TVI explica rodapé "intocável" e o eletrocardiograma do Banif

O diretor de informação da TVI foi esta quarta-feira ao parlamento explicar o que levou a estação a noticiar o fecho iminente do Banif. Sérgio Figueiredo defendeu a veracidade da informação avançada pela TVI uma semana antes da resolução do banco e garante que a notícia foi escrita com base em fontes documentais.

Ana Sanlez - RTP /
Mário Cruz - Lusa

Durante quase quatro horas, o diretor de informação da TVI respondeu às dúvidas dos deputados sobre o que levou a TVI a anunciar no dia 13 de dezembro, um domingo à noite, que “está tudo preparado para o fecho do banco”. O primeiro rodapé foi lançado pela TVI às 22h18, e acrescentava duas informações: que “a parte boa vai para a Caixa Geral de Depósitos” e que “vai haver perdas para os acionistas e depositantes acima de 100 mil euros e muitos despedimentos”. Foi depois corrigida sete vezes ou, na visão de Sério Figueiredo, “atualizada”.

Foi este o ponto de partida para o despique tenso entre Sérgio Figueiredo e os deputados da comissão de inquérito à resolução do Banif.

Sérgio Figueiredo começou por explicar que a notícia “surge de um caso que estava a ser investigado há muito tempo por todas as redações do país”, e nasceu de declarações do primeiro-ministro António Costa, que numa entrevista denunciou uma “surpresa desagradável”, escondida pelo Governo anterior e que estaria prestes a ser revelada.
"Primeiro e único responsável"
O diretor de informação do canal de Queluz de Baixo revelou que a 13 de dezembro foi avisado pela redação da TVI que havia “fontes fundamentalmente documentais” que permitiam avançar a resolução do Banif para a semana seguinte.

Sérgio Figueiredo mencionou como uma das fontes que permitiram à TVI avançar com a notícia uma carta, datada de 12 de dezembro, enviada pelo Governador do Banco de Portugal ao Ministro das Finanças. E que esse documento foi considerado “uma peça relevante para juntar a outras para poder avançar com segurança a informação”.

O jornalista lembrou que a carta referia que o Banco de Portugal considerava que não existia alternativa para o Banif senão aplicar uma medida de resolução. Tanto Carlos Abreu Amorim como João Almeida do CDS fizeram notar que a carta iniciava com a frase “no caso de não ser possível concretizar a venda voluntária”.

Sérgio Figueiredo assume-se como “primeiro e único” responsável pela divulgação da notícia, referindo que “ninguém imagina que uma notícia desta importância pudesse ser publicada sem passar pela direção de informação”. O diretor de informação garantiu que o processo de elaboração da notícia envolveu “várias fontes e vários jornalistas”.
Desculpa pela forma, não pelo conteúdo
Os deputados insistiram depois na questão da confirmação da notícia, por parte da TVI, com as entidades responsáveis pela então eventual resolução do banco, como o Ministério das Finanças e o Banco de Portugal.

Sérgio Figueiredo repetiu por diversas vezes que “foram contactadas partes interessadas antes, durante e depois” da divulgação da notícia, revelando inclusive que Jorge Tomé, administrador do Banif, foi informado pela TVI sobre a iminente resolução do banco.

Quando ouvido pela mesma comissão, Jorge Tomé afirmou que, confrontado pela TVI, desmentiu a informação.

Sobre o pedido de desculpas emitido depois pela TVI, Sérgio Figueiredo sublinhou que este ficou a dever-se à forma como a notícia foi dada e não ao conteúdo em si. Afirma que “não houve desmentido, na minha modesta opinião, porque a notícia estava certa" e que se arrepende apenas de "não ter interrompido a emissão desportiva" da TVI24 e "ter aberto um especial de informação, para que o que a estação estava a passar não se limitasse a frases telegráficas".
O eletrocardiograma
Em confronto com o deputado do PSD Carlos Abreu Amorim, Sérgio Figueiredo sustentou que a TVI cumpriu as regras do jornalismo “sem má-fé, dolo, ou atitude premeditada de provocar danos ou perdas", porque a notícia “na substância está intocável”.

"Na minha modesta opinião, é um pouco abusivo atribuir em exclusivo à notícia da TVI tudo o que aconteceu até ao fim dessa semana", reparou, referindo-se à fuga de depósitos superior a mil milhões de euros que teve lugar durante a semana que se seguiu.

Sérgio Figueiredo acrescentou mesmo que atribuir “a um rodapé da TVI” o que aconteceu no Banif é "insultar a inteligência dos portugueses. Não quero estar a fazer-me de vítima mas não aceito que façam de mim culpado de algo que não sou”, destacou.

Sérgio Figueiredo considera que os comunicados emitidos nos dias seguintes pelo Ministério das Finanças e peço Banco de Portugal também contribuíram para a preocupação dos depositantes, porque não desmentiram a notícia da TVI. O diretor de informação da TVI sublinhou ainda que já nessa altura o Banif “valia zero” e que “se fosse um eletrocardiograma o indivíduo estava morto". "O português normal"
Grande parte da audição foi focada numa das primeiras informações avançadas pela TVI, que referia que iria haver perdas para todos os depositantes acima dos 100 mil euros. Sérgio Figueiredo admitiu a “imprecisão”, que partiu da interpretação da redação da TVI “com base na legislação existente”, mas que foi “corrigida na altura”.

A “interpretação não foi adequada, mas não havia intenção alarmista. Era o que previa a lei do Fundo de Garantia de Depósitos e foi logo corrigida”.

Perante a resposta, o deputado João Galamba classificou a iniciativa da TVI como “grave e profundamente irresponsável e sem fundamento”.

Sérgio Figueiredo teve ainda de explicar, em resposta a Mariana Mortágua, porque anunciou o “fecho” do banco, quando o que estava em causa era uma resolução.

O diretor de informação da TVI explicou que essa “foi forma como redação traduziu a informação. Temos a preocupação de comunicar para que as pessoas entendam. A expressão ‘resolução’ não é percetível para quem não é especializado em economia. Estávamos a dizer que o Banif ia deixar de exercer atividade bancária. Para o português normal o Banif desapareceu”.

Ao que a deputada do Bloco de Esquerda retorquiu que “isso é verdade hoje mas não era verdade no momento em que a notícia foi dada”.
Instrumentalização? É um insulto
O debate voltou a ficar crispado quando o deputado Miguel Tiago, do PCP, questionou Sérgio Figueiredo sobre uma possível “instrumentalização” da TVI, em resultado da relação acionista que o Santander Totta, que ficou com os ativos saudáveis do Banif, tem com o grupo espanhol Prisa, que detém a TVI.

“O que me está a sugerir insulta a redação toda”, retorquiu. "Se percebessemos que a estação estava a ser instrumentalizada, até pelos nossos telespetadores, nós próprios denunciaríamos a fonte", destacou.

Sérgio Figueiredo admite que tinha “noção do que tinha nas mãos” e que sabia o que poderia acontecer. Ressalva que “o critério de divulgação da notícia não é a oportunidade, é o da sua verdade” e que não se arrepende “do que a TVI fez”.

“Tivemos a noção de que naquela noite a TVI ia entrar na história do Banif”, concluiu o diretor de informação do canal.

A Comissão de inquérito ao Banif continua na próxima terça-feira, com a audição de António Costa, ex-diretor do Diário Económico e comentador da TVI que esteve presente na redação a 13 de dezembro e ajudou a desenvolver a notícia.

Tópicos
PUB