Tabuleiro rodoviário da ponte Eiffel reabre em Viana do Castelo
O tabuleiro rodoviário da ponte Eiffel de Viana do Castelo reabre terça-feira, 637 dias após ter fechado para obras, que custaram 8,6 milhões de euros e que provocaram prejuízos "incalculáveis" a utentes e comerciantes.
Segundo números da Comissão de Utentes da Ponte Eiffel, os 12.500 automobilistas que utilizavam diariamente aquela centenária travessia para fazerem a ligação entre Darque e Viana do Castelo terão gasto cerca de seis milhões de euros "a mais" só em combustíveis.
Por cada viagem entre aquelas duas localidades, os habituais utilizadores da "Eiffel" foram obrigados a fazer 11 quilómetros a mais, o que, no total, dá cerca de 90 milhões de quilómetros feitos exclusivamente por causa do fecho do tabuleiro rodoviário.
José Moreira, morador em Darque mas a trabalhar em Viana do Castelo, já ameaça avançar para tribunal, com uma acção contra o Estado, para ser ressarcido dos prejuízos que o fecho da ponte lhe acarreta.
"As contas são fáceis de fazer. Por causa disto, faço mais 66 quilómetros por dia, o que dá um gasto em combustível de 132 euros por mês. E é isso que eu equaciono exigir ao Estado", referiu, à Lusa, José Moreira.
A centenária ponte metálica de Viana do Castelo foi encerrada ao trânsito rodoviário a 01 de Fevereiro de 2006, para obras de alargamento e recuperação do tabuleiro, que, segundo o prazo inicialmente fixado, deveriam estar concluídas em finais de Julho desse mesmo ano.
No entanto, após a remoção do tabuleiro foram detectados inesperados problemas de corrosão, que obrigaram à suspensão dos trabalhos, à realização de novos estudos, análises e ensaios "mais complexos e aprofundados" sob orientação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e à reformulação do projecto de intervenção.
Atrasos e demoras que "tramaram a vida" aos comerciantes, sobretudo os instalados em Darque, no topo sul da ponte, muitos dos quais passaram a ver os clientes "por um canudo".
Uma bomba de gasolina a poucos metros da ponte, na direcção Darque-Viana do Castelo, fechou e, numa outra, o negócio baixou "meio por meio", como refere o seu funcionário mais antigo, que nunca passou tanto tempo com as mãos nos bolsos.
"Nunca o negócio esteve tão mau como depois do encerramento da ponte", refere.
Dono de cinco lojas de fruta na cidade, José Bastos garante que já sofreu prejuízos superiores a 300 mil euros com o fecho da ponte, mas, mesmo assim, está apostado em tentar dar a volta por cima, pelo que vai "assinalar" a reabertura do tabuleiro rodoviário com o sorteio de cinco televisores entre os seus clientes.
"Por um lado, é uma forma de agradecer aos clientes que, apesar de todos os incómodos se mantiveram fiéis. Por outro, é também uma tentativa de voltar a cativar aqueles que entretanto foram obrigados a procurar novos postos de venda", refere.
Responsável por uma padaria no Cais Novo, José Passos Silva fala também em "custos e prejuízos tremendos", resultantes do prolongado encerramento da velhinha ponte metálica sobre o rio Lima.
"Diariamente, temos que fornecer as nossas cinco lojas na cidade de Viana do Castelo. Até aqui, bastava-nos atravessar a ponte e estávamos na cidade. Agora, temos que fazer 15 quilómetros para cada lado. E isto multiplicado por várias carrinhas e por várias viagens ao dia", sustenta.
José Silva lembra que a empresa dá emprego a 70 trabalhadores e sublinha que vê o futuro próximo "com grande preocupação".
"Penso que não houve a atenção devida dos governantes para o problema da ponte. Em Lisboa, as coisas resolvem-se no dia seguinte. Mas nós estamos demasiado longe da capital", criticou.
José Salvador Silva é dono de um "health club" no Cabedelo e garante que o seu negócio sofreu uma quebra "entre os 40 e os 50 por cento", depois do encerramento da ponte, confessando que já chegou a ver "o caso [futuro do estabelecimento] mal parado".
"Os clientes vêm falar comigo e dizem que é insustentável continuarem a vir aqui, por causa dos custos que isso lhes acarreta", garante.
Durante estes 21 meses, os 562 metros de comprimento da ponte metálica de Viana do Castelo transformaram-se numa espécie de pista de "footing" ou mesmo de "jogging" para as pessoas que moram ou trabalham em Darque.
Para minimizar os incómodos e transtornos aos utentes da infra- estrutura, as entidades responsáveis criaram algumas alternativas, nomeadamente a construção de um apeadeiro no centro de Darque, a abertura de uma nova ligação à A-28 e o reforço das carreiras do ferry-boat para passageiros, entre as duas margens.
No entanto, e principalmente face ao custo destas medidas para os utentes, uma boa parte dos moradores da zona do Cais Novo, em Darque, decidiu criar a sua própria alternativa: atravessar a pé a ponte.
Sameiro Lomba, que mora em Darque e trabalha em Viana do Castelo, desde o início deste ano que todos os dias faz a pé o percurso entre a casa e o local de trabalho.
É também a pé que duas vezes por semana se desloca, à noite, à cidade, para as suas sessões de ginástica.
O marido, que trabalha nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, é agora "obrigado" a sair de casa às 06:30, para chegar a horas ao emprego.
"No ano passado, ainda vínhamos de carro, pela A-28, mas é uma volta muito grande. Só em gasolina estávamos a gastar 135 euros por mês. Tivemos que parar com isso e meter pés a caminho, porque não dava mais para aguentar tanta despesa", refere Sameiro Lomba.
Com tanta caminhada em cima da ponte, Sameiro Lomba foi obrigada a abdicar do "jogging" que tantas vezes fazia na praia do Cabedelo.
"Já começava a ser areia a mais para a minha camioneta", explica, com algum humor.
Com 59 anos de idade, Madalena Duarte também se vê agora obrigada a atravessar a ponte de Viana a pé, duas vezes por semana, para se dirigir a Darque, onde faz uns trabalhos de limpeza.
"Até aqui, ia de autocarro. Mas agora seria obrigada a dar uma grande volta, pagaria mais um euro e até acabava por chegar mais tarde ao destino. Olhe, vou a pé, que assim sempre poupo esse dinheirinho e até ganho em saúde, porque toda a gente diz que andar faz bem. Mas que me custa muito, lá isso custa", refere, enquanto lança um olhar cansado para os muitos metros que ainda tem pela frente para chegar à outra margem.