Amnistia acusa Rússia de tráfico de seres humanos para combater na Ucrânia

Amnistia acusa Rússia de tráfico de seres humanos para combater na Ucrânia

A Amnistia Internacional acusa a Rússia de violar os Direitos Humanos. Em causa está o recrutamento de estrangeiros para combater na Ucrânia, através de práticas consideradas "enganosas, coercivas e exploradoras".

Inês Moreira Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Ramil Sitdikov - Reuters

Num relatório divulgado esta quinta-feira, a organização denuncia crimes de tráfico de seres humanos por parte da Rússia, com o objetivo de aumentar o número de efetivos nas forças armadas. Moscovo estará a explorar migrantes e refugiados, segundo a Amnistia, aliciando cidadãos em situações vulneráveis com dinheiro.

“A Rússia tem recorrido a práticas enganosas, coercivas e exploradoras para recrutar cidadãos estrangeiros para as suas forças armadas e enviá-los para combater na Ucrânia”, refere em comunicado a organização, que considera que “em muitos casos, isso constitui uma violação dos Direitos Humanos e um crime de tráfico de seres humanos, que continua a ser uma prática generalizada na Rússia, que a comunidade internacional deve abordar com urgência”.

Os recrutadores russos, segundo o relatório, atraem “indivíduos do estrangeiro sob falsos pretextos”, explorando “circunstâncias precárias de migrantes e refugiados já presentes na Rússia”. As investigações indicam ainda que as autoridades russas “têm explorado situação irregular dos que excedem o prazo de validade dos vistos de trabalho e situação precária de estrangeiros acusados de crimes”.

Há ainda denúncias de “agentes locais e anúncios de emprego enganosos na Internet” que acabam por “enganar cidadãos estrangeiros nos seus países de origem”.

As pessoas visadas para este tipo de recrutamento “são, principalmente, originárias de países de baixos rendimentos do sul global”.

Como explica Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, “os recrutadores desenvolveram um sistema de coação, fraude e engano”, aproveitando as rotas migratórias existentes e “de práticas abusivas contra migrantes e refugiados na Rússia”.

O relatório da Amnistia Internacional baseou-se em entrevistas com cidadãos originários do Brasil, da Colômbia, de Cuba, do Egito, da Serra Leoa, do Sri Lanka, da Somália e da África do Sul, realizadas em dois campos de prisioneiros de guerra ucranianos, entre 2024 e 2026.

Uma das denúncias da organização é a falta de experiência militar destas pessoas “não constituir um obstáculo ao recrutamento, sendo a maioria dos alistados destacada para zonas de combate ativas após apenas duas semanas de treino”.

“Isto sugere que o recrutamento de cidadãos estrangeiros é motivado pelo desejo de aumentar o número total das forças russas na linha da frente, com pouca ou nenhuma preocupação com a prontidão para o combate e um aparente desrespeito pela vida humana”, acrescenta ainda o relatório.

Os padrões identificados na investigação “suscitam sérias preocupações quanto às violações por parte da Rússia das suas obrigações ao abrigo do direito internacional”, incluindo “o envolvimento aparente no tráfico de seres humanos, a incapacidade de criminalizar e combater o tráfico de seres humanos”.

Nesse sentido, a Amnistia Internacional apela à Rússia para que “ponha imediatamente termo a todas as práticas abusivas relacionadas com o recrutamento militar de cidadãos estrangeiros e ao seu tratamento nos centros de treino e na linha da frente”.
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