O primeiro preso político do pós-25 de Abril

O poder político saído da revolução de Abril fez logo, um mês depois se ter instalado na Cova da Moura, o primeiro preso político de esquerda. Não foi, ao contrário de uma imagem largamente difundida, nenhum militante de extrema-esquerda, anarquista ou maoista. Foi um figura destacada da resistência antifascista, expulso do Exército pelo seu papel decisivo na Revolta de Beja, preso durante seis anos, reintegrado com o posto de coronel após o 25 de Abril.

RTP /
DR

No curto lapso de um mês, João Varela Gomes (na foto) tomara diversas iniciativas irritantes para a Junta de Salvação Nacional (JSN). O seu papel na Comissão de Extinção da PIDE-DGS era nas instâncias provisórias do novo poder o eco mais fiel do amplíssimo sentimento contra os torcionários da antiga polícia política. O empenhamento que pôs no completo desmantelamento da PIDE logo o tornou malquisto para a JSN que começara por tentar manter em funções a polícia política.

Mais tarde, em Outubro, Varela Gomes viria ainda a mudar o nome da "Ponte Salazar" para "Ponte 25 de Abril". Perante as tergiversações do novo poder, o militar antifascista organizou, com outros camaradas, e com um piquete de operários da Sorefame devidamente equipados a substituição das letras de ferro do antigo pelas do novo nome.

Mas logo no final de Maio foi chamado à Cova da Moura pelo general Jaime Silvério Marques (segundo a contar da direita na foto da JSN abaixo). Chegado aí, Varela Gomes foi convidado a aguardar num gabinete. Perante a demora, veio ao corredor e viu uma força da Polícia Militar (PM) que, não teve dúvidas, se preparava para o deter. Voltou então para dentro do gabinete e utilizou ainda um telefone que aí estava para avisar várias pessoas sobre a iminência da detenção.

Curiosamente, o oficial da PM encarregado de detê-lo era o major Campos Andrada, que viria depois a ser uma figura destacada da esquerda militar.

Mas o telefonema feito a partir do gabinete produziu os seus efeitos. Capitães de Abril conhecedores dessa primeira detenção ordenada pela direita desde o início da revolução logo pressionaram a JSN para que Varela Gomes fosse libertado. O segundo comandante do RAL 1, capitão Dinis de Almeida, fez mesmo saber à JSN que os seus blindados ainda estavam municiados e que não hesitariam em fazer fogo sobre a Cova da Moura se Varela Gomes não fosse libertado.

A libertação não tardou. Varela Gomes foi então chamado à presença de Spínola, que lhe garantiu desconhecer completamente a iniciativa do general Jaime Silvério Marques. À RTP, Varela Gomes relatou o gesto de reparação que Spínola lhe ofereceu: "Se você quiser, ele [Silvério Marques] adoece e sai da Junta". Varela Gomes não pegou na palavra do presidente, que de qualquer modo a revolução já várias vezes tornara letra morta.
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