Hamas dissolve os seus organismos governamentais em Gaza

Hamas dissolve os seus organismos governamentais em Gaza

A medida representa uma mudança política significativa por parte do Hamas, que assumiu o poder na Faixa de Gaza em 2007.

Mariana Ribeiro Soares - RTP / Adicionar como fonte informativa
Mahmoud Issa - Reuters

O movimento islâmico-palestiniano Hamas anunciou esta segunda-feira a dissolução dos seus órgãos governamentais na Faixa de Gaza, após quase 20 anos no poder, abrindo caminho à administração do território por um comité tecnocrático.

"O chefe do comité de emergência do Governo, Mohammed al-Farra, apresentou oficialmente a sua demissão", disse à AFP Ismail al-Thawabta, diretor do gabinete de imprensa do Governo do Hamas, acrescentando que "decidiu dissolver o comité para facilitar a transição administrativa e governamental para o Comité Nacional para a Administração de Gaza (CNAG)".

O CNAG foi estabelecido pelo "Conselho da Paz", criado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, durante as negociações que levaram ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em outubro de 2025.


Em comunicado, o comité de emergência afirma que a medida surge em resposta aos "interesses superiores" dos palestinianos em Gaza, citando a "guerra contínua, o bloqueio, a reconstrução atrasada e a recusa de Israel em se retirar do território".

"O Hamas está a dar mais um passo ao renunciar ao seu papel na administração da Faixa de Gaza, de forma a privar a ocupação de qualquer pretexto para continuar a sua agressão e guerra de extermínio", disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, à AFP.

"Esperamos que o Comité Nacional para a Administração de Gaza possa entrar em breve na Faixa de Gaza, e o Hamas reafirma o seu compromisso de transferir as responsabilidades governamentais para ele, de forma a garantir o sucesso da sua missão", acrescentou.

A iniciativa do Hamas marca uma importante viragem política para o movimento islâmico, que assumiu o poder na Faixa de Gaza em 2007, após confrontos com o Fatah, o partido do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, sediado em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.

Poucos meses após o início da guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada pelo sangrento ataque em solo israelita, a 7 de outubro de 2023, o movimento islâmico anunciou a sua disponibilidade para ceder o poder na Faixa de Gaza a outra liderança palestiniana.

Desde então, têm sido discutidos vários cenários, mas, na prática, o progresso mantém-se estagnado. Um dos principais pontos de discórdia continua a ser o desarmamento do Hamas, que afirma que só o fará no âmbito de uma iniciativa política palestiniana - posição rejeitada por Israel.

Um representante do Hamas tinha dito anteriormente à AFP que o grupo armado já tinha informado outras fações palestinianas sobre a sua decisão numa reunião recente no Cairo.

"As várias fações acolheram favoravelmente a decisão do Hamas, considerando-a um passo sério que permite ao Comité Nacional assumir o seu papel na governação", disse o representante.
Ataques israelitas não dão tréguas
Enquanto isso, os ataques israelitas continuam, apesar do cessar-fogo. Quatro palestinos foram mortos e 16 ficaram feridos num ataque com drones israelitas contra um veículo na rua al-Rashid, em Khan Younis.

No sul da Faixa de Gaza, uma fonte do Hospital Nasser informou que dois palestinianos foram mortos e outros ficaram feridos num ataque a uma tenda que abrigava pessoas deslocadas em al-Mawasi, perto de Khan Younis.

Em outubro do ano passado, entrou em vigor um cessar-fogo mediado pelos EUA com o Hamas, mas Israel continua a realizar ataques, alegando estar a visar militantes que ameaçam os seus soldados em Gaza ou aqueles que participaram no ataque de 2023. 
Israel e o Hamas estão num impasse nas negociações indiretas sobre a implementação da segunda fase do acordo de cessar-fogo, que inclui o desarmamento do grupo e a retirada do exército israelita.

O bloqueio principal continua a ser que o Hamas quer o fim da guerra e a retirada total de Israel antes de libertar todos os reféns, enquanto Israel exige a desmobilização do Hamas antes de encerrar a ofensiva.

Desde que o cessar-fogo entrou em vigor, há oito meses, mais de mil palestinianos, muitos deles civis, e quatro soldados israelitas foram mortos em Gaza, segundo dados de ambos os lados. O Hamas não divulga os seus números de mortos.

c/agências
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