Guerra com o Irão está a ameaçar baleias na costa sul-africana

Guerra com o Irão está a ameaçar baleias na costa sul-africana

A guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão interrompeu o fornecimento global de energia, fertilizantes e medicamentos, devastando economias de todo o mundo. Agora, está também a ameaçar as baleias na costa da África do Sul.

Cristina Sambado - RTP /
Uma baleia-jubarte morta encalhou em Longbeach Simonstown, na Cidade do Cabo, África do Sul, a 15 de outubro de 2024 Nic Bothma - Reuters

Os combates envolvendo os houthis já tinham impedido a entrada de embarcações no Mar Vermelho e no Canal do Suez desde 2023. Agora, as restrições ao trânsito através do Estreito de Ormuz, impostas pelo Irão e pelos EUA, intensificaram a exposição das baleias ao tráfego marítimo e a colisão com navios.

O crescente volume de tráfego marítimo perto da costa da África do Sul "aumentou substancialmente" os riscos de colisões com baleias, alertaram os investigadores.


Esta é a conclusão de um estudo apresentado este mês numa reunião da Comissão Baleeira Internacional (IWC), que observou que a costa sudoeste da África do Sul está cada vez mais movimentada, afetando as significativas populações de baleias da regiãoRotas de navegação mudaram
O tráfego marítimo na região do Mar Vermelho foi inicialmente interrompido em novembro de 2023, quando os rebeldes houthis começaram a atacar embarcações que navegavam na zona em solidariedade com os palestinianos, no meio da guerra de Israel contra Gaza.

Mais recentemente, os ataques a embarcações no Estreito de Ormuz, atualmente bloqueado pelo Irão, levaram também as companhias de navegação a redirecionar navios do Médio Oriente para contornar o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul.


Segundo a Al Jazzera, as interrupções quase duplicaram o trânsito na zona. Pelo menos 89 embarcações comerciais navegaram em torno da África Austral entre 1 de março e 24 de abril, de acordo com o PortWatch Monitor do Fundo Monetário Internacional. No mesmo período de 2023, foram apenas 44 embarcações.Que baleias podem ser afetadas?
As águas da África do Sul são o lar de mais de 40 espécies de baleias. O Cabo da Boa Esperança, o ponto mais a sul do país, é conhecido por albergar populações de baleias-francas-austrais, baleias-jubarte e baleias-de-Bryde. Existem também orcas, cachalotes, baleias-minke e golfinhos na região.

Grandes grupos de baleias-jubarte alimentam-se na área e migram anualmente para a Antártida. As autoridades afirmam que estes são os maiores cardumes de baleias-jubarte conhecidos na Terra. Alguns estudos estimam a sua população total entre 11 mil a 13 mil indivíduos.

Muitas espécies foram ameaçadas pela caça comercial de baleias no século XX. Embora as baleias-francas-austrais e as baleias-jubarte tenham recuperado, outras, como as baleias-azuis, as baleias-fin e as baleias-sei da Antártida, ainda constam da lista vermelha da África do Sul como ameaçadas ou criticamente ameaçadas.Como são afetadas as baleias?
As baleias são diretamente afetadas pelo aumento do tráfego, uma vez que aumenta as suas hipóteses de serem atingidas por embarcações em movimento.

“Houve vídeos de pessoas em navios de carga a atravessar áreas com grande concentração de baleias-jubarte”, disse a investigadora Els Vermeulen, da Universidade de Pretória, à agência de notícias AFP.

Vermeulen, que liderou o estudo apresentado na reunião da Comissão Baleeira Internacional (IWC), afirmou que, nestes casos, as baleias geralmente não se apercebem do perigo e podem estar distraídas a alimentar-se.

“Obviamente, a publicação deles nas redes sociais era sobre ‘Uau, vejam quantas baleias bonitas estamos a ver’”, disse Vermeulen. “O meu coração parou – sabem que estão a atropelar algumas baleias?" O tráfego rápido, que representa os maiores riscos, quadruplicou, acrescentou.

As baleias ainda não sabem como se adaptar aos navios, frisou Chris Johnson, líder global da Iniciativa de Proteção de Baleias e Golfinhos do Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

“Presume-se que, se ouvir um barulho alto, afasta-se. Mas este não é o caso com algumas espécies”, disse. Por exemplo, quando as baleias-azuis em Los Angeles ouvem um navio a aproximar-se, simplesmente afundam, acrescentou.

As baleias também estão em risco devido a alterações no seu comportamento, que alguns especialistas atribuem às alterações climáticas e a outros fatores. As baleias-jubarte na África do Sul, por exemplo, só começaram a alimentar-se na costa ocidental, que está a tornar-se cada vez mais movimentada, desde 2011, disse Ken Findlay, consultor de economia azul que contribuiu para o relatório.Risco de os navios colidirem com baleias aumentou?
Sim, dizem os investigadores, devido ao aumento da atividade humana.

Vermeulen e a sua equipa já tinham realizado um estudo sobre as mortes de baleias-francas-austrais na região da costa do Cabo Ocidental em novembro de 2022, depois de terem observado o aumento da atividade humana na área, como a pesca. Utilizaram exclusivamente dados recolhidos por agências governamentais.


Os resultados, publicados na revista IWC Journal of Cetacean Research and Management, revelaram que, entre 1999 e 2019, ocorreram 11 colisões fatais com navios, num total de 97 mortes. Houve ainda outras 16 colisões que não resultaram claramente em morte.

Embora o emaranhamento nos equipamentos de pesca tenha sido a principal causa de morte, os investigadores concluíram que as mortes por colisões com navios estão provavelmente subnotificadas – as baleias atingidas por embarcações em mar aberto afundam frequentemente até ao fundo do oceano.
Será possível proteger as baleias?
Algumas sugestões do relatório apresentado pela equipa de Vermeulen à comissão baleeira propunham que mesmo pequenas alterações nas rotas de tráfego marítimo, afastando-as da costa da África do Sul, poderiam reduzir o risco de colisões para algumas espécies de baleias em 20 a 50%.

As populações de baleias noutras regiões também estão em risco e necessitam de proteção.
A empresa, a MSC, com sede na Suíça, já começou a redirecionar os seus navios para proteger os habitats críticos das baleias, principalmente em redor da Grécia (Fossa Helénica) para proteger os cachalotes e na costa do Sri Lanka para proteger as baleias-azuis.

Os especialistas afirmam que medidas como programas de redução de velocidade, que diminuem significativamente o risco de colisões fatais e reduzem o ruído subaquático, podem ajudar.


Os investigadores estão também a testar se os navios podem ser alertados para a presença de grandes grupos de baleias através de mensagens de rádio ou aplicações especialmente desenvolvidas.

O Ministério do Ambiente da África do Sul disse à AFP que “todas as soluções e medidas de mitigação disponíveis serão examinadas” para proteger as baleias no Cabo da Boa Esperança.

“Assim que os estudos e avaliações científicas estiverem concluídos, as autoridades marítimas estarão na linha da frente, juntamente com o ministério, para definir o caminho a seguir”, realçou.

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