Sérvia nunca será usada para contornar sanções à Rússia assegura ministra da Integração Europeia
A ministra da Integração Europeia da Sérvia assegurou em entrevista à Lusa que o seu país nunca será utilizado para contornar as sanções impostas à Rússia, mas apoia com firmeza os apelos internacionais para a resolução do conflito na Ucrânia.
"Não impusemos sanções à Rússia por diversos motivos, mas é importante dizer que nunca iremos permitir que o território da Sérvia seja utilizado para contornar as sanções impostas à Rússia. É do conhecimento da União Europeia", indicou Tanja Miscevic, ministra da Integração Europeia da Sérvia desde dezembro de 2022 e que fez entre segunda e terça-feira uma visita oficial de dois dias a Portugal, onde se reuniu com o chefe da diplomacia João Gomes Cravinho.
"Não somos politicamente neutrais, partilhamos os valores da UE em relação à guerra e também apoiamos fortemente os apelos para a resolução deste problema", prosseguiu a ministra do Governo sérvio, envolvido desde 2013 nas negociações de adesão à UE.
A Sérvia permanece dos poucos países europeus que recusou aderir aos sucessivos pacotes de sanções dirigidos a Moscovo, uma decisão criticada no último relatório de Bruxelas sobre os progressos do país face aos critérios exigidos no processo de adesão, e que entre outros reparos indica um "desalinhamento" em questões geopolíticas.
"Estamos muito conscientes sobre a situação da guerra na Ucrânia desencadeada pela Rússia, condenamos a invasão, somos firmes defensores da integridade territorial da Ucrânia, dos princípios da lei internacional, porque precisamos desse género de proteção para o nosso caso", assinalou a académica, doutorada em Ciências Políticas pela universidade de Belgrado.
A dependência energética face à Rússia e "uma questão de âmbito emocional" são os motivos que impeliram Belgrado a não aplicar sanções a Moscovo, o que tem implicado fortes pressões de diversos países ocidentais.
"Tentamos alterar a situação [da dependência energética], não apenas para evitar o prosseguimento da dependência energética, por motivos políticos e económicos. Por isso, estamos a colaborar com os vizinhos, com a Bulgária a interconexão de gás, com a Macedónia do Norte, a Roménia e Hungria em termos de petróleo, estamos a tentar fazer o possível para diversificar. Não é fácil quando não somos um membro da UE", argumentou.
O segundo motivo relaciona-se que a situação que o país conheceu e ainda muito presente, relacionado com a desintegração violenta da Jugoslávia e das responsabilidades então atribuídas à Sérvia pelo ocidente.
"Enquanto nação, temos uma questão emocional sobre a introdução de sanções. Porque vivemos durante 12 anos sob sanções durante a década de 1990 e foi sempre muito penoso para a população comum. Por isso, temos essa opinião sobre as sanções, e é essa a segunda razão", disse à Lusa.
A ministra sérvia, que no passado assumiu a vice-presidência do Movimento Europeu na Sérvia e da Agência Anticorrupção, recorda que o seu país já acolheu desde fevereiro de 2022 cerca de 8.000 refugiados ucranianos e forneceu ajuda humanitária para restaurar o sistema energético em alguns hospitais.
"Ainda recentemente, durante o encontro da Comunidade Política Europeia que decorreu na Moldova, o nosso Presidente [Aleksandar Vucic] encontrou-se com o Presidente [Volodymyr] Zelensky e foi muito positivo, existe muita empatia com a população da Ucrânia, também sabemos o que é ser bombardeado", acrescentou, numa referência à memória dos bombardeamentos da NATO, entre 24 de março e 10 de junho de 1999, contra a Jugoslávia (Sérvia e Montenegro), justificados pela "guerra do Kosovo".
No rescaldo deste conflito, a Sérvia tem optado por manter uma posição de neutralidade, apesar de cooperar militarmente com diversos atores internacionais.
"Somos neutrais militarmente. Não existem problemas na nossa cooperação com a NATO. Foi o nosso parlamento que optou pela neutralidade militar, não qualquer dos governos, o que significa não pertencer a qualquer aliança militar e o motivo é ainda 1999, para nós ainda muito recente", esclareceu.
"Mas integramos com orgulho a Parceria para a Paz da NATO, e outro elemento importante, a NATO está presente no território do Kosovo e Metohija, através da Kfor, de acordo com a resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU [10 de junho de 1999]. A nossa cooperação com o comando aliado a esse nível tem de permanecer positiva, e os contactos entre as nossas Forças Armadas e a Kfor são diários", frisou.
A ministra sérvia, que há muito acompanha o complexo `dossier` sobre a integração do país na UE, está consciente que o mesmo implica sempre diversas formas de pressão, seja para introduzir os padrões anunciados, cumprir obrigações, ou em termos políticos para solucionar questões bilaterais.
"A pressão está presente através de diversos elementos, mas é algo a que estamos habituados, atendendo a este longo processo de integração. A forma como respondemos é o mais importante. Em termos de normalização das relações [com o Kosovo], e recuando ao acordo de Bruxelas de 2013 [sobre a normalização das relações entre Belgrado e Pristina, com mediação da UE], concordámos em abordar a forma de normalizar as populações. É o mais importante para os sérvios e albaneses que vivem no Kosovo e Metohija", frisou, numa referência explícita à situação na ex-província do sul da Sérvia que autoproclamou a independência em 2008, nunca reconhecida por Belgrado.