Velhas mercearias de Viana vendem fiado para resistir ao ataque dos "hipers"
Viana do Castelo, 14 Mai (Lusa) - Velhas mercearias onde ainda se consegue comprar fiado assumem-se como bandeiras da resistência do comércio tradicional de Viana do Castelo ao "ataque" das grandes superfícies, que nos últimos anos se têm multiplicado na cidade como cogumelos.
Numa altura em que se debate na Assembleia da República uma proposta de lei que preconiza a possibilidade de abertura dos hipermercados ao domingo, o dono da mercearia mais antiga da cidade de Viana do Castelo diz que já está por tudo e garante que não será por isso que o seu estabelecimento "irá ao charco".
"Já estamos por tudo e vamos resistindo. Querem abrir os hipermercados ao domingo? Pois que abram. A minha mercearia continuará a abrir de segunda até sábado às 13:00. A tarde de sábado e o domingo são para descansar", refere António Esteves, 80 anos de idade e há 46 à frente da mais antiga mercearia da cidade de Viana do Castelo, fundada em 1845.
Até inícios da década de 90, Viana do Castelo era praticamente "virgem" em termos de médias e grandes superfícies comerciais, hipermercados e shoppings, mas a partir daí as coisas começaram a mudar quase radicalmente.
Um hipermercado abriu em 1993 numa freguesia urbana, um shopping abriu dez anos depois em pleno coração da cidade e entretanto as médias e grandes superfícies comerciais começaram a aparecer "quase como cogumelos".
O último supermercado, de uma cadeia francesa, abriu em Agosto de 2007 na avenida mais central da cidade, praticamente "nas barbas" de António Esteves.
"É apenas mais um abalo, mas vamos resistindo", repete aquele merceeiro, ainda adepto do lápis na orelha e das contas de cabeça.
Ali ao lado, a resistência é igualmente a palavra de ordem na mercearia que António Matos abriu há 18 anos, depois de mais de três décadas à frente de uma casa de pasto.
"Com aquilo ali [o supermercado aberto em Agosto], o meu negócio foi um bocado abaixo. Mas enquanto ir der para a renda e para as despesas, não conto fechar. Sempre dá para me entreter", refere António Matos, com 82 anos de idade.
Recorda os "belos tempos" em que chegava a fazer 40 contos [200 euros] por dia, quando agora o máximo que consegue ver na caixa, no final de cada jornada de trabalho, não ultrapassa os 50 euros.
Diz que ainda vende fiado, sobretudo a reformados, que ficam à espera do "chequezinho" do final do mês para pagarem as suas compras.
"Mas nunca tive problemas", acrescenta de imediato.
O presidente da Associação Empresarial de Viana do Castelo, Joaquim Ribeiro, reconhece que o comércio tradicional da cidade sofreu um "forte rombo" com o multiplicar de médias e grandes superfícies comerciais, "com particular dramatismo o do ramo alimentar".
António Esteves recusa-se a alinhar neste pessimismo e responde em verso: "O pequeno comércio não morre / porque tem qualidade / atende os seus clientes / com atenção e seriedade. O Belmiro de Azevedo / com todo o seu poder / vai deixar os pequenos vivos / mesmo depois de morrer. Vieram as grandes superfícies / e sempre sem vacilar / ainda tenho coragem / para com elas lutar".