Uma década depois, António José Seguro regressa à política com a mira em Belém

Depois de se ter afastado dos holofotes políticos após perder para António Costa a liderança do Partido Socialista, em 2014, António José Seguro regressa agora a palco como candidato à presidência. O ex-líder dos socialistas apresenta-se como um candidato da esquerda "moderna e moderada" e assume-se como uma alternativa progressista a candidatos mais conservadores.

António José Seguro nasceu na vila de Penamacor, em Castelo Branco, a 11 de março de 1962.

Licenciou-se em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e frequentou o mestrado em Ciência Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).

O seu interesse pela política começou cedo, e dos 28 aos 32 anos foi líder da Juventude Socialista. Foi também presidente do Conselho Nacional da Juventude, plataforma que reúne organizações partidárias, sindicais, religiosas e cívicas, e presidiu o Fórum da Juventude da União Europeia. Para além disso, foi ainda vice-presidente da União Internacional das Juventudes Socialistas.

Em 1995, Seguro entrou para o Governo e tornou-se um dos elementos mais próximos de António Guterres, integrando o núcleo político de confiança de São Bento. Foi secretário de Estado da Juventude e, mais tarde, secretário de Estado adjunto de Guterres.

Entre 1999 e 2001 foi deputado no Parlamento Europeu, tendo sido co-autor do relatório do Parlamento Europeu sobre o Tratado de Nice e o futuro da União Europeia. Em 38 anos de participação europeia, António José Seguro foi o único português a quem foi atribuída a responsabilidade de elaboração de um relatório sobre um Tratado Europeu.

Em 2001, Seguro renunciou ao seu mandato no Parlamento Europeu a pedido de Guterres e assumiu as funções de ministro-adjunto do primeiro-primeiro, até abril de 2002. Nesse ano, regressou ao Parlamento e liderou a bancada parlamentar do PS. Em 2011, após a derrota do Partido Socialista nas eleições legislativas desse ano, foi eleito secretário-geral do Partido Socialista com 68% dos votos, derrotando Francisco Assis e sucedendo a José Sócrates como secretário-geral do PS.

À frente do PS, tentou reposicionar o partido no centro-esquerda, apostando num discurso de responsabilidade financeira, mas crítico da austeridade imposta durante o período da Troika.
Das críticas internas à demissão
Enquanto secretário-geral, Seguro tomou uma decisão que foi várias vezes recordada por vários dos seus opositores durante os debates: abster-se no Orçamento do Estado para 2012 proposto pelo Governo de Pedro Passos Coelho – um orçamento que contemplava normas consideradas inconstitucionais, nomeadamente o corte nos subsídios de férias e de Natal.

Na altura, Seguro justificou a decisão como sendo uma “abstenção violenta, mas construtiva”, mas acabou por receber várias críticas dentro do seu próprio partido, incluindo de Mário Soares.

Nas eleições autárquicas de 2013, o Partido Socialista conseguiu um dos seus melhores resultados de sempre, e venceu ainda a coligação PSD/CDS–PP nas eleições europeias de 2014. Esta vitória, no entanto, foi vista pelos críticos à liderança de Seguro como uma vitória por "poucochinho", o que levou o então presidente da câmara de Lisboa, António Costa, a avançar para a corrida à liderança do PS contra Seguro.

Foram assim convocadas eleições primárias abertas a simpatizantes do partido para 28 de setembro de 2014 – o dia que marca a queda de Seguro. Na disputa interna do PS de 2014, Mário Soares apoiou António Costa e criticou muitas vezes Seguro. Em setembro desse ano, Soares acusou Seguro de ser “um inseguro” e pediu que este se demitisse da liderança do PS.

O secretário-geral do PS acabou mesmo por se demitir, depois de ter perdido a disputa para António Costa, obtendo apenas 32% dos votos. O socialista renunciou também aos mandatos de Conselheiro de Estado e de deputado do Parlamento.
O regresso, dez anos depois
Seguro afastou-se, depois, da vida política e focou-se na docência universitária em Lisboa, passando também a ter uma presença no espaço mediático como comentador e autor.

Depois do “Compromissos para o Futuro”, publicado em 2011, Seguro publicou o seu último livro, “A Reforma do Parlamento Português – o Controlo Político do Governo”, em março de 2016.

No entanto, desde 2023 que Seguro tem vindo a reaproximar-se da política gradualmente e assumiu a possibilidade de uma candidatura à presidência em finais de 2024, depois de Pedro Nuno Santos o ter mencionado como um “bom nome” para Belém.

A 3 de junho confirmou a sua candidatura. Assumiu‑se como uma alternativa progressista a candidatos mais conservadores, como Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo. 

Ao fim de vários meses após o anúncio da candidatura, Seguro passou a contar com o apoio formal do PS, embora sublinhe a necessidade de independência institucional em Belém.

António José Seguro apresenta-se como um candidato da esquerda “moderna e moderada”, considerando que o seu espaço ideológico “é claro”.

Apesar disso, o antigo secretário-geral do PS diz ser “um homem livre e sem amarras” e prometeu ser um presidente independente e com menos intervenção política do que Marcelo Rebelo de Sousa.

Em entrevista à RTP, Seguro diz sentir-se “muito honrado” pelo apoio do PS, mas salienta que “o país precisa de um presidente independente”. “Eu não serei um presidente que será uma espécie de primeiro-ministro sombra em Belém”, garantiu.

Na área da Saúde, Seguro teceu críticas a Marcelo Rebelo de Sousa, afirmando que, no seu lugar, “já teria convocado os partidos” para discutir um pacto para a saúde.

Considera que há, neste momento, falta de "prioridade" e de "coragem política" e, embora reconheça que esse acordo não esteja nas mãos do presidente, o candidato argumenta que o papel como chefe de Estado seria o de "congregar" os partidos e colocá-los "na rota" de um entendimento.

Seguro prometeu que, caso seja eleito presidente, irá escolher uma grande causa para cada ano, sendo a saúde a sua prioridade.