Mariana Vieira da Silva: "Presidente da República e primeiro-ministro reagiram tarde demais face àquilo que o país viveu"

Mariana Vieira da Silva: "Presidente da República e primeiro-ministro reagiram tarde demais face àquilo que o país viveu"

Depois de António José Seguro e Luís Montenegro se terem mostrado desagradados com as imagens das cargas policiais e das manifestações pelo direito à habitação, Mariana Vieira da Silva lamenta o momento escolhido por Belém e São Bento e defende que o presidente da República e o primeiro-ministro "reagiram tarde demais" à atuação da PSP.

João Alexandre /
No programa Entre Políticos, da RTP Antena 1, a antiga ministra do PS afirmou que houve uma "orientação política" por detrás da atuação policial e criticou a ausência do chefe do Governo durante os dias de maior tensão em Lisboa e no Porto. “Eu julgo que ambos [António José Seguro e Luís Montenegro] reagiram tarde demais face àquilo que o país viveu e face à intensidade da discussão que se gerou”, afirmou Mariana Vieira da Silva, que refere que as imagens de manifestantes "perseguidos pelas ruas" e de "violência policial desproporcionada" justificavam uma resposta mais rápida dos responsáveis políticos.

A socialista rejeita ainda que a intervenção do presidente da República se tenha limitado a uma defesa dos manifestantes, considerando que António José Seguro criticou a atuação policial. “Aquilo que aconteceu foi uma opção política e uma orientação à polícia para agir de uma forma que é distinta daquela que, até agora, acontecia em manifestações”, sustentou a socialista, que aponta: "Foi essa a interpretação que dei às palavras do presidente da República".

Segundo Mariana Vieira da Silva, a responsabilidade política não pode ser separada da atuação das forças de segurança, pelo que não basta deixar a resposta a cargo das autoridades no terreno: “O Governo muitas vezes esquece-se de dirigir a Administração, dirigir as Forças de Segurança, dirigir o SNS”, afirmou, criticando o que descreveu como uma ausência recorrente de Luís Montenegro em momentos de maior tensão política: "É uma rotina deste Governo e que permite criar uma ideia de que há uma espécie de ação automática e que não depende da sua decisão”.
Mariana Vieira da Silva considerou também que a atual postura do Governo "enfraquece" o próprio Executivo da AD. “Acho que o Governo faz mal para si próprio, porque se enfraquece e se torna menos relevante do que um Governo deve ser”, acrescentou a deputada socialista, que insiste que o debate público tem dado demasiada atenção a um "silêncio" do presidente da República e não ao primeiro-ministro. “Custa-me que estejamos sempre a falar do silêncio do presidente da República quando quem tem obrigação primeira de falar e representar o seu papel é o primeiro-ministro”, salientou.
PSD rejeita "vazio político" e justifica ausência de Montenegro: "Foi para não criar um maior empolamento destas situações"
Pelo PSD, o deputado António Rodrigues rejeitou a ideia de que tenha existido um "vazio" de intervenção institucional na sequência das manifestações e das cargas policiais. Na RTP Antena 1, o social-democrata defendeu que a polícia, o ministro da Administração Interna e o Governo assumiram as respetivas responsabilidades.

“Naturalmente que não concordo com esta situação de vazio que aqui está, porque as instituições funcionam e funcionaram”, afirmou António Rodrigues, que lembra que também o ministro da Administração Interna, Luís Neves, se pronunciou sobre os acontecimentos. “O primeiro-ministro não se dedicou apenas e só a esta matéria”, insistiu, defendendo que Luís Montenegro continuou a exercer as funções de chefe do Governo.

Questionado sobre a ausência do de Luís Montenegro de uma reunião do Conselho de Ministros, o deputado do PSD desvalorizou a decisão: “O primeiro-ministro entendeu que não devia estar naquele dia porque tinha um outro compromisso. O Conselho de Ministros continua a funcionar normalmente e continua a aprovar as suas propostas”.

No programa Entre Políticos, o social-democrata defendeu ainda que a menor exposição pública do primeiro-ministro e do presidente da República teve como objetivo evitar o agravamento da tensão em torno dos protestos.

