Economia
Volskwagen apanhada a testar emissões perigosas em macacos
A mentira da Volkswagen sobre as emissões automóveis dos seus modelos tem um novo capítulo, com a marca alemã a ser associada a práticas eticamente reprováveis no campo da experimentação com emissões de gases perigosos. Para provar que o fumo saído dos escapes dos seus carros a diesel diminuía os perigos para a saúde face a modelos mais antigos de outra marca, a VW patrocinou uma equipa que fez testes com macacos entretanto qualificados de “abomináveis”, “absurdos” e “absolutamente injustificáveis à luz da ética” por membros do Governo alemão.
De acordo com o New York Times, em 2014, um grupo de cientistas colocou 10 macacos em compartimentos exíguos e bombardeou-os com gases expelidos pelos escapes de diferentes viaturas. O objectivo seria chegar a conclusões que contrariassem a directiva da Organização Mundial de Saúde, que dois anos antes classificava as emissões diesel como um agente cancerígeno (2012).
A experiência, de acordo com a BBC, foi levada a cabo pelo EUGT (European Research Group on Environment and Health in the Transport Sector), que pode ser traduzido como Grupo Europeu de Pesquisa sobre Questões de Saúde e Ambiente no Sector dos Transportes. Um grupo formado e patrocinado pelas construtoras alemãs Volskwagen, BMW e Daimler. O projecto foi “concessionado” a cientistas norte-americanos do Lovelace Respiratory Research Institute.
Entre os carros que bombardearam com fumo o espaço em que se encontravam encerrados macacos a ver desenhos animados (para os manter calmos durante as quatro horas da experiência, de acordo com um dos cientistas do Instituto Lovelace) havia um VW Beetle (besouro, na tradução para Português) a diesel nova geração, de acordo com o NYT. O teste que comparava este modelo com um Ford de 1999 teve lugar num laboratório em Albuquerque, Estado do Novo México (EUA).A experiência de Albuquerque, que foi “concessionada” a cientistas americanos do Lovelace Respiratory Research Institute, foi alvo de fortes críticas por parte de Michael Spallek, o chefe do EUGT.
A expectativa era que a equipa viesse a reunir dados suficientes para convencer os organismos de saúde, ambientais e governamentais de que os carros a diesel de última geração logravam produzir “gases de escape” com baixas concentrações de partículas perigosas para a saúde pública e ambiental. Nomeadamente os óxidos de nitrogénio, que vêm sendo relacionados com problemas respiratórios e doenças dos pulmões.
A experiência inseria-se na estratégia da VW de, sabe-se agora, ancorar a sua mentira em provas científicas. Os construtores automóveis procuraram apoiar no saber científico o slogan que vendiam aos consumidores e aos reguladores oficiais.
Dessa forma, procuravam a todo o custo a produção de bibliografia entre os académicos que legitimasse as suas reivindicações para os sucessos dos carros diesel de última geração. Os dados agora revelados acerca das experimentações levadas a cabo em Albuquerque são apenas uma face da estratégia da indústria automóvel na senda da produção de prova académica que demonstre o diesel como o combustível limpo que o futuro deseja.
Falha ética e falha electrónica
Entretanto, e independentemente dos princípios éticos por trás da experiência, os resultados estavam à partida falseados, uma vez que o Beetle da VW se encontrava equipado electronicamente com um software para fazer com que o nível de gases em laboratório fosse menos prejudicial do que em estrada.O jornal alemão Stuttgarter Zeitung e a rádio SWR avançaram que 19 homens e seis mulheres foram expostos a gases de escapes a diesel numa outra experiência da EUGT que decorreu durante um mês em Aachen, na Alemanha. Entre os gases que respiraram estavam óxidos de nitrogénio.
O próprio líder da equipa do Instituto Lovelace acabaria por se sentir, revela o NYT, “um palerma” ao saber mais tarde do dispositivo instalado no Beetle, uma vez que essa interferência implica a invalidação de todos os resultados obtidos. Ou não?
