Shopping Brasília - O mote para a "Rapariguinha do Shopping" - Carlos Tê
Porto, 07 out (Lusa) - Carlos Tê, que escreveu a letra da canção "Rapariguinha do Shopping", cantada por Rui Veloso, contou à Agência Lusa que o mote foi dado pela influência que o Centro Comercial Brasília teve no Porto nos primeiros anos.
A primeira "catedral" de compras da cidade, a celebrar os seus 35 anos de existência, foi o lugar onde Carlos Tê vislumbrou aquilo que em pouco tempo se transformou num fenómeno sociocultural: "Trabalhar no Brasília era como pertencer à aristocracia do comércio".
Nunca existiu, segundo o escritor, nenhuma "rapariguinha" ou mulher personificada na canção, mas sim um arquétipo: "Na altura, trabalhar num sítio como aquele, vagamente intimidatório, era uma coisa bastante importante", o que o levou a escrever na canção: "Já não conhece ninguém/Do lugar onde cresceu".
"Daí ter tido essa ideia, esse conceito, de uma rapariga que revelasse uma espécie de ascensão de classe dentro da classe das caixeiras", disse Carlos Tê, recordando que o Brasília era "um acontecimento, algo novo na cidade, onde as pessoas se deslocavam quase como em romaria".
De "bem vestida e petulante" ao "ritmo disco dos Bee Gees", conforme cantava Rui Veloso, assim era o "Brasília" nos seus primeiros anos, onde outros conceitos ganharam corpo no quotidiano portuense, como as áreas de diversão noturna agrupadas no mesmo edifício.
Havia a discoteca Griffon`s, o bar Romanov e até o espaço "adulto" Brasília Club, onde o striptease contrastava com atuações de artistas populares da década de 1970 e 1980, cenários também cantados em "A Rapariguinha do Shopping": "Agora só anda com gente bem/E vai ao sábado à noite à boîte".
Para Carlos Tê, hoje o Porto é como o resto do mundo: "As cidades estão estandardizadas, todas têm as mesmas lojas e a mesma organização", razão pela qual não há novos estatutos ou figuras que os caracterizem.
"No Porto, Lisboa, até em Braga ou Viseu, encontram-se as mesmas lojas e marcas, como em Londres ou Nova Iorque", resume o escritor, contrastando com "o novo modo de encarar o consumo que apareceu com a criação do Brasília, que era uma novidade absoluta".