Resiliência financeira global está a "chegar ao limite", alerta economista-chefe do FMI
A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Silvana Tenreyro, alertou hoje que, apesar de a economia mundial ter resistido a "guerras, inflação e turbulência financeira", este ano, essa capacidade de adaptação está a "chegar ao limite".
Numa conferência de imprensa para anunciar o novo relatório World Economic Outlook, durante as Reuniões Anuais do FMI e do Banco Mundial em Banguecoque, Tenreyro defendeu que os governos mundiais "devem passar de uma lógica de resposta aos choques para uma estratégia de reconstrução".
O FMI prevê um crescimento global de 3,1% em 2026, antes de acelerar para 3,4% em 2027, enquanto a inflação mundial deverá subir para 4,7% este ano e recuar para 4,1% no próximo.
Segundo Tenreyro, o aumento dos preços da energia e das matérias-primas associado aos conflitos geopolíticos está a travar a atividade económica, ao mesmo tempo que o boom da inteligência artificial (IA) impulsiona o comércio, o investimento e o crescimento.
"Estas forças da procura e da oferta puxam a atividade em direções opostas", afirmou. "Mas ambas exercem pressão ascendente sobre a inflação", continuou.
A responsável alertou que a evolução da economia mundial está a tornar-se cada vez mais desigual. Os países exportadores de energia e os mais integrados nas cadeias tecnológicas ligadas à IA deverão beneficiar, enquanto os importadores de energia e as economias menos expostas ao setor tecnológico enfrentam perspetivas mais difíceis.
O FMI identificou três riscos principais para os próximos anos: uma nova escalada dos preços da energia, uma eventual correção das expectativas em torno da inteligência artificial e o agravamento das fragilidades orçamentais.
Tenreyro salientou que os mercados energéticos conseguiram absorver parte do impacto dos conflitos graças ao redirecionamento dos fornecimentos, ao aumento da produção noutros países e aos ganhos de eficiência.
"Sem estas margens de ajustamento, estimamos que o crescimento mundial deste ano teria sido de 2,5% em vez de 3,1%", disse a economista-chefe do FMI.
Contudo, advertiu que algumas dessas almofadas de proteção estão a enfraquecer. "As reservas acumuladas e os ganhos de eficiência energética estão a chegar aos seus limites", afirmou.
A economista destacou igualmente o papel da IA como motor do crescimento recente, mas alertou para os riscos de dependência excessiva.
"As cadeias de abastecimento da IA estão altamente concentradas em poucos países, setores e empresas, o que cria potenciais estrangulamentos", disse, acrescentando que uma reavaliação das expectativas sobre a rentabilidade da tecnologia poderá afetar o crescimento e a estabilidade financeira.
Perante este cenário, o FMI defende uma política orçamental mais prudente. "Os países com elevados níveis de dívida e défices precisam de iniciar uma consolidação orçamental e garantir que os défices e, em última análise, a dívida seguem uma trajetória descendente", afirmou Tenreyro.
A responsável apelou ainda aos bancos centrais para manterem o foco no combate à inflação. "A política monetária deve permanecer firmemente orientada para a estabilidade dos preços" e "mais do que nunca, a independência dos bancos centrais é vital para atingir as metas de inflação", declarou.
"Precisamos de restaurar o espaço orçamental e reconstruir a resiliência do lado da oferta, para que os países estejam mais bem preparados para enfrentar futuros choques e garantir um crescimento sustentável", concluiu.
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