Rublo afunda-se para novos mínimos históricos face a dólar e euro

A moeda russa esteve a cair esta terça-feira 20 por cento, ultrapassando a fasquia histórica de 80 rublos por dólar e de 100 rublos por euro. O índice RTS da Bolsa de Moscovo caiu por sua vez mais de 17 por cento, atingindo o nível mais baixo desde março 2009.

Graça Andrade Ramos, RTP /
O rublo quebrou 20 por cento face ao dólar e ao euro esta terça-feira para depois recuperar ligeiramente para os 12 por cento Alexander Demianchuk, Reuters

Já na segunda-feira o valor da moeda russa tinha perdido dez por cento, agravando a tendência registada na última semana e apesar de todos esforços das autoridades russas para aguentar a sua divisa.

Durante a noite o Banco Central da Rússia subiu a taxa de juro de referência de 10,5 para 17 por cento, a mais alta desde 1998, numa decisão surpreendente que procurou encarecer a compra e revenda do rublo nos mercados.

Durante duas horas a decisão permitiu ao rublo recuperar as perdas de segunda-feira, antes de a moeda russa voltar a cair para novos mínimos inéditos. E impensáveis horas antes. Os corretores de bancos ocidentais afirmaram que o mercado se apresentou extremamente volátil, com operações de pequenos investidores a provocarem grandes flutuações no valor da moeda russa. Analistas consideram que se está a assistir a um "verdadeiro ataque especulativo ao rublo".

O primeiro vice-governador Sergei Shevtsov prometeu novas medidas para aguentar o rublo e considerou "crítica" a situação da bolsa e do mercado russos.

"Nem nos piores pesadelos se poderia imaginar há um ano aquilo que está a suceder", afirmou Shevtsov citado pela agência Interfax.

O rublo acabou por recuperar, registando no final do dia uma quebra de 12 por cento, fixando-se nos 73,10 dólares.

Esta manhã o Ministério russo das Finanças voltou a cancelar o seu leilão semanal de títulos do tesouro marcado para quarta-feira, devido a condições desfavoráveis de mercado. O leilão já foi cancelado várias vezes nas últimas semanas.

O rublo já desvalorizou este ano 50 por cento face ao dólar, numa queda acentuada nas últimas semanas, oficialmente devido à queda do preço do crude e às sanções internacionais impostas devido à alegada influência de Moscovo no conflito ucraniano. Alexei Kudrin, ministro russo das Finanças entre 2000 e 2001, considerou que "a quebra do rublo e do mercado de valores não é só uma reação aos preços baixos do petróleo e às sanções mas também uma (demonstração) de desconfiança face às politicas económicas do Governo".

A economia russa é dependente do petróleo e a queda do crude de 107 dólares para 56 dólares por barril deverá lançar o país em recessão.

O Governo já reviu em baixa as previsões económicas para 2015 e a queda do rublo, assim como a subida das taxas de juro, poderá agravar ainda mais as perspetivas de crescimento.

Mesmo que consiga evitar a desvalorização do rublo face às principais moedas estrangeiras, a subida das taxas de juro irá dificultar o financiamento das empresas russas no mercado.

Por outro lado calcula-se que o Banco Central da Rússia já terá investido 90.000 milhões de dólares para defender a divisa.

A presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, afirmou esta terça-feira na televisão que a decisão de subir as taxas de juro não se iria refletir "de imediato" no valor do rublo e que levaria "algum tempo" até a moeda russa estabilizar no seu valor justo.

"Com estas medidas, o Banco Central pretende voltar a estabilizar o mercado (cambial), que se tem comportado de forma irracional nas últimas semanas", considerou por seu lado em comunicado um banco de investimento, o Sberbank-CIB, acrescentando que o colapso do rublo não será evitado com a subida das taxas de juro por si só.
Preocupação europeia

Numa reação à quebra do mercado russo, as obrigações alemãs a dez anos caíram por sua vez abaixo de 0,60 por cento, o que acontece pela primeira vez. Obrigações irlandesas, belgas e austríacas seguiram o mesmo caminho para mínimos de sempre.

Um relatório do Banco de Inglaterra avisou que a queda do petróleo poderia ainda agudizar tensões geopolíticas, entre outros riscos, tais como desestabilizar as expectativas de inflação da Zona Euro ou incumprimentos por parte de empresas americanas de gás e óleo de xisto.
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