Quatro anos depois da experiência por si financiada, Volkswagen e Daimler vieram agora lamentar o design da experiência realizada pela EUGT em Albuquerque, referindo-se a um projecto errado e pelo qual pedem desculpa.
Parece, no entanto, um pedido de desculpas pouco sincero, já que até há um ano os responsáveis da marca continuavam a agarrar-se aos resultados da experiência e a defender a sua publicação.
Foi em 2015 que a VW teve de admitir a introdução de um chip para enganar os reguladores relativamente às emissões das suas viaturas. O Beetle usado na experiência de Albuquerque tinha esse mesmo software para enviesar os resultados e enganar os próprios cientistas. Os responsáveis da marca sabiam-no. Os investigadores do Instituto Lovelace não.
O NYT revela, num artigo da quinta-feira passada, que o facto de a manipulação da Volskwagen ter sido exposta e a construtora alemã ter admitido o seu “crime”, a sua estratégia global para a promoção e venda do diesel não se terá alterado significativamente, uma vez que já em 2016 a VW ainda lutava por ter o “paper” desta experiência editado entre as publicações académicas.
O NYT dá conta das pressões da chefia do EUGT sobre a equipa de Lovelace. “O ponto de vista da EUGT é que chegou a hora de tentar concluir o relatório e apresentar ou discutir os problemas do estudo de forma científica ASAP”, escreveu Michael Spallek, o chefe do grupo. Os investigadores, aparentemente teriam de entregar o relatório para receber o pagamento acordado para a experiência.
Esta mensagem de Spalleck foi enviada já um ano depois de a VW ter sido condenada nos tribunais.
Foi uma mentira da Volskwagen que levou a construtora alemã em 2015 a admitir que estava a falsear os níveis de emissão dos seus carros – deu-se como culpada de fraude e conspiração –, o que lhe custaria 26 mil milhões de dólares em multas só nos Estados Unidos.
Até colocar um ponto final nos trabalhos em 2017, o EUGT terá sido um dos grupos de investigação mais acarinhados pela indústria automóvel alemã, de quem recebeu grandes fatias de financiamento desde que foi fundado uma década antes, em 2007. Fechou actividade face à controvérsia dos seus métodos de trabalho. A experiência de Albuquerque seria alvo de fortes críticas por parte do proprio EUGT, que apontaria falhas na metodologia da equipa do Instituto Lovelace.
A experiência, de acordo com a BBC, foi levada a cabo pelo EUGT (European Research Group on Environment and Health in the Transport Sector), que pode ser traduzido como Grupo Europeu de Pesquisa sobre Questões de Saúde e Ambiente no Sector dos Transportes. Um grupo formado e patrocinado pelas construtoras alemãs Volskwagen, BMW e Daimler. O projecto foi “concessionado” a cientistas norte-americanos do Lovelace Respiratory Research Institute.
Entre os carros que bombardearam com fumo o espaço em que se encontravam encerrados macacos a ver desenhos animados (para os manter calmos durante as quatro horas da experiência, de acordo com um dos cientistas do Instituto Lovelace) havia um VW Beetle (besouro, na tradução para Português) a diesel nova geração, de acordo com o NYT. O teste que comparava este modelo com um Ford de 1999 teve lugar num laboratório em Albuquerque, Estado do Novo México (EUA).A experiência de Albuquerque, que foi “concessionada” a cientistas americanos do Lovelace Respiratory Research Institute, foi alvo de fortes críticas por parte de Michael Spallek, o chefe do EUGT.
A expectativa era que a equipa viesse a reunir dados suficientes para convencer os organismos de saúde, ambientais e governamentais de que os carros a diesel de última geração logravam produzir “gases de escape” com baixas concentrações de partículas perigosas para a saúde pública e ambiental. Nomeadamente os óxidos de nitrogénio, que vêm sendo relacionados com problemas respiratórios e doenças dos pulmões.