“Quando houve demasiado envolvimento nestas manifestações, elas cresceram, empolaram-se e viraram-se para a violência”, afirmou, numa referência a manifestações realizadas noutros países europeus: "O afastamento do espaço público, quer do primeiro-ministro, quer do presidente da República, foi para não criar um maior empolamento destas situações".
 António Rodrigues reconheceu, contudo, que as manifestações tiveram um peso político significativo, para além da dimensão relacionada com a atuação das forças de segurança: "Todos temos a consciência de que estas manifestações tiveram um peso político muito significativo para além da questão da administração".
Rui Tavares acusa Governo de linguagem “que não é própria de uma democracia”
Rui Tavares, deputado e ex-porta-voz do Livre, criticou a reação do Governo às manifestações pela habitação e acusa o Executivo de recorrer a uma linguagem antidemocrática e de procurar associar os protestos à violência.

O deputado apontou diretamente ao ministro da Presidência, António Leitão Amaro, pelas declarações sobre os manifestantes, considerando particularmente grave a utilização do termo “subversivos” no encerramento do debate do Orçamento do Estado: “É extraordinário termos visto o ministro da Presidência falar em nome do Governo, chamar subversivos aos nossos concidadãos, numa linguagem que não é uma linguagem própria de uma democracia”.

Rui Tavares acusa Leitão Amaro de inverter o sentido das palavras do presidente da República, ao interpretar a intervenção de António José Seguro como uma defesa dos manifestantes em detrimento da polícia.

"Tivemos um momento absolutamente indecoroso do debate, que foi ouvir o ministro António Leitão Amaro a distorcer e a virar ao contrário as palavras do presidente da República, ou seja, a mentir acerca do que disse o presidente da República e em frente a um órgão de soberania. Ouvimo-lo a dizer que a violência tinha sido dos manifestantes, quando aquilo que o presidente disse que não gostou de ver, claramente, foi violência policial", assinalou.

Para o deputado do Livre, o problema central está, no entanto, na crise da habitação e na dificuldade crescente das famílias e dos jovens em encontrar casa e apelou ao Governo para procurar "soluções políticas" para responder às reivindicações.
“Há duas maneiras do Executivo do primeiro-ministro intervir em relação a este assunto. Uma é despolarizar, acalmar e falar com as pessoas. Para isso deve recuar na Lei das Rendas e deve trazer ao Orçamento o tema que é o tema essencial da preocupação das pessoas. Outra é estar, através do seu ministro da Administração Interna muito debilitado, e da Polícia, a tentar reprimir as manifestações", insistiu o deputado.
 Rui Tavares criticou ainda a possibilidade de o Governo chumbar propostas do Livre para responder à crise habitacional, incluindo a transformação de quartéis em residências universitárias e a criação de um Serviço Nacional de Habitação.
Chega garante que protestos não alteram posição sobre lei do arrendamento: "Ontem era o dia certo para termos mudado
Pelo Chega, Rui Paulo Sousa garantiu que o partido não vai alterar a posição sobre a proposta do Governo por causa das manifestações pela habitação, mesmo que possa haver eleitores do Chega entre os participantes nos protestos.
“Se forem feitas as alterações que nós dissemos ao PSD e ao Governo que teriam de ser feitas para viabilizarmos a lei do arrendamento, se foram feitas as quatro condições, teoricamente nós vamos viabilizar”, afirmou o deputado, que assegura que a posição do Chega se mantém e que o partido pretende garantir maior flexibilidade no mercado de arrendamento e aumentar a oferta: “Se fosse para termos alterado a nossa posição, ontem era o dia certo para termos mudado”, disse, referindo-se à intervenção do líder do Chega durante o debate do Orçamento do Estado na generalidade.

E insiste: "Se, de facto, existem lá militantes do Chega, isso não impede que o partido vote de acordo com o que importa para o país, que é uma lei das rendas que permita uma maior flexibilidade e colocar de casas no mercado. Portanto, nada disso nós queremos inviabilizar".
No mesmo sentido, Rui Paulo Sousa detalha que o Chega quer ver aprovadas medidas como a redução de 50% do IRS sobre rendas e prestações de crédito à habitação, apelando aos partidos da esquerda parlamentar. "Se não o PSD, esperamos que os partidos, pelo menos os da esquerda, que tanto se queixam, viabilizem estas medidas", concluiu.

O programa Entre Políticos é moderado pelo jornalista João Alexandre.
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