Vítimas da crise jogam para recuperar o que demoraram anos a ganhar e perderam

Lisboa, 23 out (Lusa) -- O jogo é cada vez mais procurado por vítimas da crise que tentam, de uma forma rápida, arranjar dinheiro para a renda da casa ou a alimentação. Uma corrida ao dinheiro fácil que preocupa quem luta contra este vício.

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Estes jogadores "não apostam socialmente, como diversão, mas sim para, de uma forma rápida, arranjarem dinheiro para pagar as dívidas, correndo o risco de contraírem mais", disse à Agência Lusa Ana, familiar de um jogador compulsivo e membro do grupo de apoio "Famílias em Acção".

Este grupo, que apoia familiares de jogadores compulsivos, tem registado um aumento da procura de ajuda, principalmente nos últimos meses.

"Muitas das pessoas que começam a jogar têm casa para pagar e comida para pôr na mesa e pensam que esta é a forma mais fácil de conseguir o dinheiro", disse Ana, preocupada com as repercussões deste recurso.

Isto porque, segundo disse, muitos apostadores só descobrem que são doentes depois de começarem a jogar. Uns conseguem parar, outros não e são estes últimos que se transformam em jogadores compulsivos.

Com base nos relatos de familiares que ouviu nos últimos anos, e na sua própria experiência, Ana explica que os jogadores começam cedo a sucumbir ao "cada vez mais apelativo" convite ao jogo, já que "hoje em dia é possível, através de um computador, fazer todo o tipo de apostas e estar on-line com todos os casinos do mundo".

Os que revelam compulsão não conseguem parar de jogar e, quando dão por si, estão sem dinheiro um dia depois de receberem o ordenado.

O jogador compulsivo move-se num "sub-mundo" e "vive em grande sofrimento", muitas vezes "exausto fisicamente e sofrendo uma depressão". Alguns "tentam mesmo o suicídio".

Na pior fase, o viciado joga tudo: raspadinha, cavalos, poker nos casinos, sejam legais ou clandestinos.

Por conhecerem este processo, os que ajudam os jogadores compulsivos e as suas famílias estão preocupados com o impacto que pode ter a aposta no jogo para sair de uma situação de crise como a que se vive.

Ana alerta para os sinais do descalabro que resulta da acumulação de dívidas: "A pessoa torna-se inquieta e irritável, mente, tem um fraco desempenho académico ou profissional".

Esta familiar de um jogador compulsivo -- que apoia outras famílias, através de um primeiro contacto telefónico (919449917) -- alerta para o desmembramento da família que tantas vezes resulta deste recurso ao jogo.

Por esta razão, os familiares que mais procuram ajuda são os pais dos jogadores.

"Os conjugues dificilmente conseguem viver com um jogador compulsivo, mas os pais são sempre pais", disse Ana.

Estima-se que existam cerca de 100 mil jogadores compulsivos em Portugal.

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