Quatro anos após início da guerra, Ucrânia enfrenta desafio de repatriar as crianças raptadas pela Rússia

Quatro anos após início da guerra, Ucrânia enfrenta desafio de repatriar as crianças raptadas pela Rússia

Cerca de 20.000 crianças ucranianas foram separadas das suas famílias desde o início da invasão russa, a 24 de fevereiro de 2022. Apenas 2.000 foram repatriadas.

Um Olhar Europeu com Franceinfo /
Um pai despede-se da sua filha na estação de Odessa, na Ucrânia, 7 de março de 2022. Bulent Kilic / AFP



"Todas as outras crianças tinham regressado. Mas não o grupo de Bohdan". Durante sete meses, a mãe, Olha, pensou que nunca mais voltaria a ver o seu filho de 14 anos. Esta dona de casa de Balaklia, no leste da Ucrânia, teve de lutar muito tempo para encontrar e trazer de volta o adolescente, que tinha sido levado pelos russos poucos meses depois do início da invasão. 

É uma angústia partilhada por milhares de outras famílias, numa altura em que a Ucrânia entra no quinto ano de guerra, nesta terça-feira, 24 de fevereiro. 

Tal como Bohdan, cerca de 20.000 menores ucranianos foram deportados para a Rússia ou para territórios ocupados pelas forças do Kremlin desde o início do conflito, de acordo com uma contagem efectuada em meados de fevereiro pela Procuradoria-Geral da Ucrânia.

Volodymyr Zelensky anunciou na terça-feira, 17 de fevereiro, que cerca de 2.000 pessoas tinham sido "trazidas de volta a casa". 

Mas "o caminho a percorrer é longo e difícil", admitiu o presidente ucraniano. E por uma boa razão: identificar, encontrar e repatriar estas crianças, cujo rapto constitui "um crime de guerra" segundo a ONU, é uma tarefa titânica.
Raptados de orfanatos ou levados para longe das famílias

Oficialmente, Moscovo afirma ter exilado estes menores para os proteger dos perigos da guerra. 

Nas zonas ucranianas ocupadas, as forças russas propõem às famílias "levar os filhos para campos, durante duas ou três semanas, para os afastar [da frente] e descansar um pouco", diz Dmytro Afanasiev, investigador da ONG Parceria Internacional para os Direitos Humanos (IPHR). 

"Alguns pais acreditam neles, outros simplesmente não têm a opção de recusar", continua o investigador, que está a documentar os possíveis crimes de guerra cometidos durante a invasão russa.

Foi o que aconteceu a Olha. No final de agosto de 2022, depois de seis meses de ocupação russa e de bombardeamentos incessantes na sua pequena cidade de Balaklia, perto de Kharkiv, esta mãe aceitou enviar o filho para a Rússia durante algumas semanas. "Estava tudo cinzento (...) O ar estava poluído pelas munições de fósforo. Dormíamos no chão", declarou em declarações ao IPHR, que foram transmitidas à franceinfo. 

"Se eu pudesse ter enviado a minha filha [de 5 anos] e viajado com eles, tê-lo-ia feito". Convencida de que estava a agir no melhor interesse do filho, Olha assinou um contrato que autorizava Bohdan a "ficar 21 dias" no campo russo de Medvezhonok, não muito longe da Crimeia ocupada.

Muitos outros menores foram simplesmente raptados, nomeadamente de orfanatos nas zonas ocupadas, refere o site EU Neighbours East, financiado pela União Europeia. "Estes são os casos mais difíceis, porque as crianças não têm familiares que possam lutar pelo seu regresso", afirma Dmytro Afanasiev. "Há uma falta desesperada de informação sobre elas".
Dificuldades, da identificação ao repatriamento

Este problema não se limita aos órfãos raptados. Uma vez chegados aos campos, onde são "reeducados" com lições que celebram a Rússia, as comunicações dos jovens ucranianos com os seus familiares são muito limitadas - quando existem. 

"Por vezes, são transferidos de um local para outro, o que complica ainda mais o seu paradeiro", acrescenta o investigador do IPHR. 

Moscovo não mantém um registo público das crianças levadas para o seu território, diz Bring Kids Back, uma iniciativa do governo ucraniano para repatriar estes menores com a ajuda de ONG e de Estados parceiros. Kiev tem a sua própria lista, baseada em declarações de testemunhas ou familiares, mas "mesmo as famílias podem não ter informações", explica o síte.

A Rússia está a "criar obstáculos" à "obtenção de informações [sobre crianças deportadas] fora do país", diz Simon Papuashvili, diretor do programa do IPHR para a Europa Oriental. "Tentam fazê-las desaparecer: é muito difícil, se não impossível, localizá-las". 

