.587.604 dólares (630 milhões de euros) em 23 de março, liquidando financiamentos contraídos no âmbito do Fundo para a Redução da Pobreza e o Crescimento (PRGT), do Fundo Monetário Internacional (FMI), com recurso às RIL do país.
Antes dessa operação, essas reservas ascendiam a um recorde de 4.258 milhões de dólares (2.908 milhões de euros) no final de fevereiro passado.
O então governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, afirmou em 25 de maio que a decisão do Governo de antecipar o pagamento integral de 630 milhões de euros de dívida ao FMI não afetou as contas da instituição, "pelo contrário".
"O Banco de Moçambique não ficou mais fraco, débil e vulnerável por causa desta decisão. Até diria o contrário. Hoje estamos seguros, em função de certos riscos que se estavam a ver, estamos bem melhores do que estaríamos se não tivéssemos tomado esta decisão", afirmou, questionado pelos jornalistas.
"Continuamos com um nível de reserva extremamente confortável. Está hoje praticamente a cinco meses de importação, que é bem alto, então isso não enfraqueceu. Quando se fez, estávamos numa posição, e continuamos, numa posição extremamente confortável", respondeu Zandamela, sobre o impacto do recurso às RIL para antecipar esse pagamento e não relativamente a outro endividamento.
"O mais importante aqui, para nós, como Banco de Moçambique, como custódia destas reservas, a decisão - quero repetir bem forte - de termos pago o FMI, de modo nenhum enfraqueceu o balanço do Banco de Moçambique", enfatizou.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, classificou na altura como "corajosa" a decisão de liquidar total e antecipadamente a dívida equivalente a 630 milhões de euros ao FMI, recorrendo às reservas.
"Esta corajosa decisão deve ser vista de forma positiva e estratégica, como um sinal inequívoco da responsabilidade macroeconómica e do reforço da estabilidade internacional de Moçambique. E porque, igualmente, a dignidade de um povo não tem preço", disse Chapo.
Apesar do volume das RIL, os empresários queixam-se de dificuldades no acesso a moeda estrangeira para importações. A situação foi descrita anteriormente pelo presidente da Confederação das Associações Económicas (CTA) de Moçambique, Álvaro Massingue, como uma "emergência económica".
"A escassez de divisas é hoje uma emergência económica. Sem moeda externa, as empresas não importam matérias-primas, não cumprem contratos e não crescem", afirmou Massingue.