Serpa quer promover construção civil sustentável e criar laboratório e "ninho" de empresas

Serpa, Beja, 03 Set (Lusa) - O município alentejano de Serpa quer desenvolver quatro projectos para promover a construção civil sustentável no concelho e que prevêem criar um laboratório de investigação, um "ninho" de empresas do sector e um bairro e uma "villa" ecológicos.

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Trata-se de projectos para "investigar e promover" os antigos e os modernos materiais e técnicas de construção civil sustentável, para aplicar e desenvolver no concelho este tipo de construção "amiga do ambiente e durável", explicou hoje à agência Lusa a arquitecta da Câmara de Serpa, Maria Manuel Oliveira.

O projecto "âncora", explicou, prevê criar em Serpa um laboratório de construção civil sustentável em terra, que, "à escala do concelho", pretende "investigar os comportamentos mecânicos, físicos, biológicos e químicos da terra" e "testar materiais de construção civil produzidos à base de terra, com vista à sua certificação e homologação, para serem usados em construções civis sustentáveis e duráveis".

Até agora, a nível nacional, frisou a responsável, os materiais de construção civil produzidos à base de terra, como os antigos tijolos de burro, taipa e adobe e os modernos blocos de terra comprimidos (BTC), "não são certificados ou homologados por nenhum laboratório técnico-científico", ao contrário de outros materiais mais usados, como o betão, o ferro e a madeira.

O laboratório, que irá estabelecer parcerias com outros laboratórios e universidades nacionais e estrangeiros, pretende também "apoiar cursos de ensino específico nas várias áreas da construção civil sustentável", ministrados em escolas profissionais e universidades.

Sobretudo apoiar o curso de Construção Civil Tradicional - Arquitectura em Terra leccionado desde 1993 na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa e o primeiro a nível mundial a formar técnicos de nível médio.

A criação do laboratório, frisou a arquitecta, será a "alavanca" para a concretização dos outros três projectos, que prevêem a construção de um cluster da construção civil sustentável no Parque Industrial de Serpa, de um "ecoquartier" (ecobairro) no centro histórico e de uma "ecovilla" na localidade de Santa Iria, a poucos quilómetros da cidade.

Através do projecto "Cluster da Construção Civil Sustentável", a autarquia, explicou a arquitecta, pretende criar, no Parque Industrial de Serpa, um "ninho de empresas" ligadas à construção civil sustentável e às energias renováveis.

A Câmara prevê atribuir lotes de pequena e média dimensão e a preços controlados para a instalação no parque de empresas ligadas àqueles sectores e, desta forma, "tentar responder a alguma procura", já que Serpa "tem experiência em construções sustentáveis a partir de técnicas e materiais tradicionais e `amigos` do ambiente", como a taipa e o tijolo de burro.

Por outro lado, o projecto, além de "dinamizar a economia local" ligada à construção civil em terra, pretende também "criar oportunidades para jovens empresários poderem instalar e desenvolver em Serpa projectos empresariais ligados aos recursos endógenos do concelho", como as energias renováveis, sobretudo a solar, e as construções em terra.

O projecto "Ecoquartier" prevê a construção, na zona intramuralhas do centro histórico de Serpa, de um "ecobairro", constituído por um quarteirão de edifícios contíguos e à volta de pátios interiores.

Os edifícios, destinados a habitação, espaços socioculturais ou comércio, serão construídos "provavelmente através de parcerias entre a Câmara e privados" e com base nos conceitos da arquitectura biológica, ou seja, "usando materiais `amigos do ambiente` e existentes no próprio local de edificação".

A construção do "ecobairro", além de "revitalizar o centro histórico de Serpa" que "está algo abandonado", referiu a responsável, irá permitir a arquitectos, engenheiros e construtores civis "a oportunidade de associar e aplicar, desde a fase de projecto à construção, os antigos e os novos materiais, técnicas, modelos e conceitos ligados à arquitectura biológica e às construções sustentáveis".

A "ecovilla", que deverá "nascer" na localidade de Santa Iria, explicou a arquitecta, irá "regular a procura e responder ao interesse de privados em construir habitações fora do perímetro urbano de Serpa", algo que está "condicionado" pelo Plano Director Municipal.

Através da "ecovilla", que terá "forma de um loteamento ou de um plano de pormenor", a Câmara pretende "arrumar, num único sítio, possíveis construções que de outra forma apareceriam dispersas pelo território".

A "ecovilla" será constituída por prédios mistos, de média e de grande dimensão, que serão construídos também com base nos princípios da arquitectura biológica e das construções sustentáveis, explicou Maria Manuel Oliveira.

Os quatro projectos, que vão ser apresentados durante um seminário dedicado à construção sustentável e que vai decorrer quinta e sexta-feira no Cine-teatro Municipal de Serpa, integram-se no projecto em rede "Ecos - Energia e Construção Sustentáveis", que envolve os municípios de Beja e Serpa (Baixo Alentejo), Óbidos, Peniche e Torres Vedras (região Oeste) e Silves (Algarve), além de 25 parceiros públicos e privados.

Trata-se de uma das cinco candidaturas aprovadas pela Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano às acções preparatórias para o programa Política de Cidades Polis XXI, para a implementação de Redes Urbanas para a Competitividade e a Inovação.

As candidaturas dos quatro projectos da Câmara de Serpa e os dos outros municípios da rede ECOS, adiantou a arquitecta, vão ser apresentadas para aprovação pelo Governo até 17 de Outubro.

Se os projectos da rede forem aprovados, a Câmara de Serpa, tal como os outros municípios, terá, após a eventual aprovação, quatro anos para desenvolver e concretizar os projectos, disse Maria Manuel Oliveira.

Quanto ao seminário "Construção Sustentável - Novos Paradigmas Construtivos, Sociais e Económicos", explicou a responsável, vai juntar especialistas e público em geral para "reflectir e trocar conhecimentos e experiências" sobre os novos materiais, técnicas e políticas ligadas à construção civil sustentável.

LL.

Lusa/Fim


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