A experiência inseria-se na estratégia da VW de, sabe-se agora, ancorar a sua mentira em provas científicas. Os construtores automóveis procuraram apoiar no saber científico o slogan que vendiam aos consumidores e aos reguladores oficiais.
Dessa forma, procuravam a todo o custo a produção de bibliografia entre os académicos que legitimasse as suas reivindicações para os sucessos dos carros diesel de última geração. Os dados agora revelados acerca das experimentações levadas a cabo em Albuquerque são apenas uma face da estratégia da indústria automóvel na senda da produção de prova académica que demonstre o diesel como o combustível limpo que o futuro deseja.
Falha ética e falha electrónica
Entretanto, e independentemente dos princípios éticos por trás da experiência, os resultados estavam à partida falseados, uma vez que o Beetle da VW se encontrava equipado electronicamente com um software para fazer com que o nível de gases em laboratório fosse menos prejudicial do que em estrada.O jornal alemão Stuttgarter Zeitung e a rádio SWR avançaram que 19 homens e seis mulheres foram expostos a gases de escapes a diesel numa outra experiência da EUGT que decorreu durante um mês em Aachen, na Alemanha. Entre os gases que respiraram estavam óxidos de nitrogénio.
O próprio líder da equipa do Instituto Lovelace acabaria por se sentir, revela o NYT, “um palerma” ao saber mais tarde do dispositivo instalado no Beetle, uma vez que essa interferência implica a invalidação de todos os resultados obtidos. Ou não?
Quatro anos depois da experiência por si financiada, Volkswagen e Daimler vieram agora lamentar o design da experiência realizada pela EUGT em Albuquerque, referindo-se a um projecto errado e pelo qual pedem desculpa.
Parece, no entanto, um pedido de desculpas pouco sincero, já que até há um ano os responsáveis da marca continuavam a agarrar-se aos resultados da experiência e a defender a sua publicação.
Foi em 2015 que a VW teve de admitir a introdução de um chip para enganar os reguladores relativamente às emissões das suas viaturas. O Beetle usado na experiência de Albuquerque tinha esse mesmo software para enviesar os resultados e enganar os próprios cientistas. Os responsáveis da marca sabiam-no. Os investigadores do Instituto Lovelace não.
O NYT revela, num artigo da quinta-feira passada, que o facto de a manipulação da Volskwagen ter sido exposta e a construtora alemã ter admitido o seu “crime”, a sua estratégia global para a promoção e venda do diesel não se terá alterado significativamente, uma vez que já em 2016 a VW ainda lutava por ter o “paper” desta experiência editado entre as publicações académicas.
O NYT dá conta das pressões da chefia do EUGT sobre a equipa de Lovelace. “O ponto de vista da EUGT é que chegou a hora de tentar concluir o relatório e apresentar ou discutir os problemas do estudo de forma científica ASAP”, escreveu Michael Spallek, o chefe do grupo. Os investigadores, aparentemente teriam de entregar o relatório para receber o pagamento acordado para a experiência.
Esta mensagem de Spalleck foi enviada já um ano depois de a VW ter sido condenada nos tribunais.
Foi uma mentira da Volskwagen que levou a construtora alemã em 2015 a admitir que estava a falsear os níveis de emissão dos seus carros – deu-se como culpada de fraude e conspiração –, o que lhe custaria 26 mil milhões de dólares em multas só nos Estados Unidos.
Até colocar um ponto final nos trabalhos em 2017, o EUGT terá sido um dos grupos de investigação mais acarinhados pela indústria automóvel alemã, de quem recebeu grandes fatias de financiamento desde que foi fundado uma década antes, em 2007. Fechou actividade face à controvérsia dos seus métodos de trabalho. A experiência de Albuquerque seria alvo de fortes críticas por parte do proprio EUGT, que apontaria falhas na metodologia da equipa do Instituto Lovelace.