Veterano da al Qaeda revela ligação entre bin Laden e o rei saudita

A suspeita em redor de uma ligação entre a Arábia Saudita e a rede terrorista al Qaeda vem de há mais de uma década, alimentada tanto por rumores sobre a família bin Laden como pelas investigações que se seguiram aos ataques do 11 de setembro de 2001. Zacarias Moussaoui, membro da rede capturado e condenado a prisão perpétua nos Estados Unidos, voltou a abrir esta linha de investigação com um depoimento em outubro passado que coloca em linha de fogo a família real saudita e o actual rei Salman, a quem Moussaoui apontou relações com Osama bin Laden e a al Qaeda no final da década de 1990.

RTP /
Imagem de arquivo de uma visita do Presidente americano George W. Bush à Arábia Saudita, recebido pelo então príncipe Salman Larry Downing, Reuters

Em causa está agora a possibilidade de os norte-americanos desclassificarem 28 páginas do relatório elaborado pela comissão do Congresso que investigou os atentados às Torres Gémeas logo em 2002. Os principais interessados na abertura ao público da totalidade do processo são os familiares das vítimas dos ataques a Washington e Nova Iorque, que há mais de uma década vêm apontando o dedo às responsabilidades sauditas. 

A possibilidade de conhecer agora todas as conclusões do Congresso está relacionada com um pedido de Zacarias Moussaoui. Este iminente membro da rede al Qaeda, que apenas não participou nos atentados por ter sido detido algumas semanas antes de 11 de setembro, encontra-se detido na prisão de segurança máxima do Colorado para cumprir a pena de prisão perpétua a que foi condenado por participação no planeamento dos ataques. No ano passado, pediu para prestar novo depoimento e, em outubro, perante os estenógrafos, largou uma bomba capaz de dinamitar as relações dos Estados Unidos com o seu maior aliado na região do Médio Oriente: no final dos anos 90 a al Qaeda mantinha canais de relacionamento que chegavam aos príncipes do reino, incluindo Salman, o actual rei saudita.Há muito que não é segredo que vários milionários sauditas apoiaram a organização terrorista criada por Osama bin Laden, ele próprio um dos muitos herdeiros de um reputado homem de negócios do reino.

De acordo com o depoimento de Moussaoui, revelado esta quarta-feira pelo jornal The New York Times, membros destacados da família real saudita fizeram donativos à al Qaeda pouco tempo antes dos atentados e ele próprio entregou cartas de bin Laden ao então príncipe Salman, que há poucas semanas sucedeu no trono ao falecido rei Abdullah.

As acusações de Zacarias Moussaoui, cidadão francês de pais marroquinos, fazem subentender a existência de uma infiltração da rede terrorista nas estruturas institucionais sauditas, particularmente quando assegura que antes de ser detido se tinha reunido com elementos da embaixada da Arábia Saudita em Washington para discutir um plano que envolvia atacar o avião do Presidente americano – na altura George W. Bush - com um míssil.
O argumento da debilidade mental
Muitas destas acusações têm sido refutadas com o argumento de que Zacarias Moussaoui sofre de uma debilidade mental ligeira. De facto, durante o julgamento relativo ao processo do 11 de setembro, um médico diagnosticou-lhe doença mental.A Arábia Saudita é o mais próximo que Washington tem de uma garantia quando se trata de proteger os seus interesses no Médio Oriente e os interesses do Estado de Israel no meio das nações árabes.

O argumento foi retomado pelo porta-voz da embaixada saudita, numa declaração ao NYT: Moussaoui "não merece credibilidade". Nesse sentido, lembrou que a comissão do Congresso negou a existência de qualquer ligação entre a rede de bin Laden e a Arábia Saudita. Como prova de que nada tem a temer, o representante saudita mostrou-se favorável à desclassificação das 28 páginas da investigação do Congresso.

Da Casa Branca nem uma palavra sobre o assunto Zacarias Moussaoui. O porta-voz John Earnest avançou no entanto que já no ano passado a Administração deixou um pedido às agências dos serviços de informações para analisarem essa parte do relatório e decidir se as 28 páginas encerram assuntos que possam pôr em causa a segurança nacional. Supõe-se que para poderem - em caso de não haver esse perigo - desclassificar a secção de texto em causa.

A cautela com que os dois países lidam com matéria tão sensível pode ser explicada pela forte relação mantida há muitas décadas entre Washington e Riade.

Os sauditas são os maiores fornecedores mundiais de crude e asseguram por outro lado uma ponte para a influência dos Estados Unidos num região que está constantemente em mutação. Para os americanos, a Arábia Saudita é o mais próximo que têm de uma garantia, um aliado quando se trata de proteger os seus interesses e os interesses do Estado de Israel no meio das nações árabes.
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