Exames nacionais: oposição fala em "caos". PSD pede "confiança" no ministro da Educação

Exames nacionais: oposição fala em "caos". PSD pede "confiança" no ministro da Educação

Um dia depois de o ministro da Educação ter desvalorizado os atrasos na correção dos exames nacionais e de ter garantido, no parlamento, que "nenhum aluno será prejudicado", o PS acusa o Governo de ter falhado na gestão do processo e responsabiliza Fernando Alexandre por não conseguir tranquilizar alunos e famílias "numa das fases mais importantes" do ano letivo.

João Alexandre /

Fotografias: Jorge Carmona

No programa Entre Políticos, Aida Carvalho, coordenadora dos deputados do PS na comissão parlamentar de Educação e Ciência, acusou o Executivo de ter criado um problema "dantesco" e responsabilizou o Executivo pela forma como está a aplicar o novo modelo de correção digital das provas.

"O ministro da Educação não tranquilizou nada nem ninguém e distribuiu responsabilidades. Nós estamos perante um problema dantesco, sem paralelo e sem precedente em anos anteriores", disse a deputada, que considera que a audição parlamentar com Fernando Alexandre aumentou as preocupações: "Está longe de perceber a dimensão do problema ou, se eventualmente já o conhece, está longe de se aproximar dos agentes que têm capacidade real para o resolver".

Segundo a deputada, no futuro, a mudança até pode representar ganhos para o processo de classificação das provas, mas os socialistas defendem que o processo tem sido conduzido de forma errada pelo Governo: "A dimensão da tarefa, o voluntarismo da decisão e a incompetência no planeamento".

"Resulta de uma responsabilidade do ministro da Educação e do ministro da Reforma do Estado, que apresentaram, com pompa e circunstância, esta transformação de serviços e isso levou ao desmantelamento de muitos serviços, ao despedimento e recambiamento de muitos técnicos altamente qualificados sob o mote de que havia uma poupança de 50 milhões de euros", acrescentou a deputada socialista.
Pelo PSD, Pedro Alves rejeita que existam motivos suficientes para dramatizar a situação e considera que os problemas relatados resultam de dificuldades próprias da transição digital. "Estamos num processo de transição digital em toda a Administração Pública", disse, em declarações na RTP Antena 1.

No mesmo sentido, o social-democrata responsabilizou os anteriores governos do PS pelo atraso na implementação de mudanças previstas no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e defendeu que o Governo da AD foi confrontado um calendário demasiado apertado: "Quando chegámos, em 2024, os exames do 9.º ano eram para ser feitos de forma digital, mas o sistema não estava preparado".

Pedro Alves sublinha ainda que o Governo renegociou as metas do PRR, optando por avançar apenas com a digitalização da correção dos exames em vez da realização integral das provas em formato digital. O deputado apela, por isso, à confiança nas entidades responsáveis.

"Se a EduQa diz que ainda há condições para cumprir os prazos e que, num modelo novo, há situações que estão a ser ultrapassadas, vamos confiar", disse Pedro Alves, que insiste: "Não há um drama hoje. Os alunos tiveram a possibilidade de fazer o exame em papel e, nesse sentido, não há nenhum drama. Os alunos estão agora a aguardar que se faça a correção".

O deputado social-democrata assinala também que as empresas da área da informática responsáveis pelo processo de digitalização deram "garantias" e que há um "princípio de boa-fé", mas lembra que o tempo é "limitado".
"Nós temos de perceber que quando chegámos ao Governo só havia oito por cento de execução do PRR. Executar tudo no prazo de dois anos, ainda por cima com umas eleições pelo meio, certamente que não foi a melhor forma de o conseguirmos executar. Acredito que a pressa nunca é boa conselheira", afirma.
Livre critica digitalização "a toda a força" e critica ministro: "Está a terceirizar as culpas"
Tal como o PS, também o Livre considera que a audição parlamentar do ministro da Educação foi esclarecedora, mas pelas piores razões. Na RTP Antena 1, a deputada Filipa Pinto, professora há mais de três décadas, defendeu que as dificuldades sentidas por alunos e professores não são comparáveis às de anos anteriores: "Percebeu-se que o senhor ministro não tem noção do caos que vai nas escolas neste momento".

No programa Entre Políticos, a deputada criticou a opção por uma digitalização "acelerada" e afirmou que não houve uma preparação adequada das escolas e dos profissionais envolvidos.

"A digitalização é bem-vinda, a simplificação dos processos é uma boa medida, mas não uma digitalização a toda a força", sublinhou a deputada do Livre.

Filipa Pinto considera ainda que, a cada novo episódio no setor da educação, o ministro Fernando Alexandre tem tentado fugir às responsabilidades.

"Tudo isto que devia decorrer com a maior tranquilidade para as famílias, para os alunos e para os professores, mas está a correr em modo caótico e, na verdade, não nos parece que o ministro da Educação esteja a assumir a responsabilidade que devia assumir. Está, em todas as posições, a terceirizar as culpas. Devia fazer uma reflexão", sublinhou.
Em jeito de conclusão, a deputada do Livre aponta à segunda fase e mostra-se pessimista: "Poderá estar em causa o início da segunda fase de exames e as inscrições dos alunos no Ensino Superior".
Iniciativa Liberal "atenta" a auditoria: "Se vai haver, é porque houve problemas"
Do lado da Iniciativa Liberal, Angélique da Teresa considerou que o Governo demorou demasiado tempo a esclarecer os alunos e as famílias sobre o impacto dos problemas registados e defendeu que é essencial que quem realiza as provas o faça num quadro de tranquilidade.

"O estudante não quer saber se há um problema no QR Code, na digitalização, nos agrafos ou no software. Quer saber se vai ter a sua classificação dentro do prazo previsto", disse, no programa Entre Políticos.

Segundo a deputada, Fernando Alexandre esteve bem ao admitir dificuldades no processo e ao anunciar uma auditoria, mas defendeu que essa mensagem deveria ter sido transmitida desde o início do processo.

Quanto às denúncias de falhas divulgadas numa plataforma utilizada por professores, Angélique da Teresa recusa entrar em "populismos", mas entende que é preciso estar atento aos relatos.

"Não posso garantir que todas as reclamações sejam falsas, assim como também não posso garantir que todas são verdadeiras. Mas, se vai haver uma auditoria, é porque houve problemas e provavelmente parte dessas reclamações tem um fundo de verdade", afirmou.

Apesar das críticas, a deputada liberal afastou a hipótese de o Governo abandonar o processo de digitalização. "Enquanto outros países caminham para uma digitalização, nós não sermos capazes de o fazer não faz sentido", salientou a deputada, que assinala: "Nós temos de ser sérios e honestos e não podemos ser populistas. Agora, há uma coisa que nós sabemos, até porque o próprio ministro disse, é que o processo correu mal".
O programa Entre Políticos é moderado pelo jornaista João Alexandre.
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