As organizações, incluindo as russas, que tentam identificar as crianças em causa "são visadas" pelo Kremlin e "ameaçadas", afirma. Esta falta de acompanhamento administrativo também complica a sua identificação. 

Dmytro Afanasiev sublinha que "nestas idades, os rostos das crianças mudam rapidamente e nem sempre é possível reconhecê-las através de fotografias", especialmente no caso das que foram deportadas há vários anos.

Como o Kremlin não criou qualquer programa para facilitar o repatriamento destes menores, os pais são muitas vezes deixados à sua sorte. "Muitos nem sequer sabem que existem organizações como a nossa", diz Angelina Kasyanova, responsável pelos regressos na Rede Ucraniana dos Direitos da Criança (UCRN). Por isso, tentam recuperar os seus filhos por si próprios. Quando Balaklia foi libertada pelo exército ucraniano a 8 de setembro de 2022, dois dias antes de Bohdan deixar a Rússia, a mãe foi informada de que o seu regresso estava em risco.

Olha demorou mais de quatro meses a juntar os 600 euros necessários para fazer a viagem. A mãe organizou tudo sozinha: uma viagem à volta da linha da frente que a levou da cidade vizinha de Kharkiv até à Polónia, passando depois pela Letónia, Lituânia e Estónia até à fronteira com a Rússia. No entanto, no final de janeiro de 2023, as autoridades recusaram-se a deixá-la passar, alegando que estava proibida de entrar no país.

"É muito difícil para os ucranianos viajarem para a Rússia", confirma Dmytro Afanasiev. Já para não falar dos que não podem sair do país: "Alguns homens não podem sair por causa da lei marcial e, por vezes, as crianças deportadas só têm o pai ou o avô", sublinha o investigador do IPHR. Os familiares dos menores raptados também enfrentam dificuldades administrativas, quer se trate de "fornecer documentos que provem a sua relação familiar" ou de os traduzir para a lei russa. 

Olha só conseguiu recuperar Bohdan em março de 2023, quando uma ONG lhe prestou assistência jurídica e a pôs em contacto com outra mãe que ia à Rússia para recuperar o filho.
"O maior rapto de crianças desde a Segunda Guerra Mundial"

No longo processo da procura de ucranianos deportados, organizações como a de Angelina Kasyanova desempenham um papel central. 

"Na maior parte das vezes, somos nós próprios que identificamos as crianças e contactamos os seus representantes legais para oferecer a nossa ajuda", explica a diretora da UCRN. A ONG ajuda os familiares a "reunir os documentos necessários" para repatriar as crianças e a "planear uma rota segura" para a sua evacuação. "Por razões de segurança", Angelina Kasyanova recusa-se a dar quaisquer pormenores sobre o funcionamento exato destes regressos.

"Pode haver problemas em qualquer fase", sublinha. Os "problemas de comunicação" podem dificultar a coordenação da partida dos menores e das suas famílias. "A Rússia também está a vigiar de perto se as crianças estão a ir à escola. (...) Se faltarem um dia sequer, podem ser denunciadas aos serviços sociais", o que "pode comprometer totalmente o processo" de repatriamento, acrescenta Angelina Kasyanova.

Em quatro anos, a UCRN conseguiu trazer de volta "339 crianças e jovens" da Ucrânia, detidos na Rússia ou nos territórios ucranianos ocupados. Mas, por vezes, o processo é quase impossível. "É o que acontece quando são muito jovens (menos de 8 anos) e foram adotados na Rússia", lamenta Angelina Kasyanova. "Por vezes, mudam de nome e perdemos-lhes o rasto", explica Dmytro Afanasiev. 

A adoção representa também um obstáculo jurídico adicional ao seu regresso ao país de origem.

Daí a necessidade de provar "que estas crianças foram deportadas à força", disse Nathaniel Raymond, diretor do Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale, ao jornal The Guardian. 

Durante três anos, a sua equipa trabalhou para contar e identificar os milhares de jovens ucranianos levados no "que é certamente o maior rapto de crianças desde a Segunda Guerra Mundial". Mas o programa foi interrompido no início de 2025, devido a cortes no orçamento federal ordenados por Donald Trump.

Quatro anos após o início da invasão russa, os ucranianos carecem cruelmente de meios para fazer face "à dimensão dos recursos necessários para localizar e facilitar o regresso [dos menores], e depois a sua reabilitação", insiste Simon Papuashvili. 

Para o diretor do IPHR, é portanto crucial ajudar Kiev a "ganhar a guerra". 

Quando Moscovo for confrontada com "uma pressão internacional constante, deixará de agir como se estivesse acima da lei", concorda Angelina Kasyanova. "Então, o regresso [das crianças ucranianas raptadas] tornar-se-á muito mais simples."

Valentine Pasquesoone e Marie-Violette Bernard / France Télévisions / 24 fevereiro 2026 05:00 GMT

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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