“Os Fedaínes”, os homens de sacrifício de Saddam Hussein

“Fidayi” significa “mártir” ou “aquele que se sacrifica” pelo presidente iraquiano. “Com o nosso sangue e a nossa alma, nós te defenderemos, Saddam” é o lema desta organização paramilitar.

Tânia Carvalho, RTP Multimédia /
Assalto final a Bagdade poderá ser dificultado pelo grupo Karim Sahib/ AFPI

Nem o nome da milícia, nem o lema por que se guia, deixam dúvidas sobre as capacidades destes homens: matar e ser morto em nome do regime. Funciona à margem da lei, acima das estruturas políticas e legais.

Esta unidade paramilitar foi constituída poucos anos depois da Guerra do Golfo, entre 1994 e 1995 (os dados são contraditórios quanto à data precisa), pelo filho mais velho de Saddam, Uday Saddam Hussein.

Os primeiros homens foram recrutados na região de Tikrit, no Norte, a terra natal de Saddam Hussein, formando então uma pequena milícia mal equipada. Mas, pelas mãos de Uday, esta formação paramilitar tem crescido substancialmente nos últimos anos.

Pouco se sabe sobre esta unidade. As indicações dos Estados Unidos apontam para que seja composta por dezenas de milhares de homens, entre 18 mil e 40 mil. São todos jovens, com uma idade mínima de 16 anos, e são recrutados nas regiões fiéis ao partido Baas e a Saddam Hussein.

O grupo responde directamente perante o presidente ou o seu filho primogénito, fora da linha de comando das forças armadas regulares. O líder da força será o general Iyad Futiyeh Rawi, fiel ao chefe de Estado iraquiano e a quem foram atribuídas 27 medalhas durante a guerra contra o Irão (1980-88).

Uday Hussein recorreu à milícia, por diversas vezes, para fins pessoais, intimidando os opositores do regime através de ataques, torturas e mesmo assassínios.

Em 1996, o controlo sobre os “Fedaínes” foi-lhe retirado, alegadamente por ter transferido armamento sofisticado da Guarda Republicana para a unidade paramilitar sem a autorização do líder do regime. Mas, actualmente, os “Fedaínes” são da responsabilidade de Uday.

O que esperar dos “Fedaínes”

A sua lealdade é recompensada com dinheiro e privilégios, permitindo-lhes viver luxuosamente, bem acima do cidadão normal.

Não possuem equipamento especial ou sofisticado, apenas metralhadoras, lança-granadas e artilharia. Recebem treino físico e aulas de educação cívica.

Normalmente, vestem-se de preto, mas podem disfarçar-se com roupas à civil para criar confusão entre as forças da coligação ou infiltrar-se no exército e ameaçar de morte os soldados que se quiserem render. Podem enganar as forças anglo-americanas através de falsas rendições ou emboscadas.

Funcionários norte-americanos indicaram, poucas semanas antes do início das hostilidades, que os membros da milícia estariam a adquirir uniformes dos exércitos norte-americano e britânico, para se infiltrarem nas fileiras da coligação. Também existem indicações dos Estados Unidos de que os “Fedaínes” poderão disfarçar-se de jornalistas.

Para além de organizarem contrabando e outras actividades ilegais ao longo da fronteira iraquiana, os “Fedaínes” são conhecidos pela brutalidade dos actos que cometem em nome do regime. Terão uma unidade especial conhecida como o esquadrão da morte, cujos membros, mascarados, organizam execuções específicas, de teor político, acções que se estendem às casas das vítimas.

Um dos actos mais cruéis, noticiado por vários media, teve lugar entre Junho de 2000 e Maio de 2001. Cerca de 200 mulheres foram decapitadas publicamente, ao abrigo de uma campanha de combate à prostituição. Segundo o Departamento de Estado norte-americano, “muitas das vítimas não estavam envolvidas em prostituição, mas foram alvos políticos”.

“A minha preocupação é o recurso (por parte do Iraque) a forças irregulares. (...) São essas pessoas que estão a resistir”, afirmou o ministro britânico da Defesa, Geoff Hoon, sobre a milícia.

Também o comandante da coligação anglo-americana, o general Tommy Franks, já reconheceu que “os ‘Fedaínes’ estão a criar dificuldades nas zonas rurais”.

As forças de Saddam

Os peritos estimam que, para além dos 350 mil a 400 mil soldados que compõem o exército, a Guarda Republicana e a Guarda Especial Republicana, trabalharão para o regime cem mil pessoas nos serviços de segurança e polícia, o grupo “Fedaínes”, as milícias populares e grupos tribais, localizados no Sul do país, que se terão formado nos recentes combates.

As milícias populares não têm um estatuto formal de forças de segurança. De acordo com informações do regime, existem milhares de pessoas a integrar estes grupos. Entre as forças populares, destaca-se o grupo Ashbal Saddam, ou “Os miúdos de Saddam” (numa tradução livre), uma organização formada por crianças entre os 10 e os 16 anos de idade. Realizam campos de treinos anuais.

A “Al Quds”, ou as Brigadas de Jerusalém, e a Força de Jovens para a Defesa Civil integram a listagem das milícias populares. De acordo com especialistas, o objectivo do primeiro grupo é tornar-se numa verdadeira força de voluntários, com unidades femininas e masculinas. As Brigadas têm como missão participar em marchas públicas e em eventos cujo objectivo é divulgar a propaganda do regime. Terão sete milhões de membros.

Os analistas norte-americanos minimizam a importância atribuída pelo regime iraquiano a esta força. Porém, os mesmos peritos acreditam que alguns dos membros da “Al Quds” possuem espingardas, morteiros e armas automáticas.

A segunda formação popular terá sido criada em 1999 para defender as cidades e será formada por jovens entre os 12 e os 17 anos. Desconhece-se, no entanto, se esta formação existe de facto.
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