Seca. Vender animais para não perder tudo no Alentejo
Nuno Faustino vendeu quase metade das vacas, admite vender ovelhas e porcos e teme que o futuro como agricultor esteja em causa, porque não há água no Baixo Alentejo e o Governo, diz, só se preocupa com o regadio.
"Temo que num futuro muito curto este tipo de agricultura desapareça quase completamente", diz Nuno Faustino à Lusa, com as vacas que lhe resta atrás de si, que esperam a comida que vai chegar numa carrinha, porque a água essa já lá está.
Agricultor na zona de Ourique, na área de sequeiro do Baixo Alentejo e onde não chega a água da barragem de Alqueva, Nuno Faustino cria bovinos, ovinos, alguns cavalos e porco alentejano, que se alimenta da bolota na fase final de criação e que é vendido sobretudo para Espanha, para presunto.
Manhã cedo, excecionalmente pouco quente, junto a uma manada de vacas num chão de terra sem ervas, Nuno Faustino questiona o futuro dos sistemas de sequeiro, sem regadio, sem medidas estruturais para minimizar os impactos da seca.
"Não se ganha dinheiro, não temos pastagens, não temos cereais, não temos água para abeberamento animal, há agricultores que têm falta já de água para abeberamento animal", descreve à Lusa. E se agora ainda tem água, teme que os furos artesianos não aguentem muito mais tempo.
E do que vai ouvindo do Governo, da ministra da Agricultura, conclui: "Esta atividade está seriamente ameaçada. Não vejo vontade política (...) para olhar para este problema e equacionar medidas para apoiar estes sistemas".
O que vê, refere, é preocupações com regadios, com canais, com redução dos gastos de água, com melhorar os sistemas de rega, com centrais de dessalinização. Para a agricultura de sequeiro, nada.
Devido às "recorrentes secas dos últimos anos", sem pastagens nem forragens, o drama de Nuno Faustino é igual ao de centenas de agricultores do Baixo Alentejo, com animais mas sem comida nem água para lhes dar.
A seca levou-me "a ter de reduzir substancialmente, sobretudo os bovinos. São animais de maior corpulência, precisam de mais alimento, e a falta de pastagens e de produção de fenos, com uma redução enorme sobretudo nos últimos dois anos", obrigou-me a "reduzir bastante".
Nuno Faustino passou de 180 vacas reprodutoras para 100, e diz que vai ter de reduzir mais porque no início de julho no campo não há nada, o feno que produziu foi 25% do que era normal, e os preços das forragens no mercado duplicaram.
"Portanto a única solução, face a ausência de qualquer apoio que seja visível e ajude a manter este tipo de atividade, é reduzir efetivos para tentar aguentar, vamos ver até quando conseguimos aguentar", conclui.
Mas ainda que tenha água nas charcas por mais dois meses é bem possível que a continuidade da família criadora de animais, com a seca a ser regra e não exceção, possa acabar.
Para já vendeu vacas, a seguir vai vender ovelhas e os porcos seguem o mesmo caminho. Tem 150, prepara-se para ficar só com 100.
Neste processo não está apenas Nuno Faustino, nem se vende a eito só em Ourique.
O presidente da Associação e Agricultores do Campo Branco (que inclui os concelhos de Aljustrel, Almodôvar, Ourique e Castro Verde), António Aires, depois de fazer à Lusa um balanço da situação de seca, de falta de alimentos e do preço que atingem, conclui: "Há muitos produtores a acabarem com o efetivo".
E fala do quanto isso é preocupante, porque são os animais que fixam as pessoas no território, e sem eles o que vai acontecer é o abandono.
António Aires considera imperativo segurar a água quando chove, construir uma grande barragem, criar pequenos regadios para fazer pastagens, "um complemento para não se depender tanto das alterações climáticas".
Seria uma maneira de estancar a debandada, admite, repetindo: "há agricultores a acabar com os efetivos".
Nuno Faustino, como António Aires e como outros agricultores que falaram à Lusa, defende também que mais água chegue ao sequeiro.