Mundo
Guerra no Médio Oriente
"Não somos tidos nem achados, mas sofremos as consequências das decisões dos outros". Diante da guerra e da crise, como contrariar a desesperança global?
Luís Lóia, professor auxiliar da Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa, aponta, numa entrevista à Antena 1, para a "verdade, transparência e confiança" como antídoto para sanar o fosso entre promessas e realidade, num tempo em que os discursos políticos polarizam divergências e adensam as nuvens da desesperança. Como continuar a fazer tudo isto valer a pena?
“São tempos difíceis”, de facto, que obrigam todos a estar alerta e prevenidos — “mas também não podemos desesperar e perder a esperança”, defende Luís Lóia, numa viagem à história do mundo, da Europa e de Portugal para trazer exemplos de reconstrução e perseverança perante o caos: “estas crises que nos aparecem são fatores de mudança e de oportunidade, de reconversão e de reorientação de vidas”.
Numa altura em que a ideologia fica em segundo plano, a reconstrução da comunidade pode fundar-se na justiça entre as relações e na capacidade de regressar à empatia (mas isso também pode não ser suficiente), conta o professor e especialista em Filosofia Social e Política, numa conversa alargada sobre o que se passa em Portugal e no mundo — e do significado da luta entre blocos de poder.
Afinal, numa asfixia de crises morais, económicas, políticas e militares, a desesperança global é uma inevitabilidade?
Este sentimento [de desesperança] é alimentado por uma noção de impotência — impotência sobretudo a nível dos governos nacionais, face à interdependência que se criou a partir da globalização económica alastrada no pós-guerra fria. E nesse sentido os países sentem-se impotentes — e quando digo os países, digo quer os governantes, quer os governados. Sentem-se impotentes para responder a crises que são globais. Eu recordo sempre uma frase famosa: “Os governos nacionais são demasiadamente grandes para resolver problemas pequenos, e demasiadamente pequenos para resolver problemas grandes.”
Aquilo com que estamos confrontados, parece-me, é com uma sucessão de problemas grandes para os quais os governos não têm instrumentos para responder. Nessa medida, apenas têm a hipótese de reagir, não de agir face a esses problemas, mas de reagir. Estamos agora, mais uma vez, expostos perante uma crise energética que é motivada por questões políticas, mas que afeta o mundo inteiro — e os governos nacionais não têm muitos instrumentos para fazer face a essas crises, a não ser reagir na medida do seu raio de ação limitado. E isso transfere-se dos governos para as populações, que se sentem impotentes, mesmo com o instrumento do voto, para alterar as suas próprias condições de vida.
De facto vemos, por exemplo, no aumento do custo do petróleo, como é que isso se repercute no preço dos combustíveis e nos instrumentos que o Governo tem para fazer face a essa situação. São, afinal de contas, instrumentos limitados. Mesmo que deixasse de cobrar impostos com autorizações legislativas que não tem, mesmo que isso fosse possível, o Governo não conseguiria fazer face a este aumento do custo de vida que se repercute não só nos combustíveis, mas em toda a energia. Este é só um exemplo de outras crises que também ocorrem, como ao nível da pandemia e crises climáticas, em que, de facto, os governos são impotentes e os governados sentem essa desesperança que ocorre — porque não há, ou parece não haver, mecanismos políticos que possam alterar esta situação.
Isto embora haja outros fatores de desesperança que não são essencialmente económicos, mas que parece que podem ser mais profundos, e que têm a ver sobretudo com o horizonte de sentido, o horizonte de significado para as vidas das pessoas em concreto. No fundo, o horizonte de significado foi-se construindo durante muito tempo na acumulação de riqueza, de bem-estar e de conforto. E se por um lado em algumas sociedades isso já foi alcançado — e agora não há outro horizonte para preencher —, em outras sociedades essa desesperança aparece como a impossibilidade de realizar ou de alcançar esse horizonte de significado.
Perdendo-se esse significado, a desesperança instala-se, como disse. Portanto, as crises são muitas, são de ordem diversa e contribuem para desenhar o caminho para uma certa desesperança que se instala e que se sente até no dia-a-dia, nas relações interpessoais.
Sendo que, nestes momentos de crise, geram-se sempre expectativas sobre o que pode a política, tanto a nível interno como externo, fazer perante esta realidade de problemas vários. E essas expectativas parecem, de certa maneira, ruir rapidamente — num embate com a realidade. De que forma a política pode atenuar os impactos desencadeados por crises múltiplas?
Parece-me que a solução para questões muito complexas, aparentemente, acaba por ser relativamente simples e já foi avançada há alguns milhares de anos, até na Grécia Antiga, que nos ensinou tantas lições sobre a democracia.
