Silva Lopes aponta dedo à UE e alerta para contágio grego

"Portugal é diferente da Grécia? Não é não”, alerta Silva Lopes, que vê na contribuição especial anunciada pelo Governo durante a semana passada “o começo de uma longa e dolorosa estrada” que os portugueses terão de percorrer. O professor de economia e antigo ministro das Finanças não poupa “a falta de vontade” da União Europeia para resolver as crises dos países periféricos, nomeadamente Portugal e Grécia.

RTP /
"Se a União Europeia não nos emprestar mais dinheiro, se continuar a acreditar que os mercados vão resolver o problema, estamos arrumados" RTP

Foi esta tarde na conferência "E Depois da Troika?", do Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal e Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, em Lisboa, que o economista Silva Lopes deixou o alerta: Portugal está numa situação muito semelhante à dos gregos. Nesta linha, acrescentou, o financiamento da troika (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e União Europeia) é "largamente insuficiente" para as necessidades que Portugal apresenta.

"Portugal é diferente da Grécia? Não é não. Só somos um bocadinho melhores que a Grécia nas finanças públicas”, fez notar o antigo governante, deixando o alerta: “Não tenhamos dúvidas. Se acontecer alguma coisa na Grécia, nós somos logo a seguir".

Sem outra ajuda "estamos arrumados"
Mantendo que os 78 mil milhões de euros do empréstimo não farão desaparecer os problemas portugueses, Silva Lopes fez apelo a uma atitude diferente das estruturas da União, instando a União Europeia a “arranjar novos esquemas para apoiar países, nomeadamente Portugal".
 Para Silva Lopes, não sendo garantia de uma saída para a crise, é "condição necessária" cumprir o acordo com a troika, por muito duro que seja.

Por outro lado, defende que é vital
1. a emissão de Eurobonds (títulos de dívida europeus) num nível superior às atuais obrigações utilizadas para financiar planos de resgate
2. um orçamento comunitário com maior dimensão
3. um imposto sobre transações financeiras, cuja receita fosse encaminhada para o orçamento comunitário

"Se a União Europeia não nos emprestar mais dinheiro, se continuar a acreditar que os mercados vão resolver o problema, estamos arrumados. Eu não acredito que os mercados resolvam o problema, pelo contrário, vão agravá-lo", avisou.

É muito crítica a análise que Silva Lopes faz da atitude da cúpula europeia face aos problemas que ameaçam afundar o projeto de um Velho Continente a uma só voz: "A União Europeia até agora não tem estado a arranjar uma solução capaz, tem empurrado os problemas uns meses para a frente, e não mostra nenhuma vontade para o fazer".

Defendendo que "para que existam condições suficientes (para sair da crise) é necessário que a União Europeia arranje uma solução", o economista vê nesta “falta de apoio da União” um dos maiores riscos para Portugal.

Contribuição do 13.º mês é apenas o início
"O começo de uma longa e dolorosa estrada" é a definição que Silva Lopes encontra para se referir à contribuição especial anunciada pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a sair de uma fatia de 50 por cento do décimo terceiro mês em trabalhadores com salários, mais-valias e pensões superiores ao ordenado mínimo.

"É apenas o começo de uma longa e dolorosa estrada que nós vamos ter de percorrer. Isso cai sobre o décimo terceiro mês das pessoas que têm rendimentos sujeitos a englobamento em IRS, quem recebe juros e dividendos não vai pagar nada", lembrou o antigo responsável da Finanças, sem dúvidas de que virá aí "mais austeridade”.
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