Standard & Poor’s tira Portugal do "lixo"

Cinco anos depois, a agência de notação financeira Standard & Poor’s tirou Portugal do nível "lixo" e subiu esta noite o rating português para BBB-. Trata-se de uma surpresa, já que era esperada a opção da agência por um passo intermédio em que se limitaria a passar a perspetiva de "estável" para “positiva”.

RTP /
Brendan McDermid, Reuters

A agência de notação acaba de rever em alta o rating atribuído à dívida soberana portuguesa de BB+ para BBB-, um primeiro nível de investimento e também o primeiro a seguir à classificação de "lixo".

Com a revisão em alta para BBB-, com perspetiva "estável", Portugal volta a ter uma notação de investimento atribuída por uma das três principais agências internacionais de notação financeira.

Desde 2015 que a Standard & Poor's atribuía à dívida soberana portuguesa um rating BB+, a nota mais elevada de não investimento, com uma perspetiva "estável".
Crescimento económico e redução do défice
A economia a crescer 2% em média até 2020, um défice de 1,5% este ano e menos riscos no acesso ao financiamento foram as razões da Standard & Poor's para tirar Portugal do "lixo".

"A revisão em alta reflete a melhoria das previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) português entre 2017 e 2020, bem como o progresso sólido que o país fez em diminuir o défice orçamental e um menor risco de uma deterioração nas condições de financiamento externas", afirma a agência de notação numa nota divulgada esta sexta-feira.

Entre os argumentos da S&P para rever o rating está o crescimento económico por quatro anos consecutivos e a perspetiva de que a economia portuguesa cresça 2,2% em média até 2020: 2,8% este ano e 2,3% em 2018.

"Esperamos que o comportamento económico continue a ser generalizado, com contributos positivos de todos os setores", afirmam os analistas da agência, antecipando um aumento no investimento público, devido às eleições autárquicas deste mês e ao novo período de fundos europeus.

A agência destaca também o foco do Governo em "fortalecer o sistema bancário português e a consolidação orçamental", recordando que o executivo socialista "cumpriu o seu objetivo orçamental ambicioso" de 2016 e "parece que o vai fazer novamente este ano, apoiado pela aceleração do crescimento económico e incluindo o impacto positivo do mercado de trabalho no balanço da Segurança Social".

Em resultado de uma consolidação orçamental contínua, que a S&P espera que o Governo mantenha, a dívida pública líquida "deverá diminuir" até 2020, antecipa. Entre outros aspetos positivos destacados está a queda da taxa de desemprego, que a agência de notação financeira acredita "advir parcialmente das reformas no mercado de trabalho tomadas pelo anterior Governo" PSD/CDS-PP, durante o programa de ajustamento.

A S&P acredita que o Governo liderado por António Costa não deverá reverter essas medidas, ao contrário do que aconteceu com o regresso às 35 horas, uma medida com a qual a agência concorda, pelo "impacto posítivo" no salário disponível.

A empresa recusa, por outro lado, que o aumento no salário mínimo tenha enfraquecido a competitividade, embora admita que o envelhecimento, a emigração e uma diminuição na força de trabalho aumentem esse desafio.

Por fim, e embora admita que o Quantitative Easing do Banco Central Europeu (BCE) tenha ajudado a reduzir os custos de financiamento do Estado e das empresas, a S&P acredita que uma redução nos estímulos da instuição tem um "risco reduzido" para Portugal.
Sinais multiplicam-se há três meses
Há três meses, a 16 de Junho, um primeiro sinal positivo das agências. A Fitch reviu a classificação portuguesa, melhorando a perspetiva da dívida de "estável" para "positiva", uma promessa de retirada do país do "lixo". A nota na Fitch é de BB+, mas a perspetiva passou a ser outra.

Essa perspetiva foi o primeiro passo para que a Fitch venha a colocar Portugal fora do nível de "lixo financeiro" em que se encontra desde 2011. A mudança de perspetiva de "estável" para "positiva" foi justificada com o facto de Portugal ter cumprido as metas do défice e de registar na altura um crescimento económico superior a todas as previsões.

Logo depois, a 1 de Setembro, há apenas duas semanas, também a Moody’s decidiu alterar a perspetiva da dívida portuguesa de "estável" para "positiva". A agência de notação manteve a dívida portuguesa com a nota Ba1, ainda a considera “lixo financeiro”, mas a alteração da perspetiva indicia que poderá haver uma futura subida da nota.

A Moody's apontou como razões para subir a perspetiva a melhoria da resiliência do crescimento dada a recuperação no investimento, os esforços orçamentais significativos e a melhoria da estrutura da dívida pública. E disse não ter melhorado o rating português devido ao facto de a dívida permanecer "uma das mais elevadas da União Europeia", o que vem aliado às "fraquezas do setor bancário".

Com a subida da perspetiva ficou aberta a porta a uma futura melhoria da nota atribuída pela Moody’s à dívida portuguesa. Uma revisão em alta poderá acontecer nos próximos 12 a 18 meses.

Entretanto, uma nova atualização do rating da agência Fitch deverá acontecer no final do ano e, sendo um facto que as três agências de notação não se afastam muito das apreciações umas das outras, poderá ser que a Fitch venha já a ser contagiada pela subida de nota agora comunicada pela Standard & Poor's.


c/ Lusa
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