Sucursal das Ilhas Caimão "funcionava como um livro aberto" - Carlos Costa

Lisboa, 28 mar (Lusa) - O antigo diretor da área internacional do BCP, Carlos Costa, afirmou hoje que nunca se apercebeu da relação entre as 17 sociedades `offshore` ligadas ao BCP Cayman sob a mira da CMVM, e que aquela sucursal era "um livro aberto".

Lusa /

Confrontado pelos advogados do supervisor do mercado português com um documento por si assinado, que faz parte da acusação feita pelo supervisor do mercado, onde constam as 17 sociedades `offshore` sedeadas no paraíso fiscal das Ilhas Caimão, Carlos Costa disse nunca se ter apercebido da relação entre as mesmas.

E acrescentou: "Quem estivesse no quarto escalão [conselho de administração] com a mesma informação que eu, também não se aperceberia. Nunca houve nenhum elemento que levasse a considerar isso. [O BCP] Cayman funcionava como um livro aberto".

Carlos Costa explicou que, no que toca à operação naquele paraíso fiscal, a sua responsabilidade era analisar "o volume total do crédito", e não as contas individuais de cada um dos veículos.

Já quando os advogados da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) o questionaram sobre se nunca se apercebeu que o crédito a estes 17 veículos correspondia a 97 por cento do total do crédito da sucursal das Ilhas Caimão, Carlos Costa disse que não.

"Nunca me apercebi. Se me tivesse apercebido, teria colocado a questão", afirmou perante a juíza que preside ao julgamento.

"Nos meus quatro anos no BCP nunca houve nenhuma evidência, nunca se passou nada nesse sentido. E, se tivesse visto com mais atenção, não tinha percebido essa concentração de que se fala", reforçou.

Depois, questionado sobre uma mensagem eletrónica enviada em 2002 em que surgem as 17 `offshore` em causa sedeadas nas Ilhas Caimão, mais as quatro `offshore` Goes Ferreira, que também constam do processo, Carlos Costa disse que não teve conhecimento deste documento.

"Poderá ter havido alguém que não cumpriu a linha hierárquica. Estou a tomar conhecimento agora", referiu.

Quando Filipe Silva, um dos dois advogados que representam a CMVM no julgamento, perguntou a Carlos Costa se saltar as hierarquias não é um problema interno do banco, o responsável respondeu que "os problemas só podem ser resolvidos quando acontecem. Não é 12 anos depois.

E reforçou: "Não tenho nenhuma memória destes factos".

Carlos Costa foi ouvido durante mais de três horas no tribunal onde é julgado o processo, tendo mais tarde testemunhado Pedro Seixas Vale, presidente da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), chamado a título pessoal na qualidade de testemunha abonatória de Filipe Pinhal, antigo presidente do BCP.

Também António Pinho Cardão, o primeiro diretor de crédito do BCP e atual administrador não executivo, foi hoje ouvido no âmbito do mesmo processo, cujo julgamento decorre no 2.º Juízo da 2.ª Secção de Pequena Instância Criminal, no Campus da Justiça (Parque das Nações), em Lisboa.

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