Situação de direitos humanos na Grécia "ainda é má", afirma a Human Rights Watch
Lisboa, 21 jan (Lusa) -- A perita da Human Rights Watch Eva Cossé alerta que a situação de direitos humanos na Grécia "ainda é má em muitas áreas, como acesso aos cuidados de saúde, abusos e violência policial, violência racista".
Em declarações à Lusa, a partir de Atenas, onde se encontra desde o início de dezembro, a perita, de nacionalidade grega, reconhece que "não houve muitas mudanças" em matéria de direitos humanos, desde que deu uma entrevista à Lusa em junho, na capital grega.
Eva Cossé é investigadora da Divisão Europa e Ásia Central da Human Rights Watch, com sede em Londres, mas tem passado mais tempo em Atenas do que na capital britânica.
Neste momento, a perita está a ultimar um relatório sobre a discriminação de grupos marginalizados (consumidores de drogas, sem-abrigo e trabalhadores sexuais) no centro de Atenas. "No que respeita a estas violações de direitos humanos, estão a piorar", adianta.
Também a situação dos imigrantes é preocupante, sobretudo nas ilhas gregas. "É um caos. Há mais e mais a chegar, na maioria da Síria, do Afeganistão, genuínos refugiados ou, pelo menos, requerentes de asilo, que não querem ficar na Grécia, mas ficam aqui presos", relata.
"O governo grego está a deter imigrantes sem documentos por mais de 18 meses, o que viola as convenções europeias", denuncia.
Além disso, há indicações de que a polícia fronteiriça grega está a recambiar imigrantes para a Turquia, "o que é uma grave violação de direitos humanos", acrescenta.
"As condições de detenção continuam a ser muito más. Os migrantes estão a tentar sair da Grécia através de novas rotas, da Macedónia e da Albânia, é inverno, está frio, e por isso há relatos de pessoas a morrer", refere ainda.
Sobre o ambiente político na Grécia, que vai a eleições no domingo, Eva Cossé abstém-se de fazer futurologia, mas está a acompanhar o processo eleitoral.
A perita recorda que, antes das últimas eleições, em 2012, "houve um aumento do policiamento no centro de Atenas, que resultou em graves violações de direitos humanos", acompanhado por "uma retórica" contra os imigrantes e outros grupos marginalizados, como os seropositivos.
"Agora isso não tem acontecido, mas estou a acompanhar, porque, para ganhar eleições, as pessoas são capazes de fazer muita coisa, para convencer os eleitores", alerta.
"Toda a gente pensa que o Syriza vai ganhar. Há pessoas que acreditam que será uma verdadeira mudança, mas outras desconfiam", descreve a perita, que ficará em Atenas até meados de fevereiro.
O partido de esquerda Syriza é o favorito para ganhar as eleições legislativas na Grécia, com as sondagens a darem-lhe a vitória face aos conservadores da Nova Democracia, atualmente no poder, mas com uma diferença curta, entre os 2% e os 4%.
Mergulhada na recessão desde 2008, a Grécia assistiu à explosão do desemprego (que ainda ultrapassa os 25%), a reduções salariais entre os 30 e os 40% e ao envio de 20% da população para o limiar da pobreza.
Segundo as estatísticas, o país conheceu, em 2014, dois trimestres consecutivos de Produto Interno Bruto positivo e que serviram de argumento ao governo para anunciar o "princípio do fim" dos sacrifícios.