E a solução, parece-me, é haver verdade, transparência e confiança. Sobretudo uma relação de confiança entre governantes e governados. Isto, em termos nacionais ou mais globais, é fundamental no âmbito da política e da governação. Porque, se não existir essa confiança, então por mais positiva ou benévola que seja a ação dos governantes, ela não é percebida da mesma forma pelos governados. E essa confiança tem de ser alimentada pela transparência na comunicação e pela verdade na relação.
Muitas vezes, isso não acontece. É famosa a distinção entre a prosperidade dos países do norte da Europa e dos países do sul da Europa. Quando comparamos os graus de confiança entre os agentes sociais, económicos e políticos com os países do sul da Europa, os graus de confiança são menores e isso explica alguma menor prosperidade. Nos países do norte da Europa, os graus de confiança são maiores e isso implica, talvez também — ou justifica —, uma maior prosperidade destes países.
Mas o que é certo é que a velha máxima de que quem está no poder pretende manter-se no poder e de quem está na oposição pretende conquistar o poder, essa velha máxima que caracteriza a política, muitas vezes faz com que não haja transparência, não haja verdade. Procura-se transmitir aquilo que se pensa que se quer ouvir, do próprio ponto de vista daquilo que é o tal sentido de Estado. E ele parece não ser muitas vezes aplicado, numa ética republicana da verdade e da transparência. Creio que essa confiança é essencial para que aquilo que é feito seja compreendido e aceite, e para que aquilo que são as expectativas possam ser reequacionadas, se for o caso, com um melhor conhecimento da verdade.
E tem faltado verdade e transparência na forma como nos organizamos enquanto sociedade, a nível global, nesta catadupa de crises? Mesmo agora com esta crise mais recente, no Médio Oriente, que tem efeitos à escala global.
Com certeza. Creio que o cidadão comum compreende isso mesmo, assistindo a três notícias ou dois discursos no mesmo dia que são contraditórios e partem dos mesmos agentes. Por exemplo, ouvimos Donald Trump dizer uma coisa da parte da manhã e dizer o contrário da parte da tarde. E aquilo que ele diz tem implicações decisivas nos mercados financeiros, mas também nas relações diplomáticas, seja a nível da NATO, das Nações Unidas, da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo], enfim, nos organismos mais globalistas.
Mas, a nível interno também assistimos ao mesmo. Tivemos agora, recentemente, uma calamidade. O Governo anunciou medidas, planos de ação imediatos de apoio a àqueles que sofreram mais diretamente os impactos da tempestade, mas o que é certo é que havia medidas destinadas a superar as burocracias para que a ajuda chegasse rapidamente às pessoas, e, agora, verifica-se que a ajuda não chegou por causa das burocracias.
Portanto, são os mesmos agentes que dizem as mesmas coisas agora — e dizem depois outras. Essa transparência não é clara; não foi no princípio, não é no fim. E a confiança deteriora-se e afasta os governantes dos governados. É também um sintoma dos tempos modernos.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, veio assegurar que há empatia e compreensão do Governo perante o aumento do custo de vida, lembrando que vivemos tempos desafiantes. Mas também disse que ainda não há motivos para alarme. Devemos interpretar estas palavras com certeza e tranquilidade?
As certezas e a tranquilidade conquistam-se com uma relação transparente, verdadeira, e não tanto empática. Dou-lhe dois exemplos. Tivemos dois governantes em Portugal que foram muito empáticos; estou-me a lembrar do Dr. Jorge Sampaio e do engenheiro António Guterres. De facto, a sua empatia, a manifestação da sua empatia, era grande e era sentida e reconhecida. Mas, no fim do dia, o que se pretende é que os problemas sejam resolvidos e que a condição das pessoas, concretamente, melhore.
Um anúncio de medidas, a explicação daquelas que foram implementadas e daquelas que não puderam ser implementadas, a necessidade de responsabilização por tais medidas… esses anúncios são sempre positivos e são bem vistos, parece-me. Agora, se são considerados sólidos e dignos de crença, aí apontamos para outras questões, parece-me, que interferem com essa crença — a empatia, de facto, não resolve por si só.
A empatia tem de vir acompanhada de ações concretas?
Com certeza que sim, até porque os governados olham para os seus governantes no sentido de que estes possam agir concretamente, e que essas ações tenham impacto nas suas vidas. A compreensão da situação do outro — que é aquilo que define a empatia de um modo mais simples — é certamente importante, mas se isso não se traduzir na realização da ação concreta serve de pouco para os governantes e para os governados. E se não se refletir, essa empatia (que tem de ser genuína) é vista como uma falsa empatia. Se for vista como uma falsa empatia, a relação entre governantes e governados fica ferida. Não sei se de morte, porque o exercício democrático não aniquila ninguém, antes permite-se restaurar, mas sim, creio que são as ações concretas que contam mais do que a própria empatia.
Perante uma inflação que apenas sobe, ameaças globais de instabilidade e alarmes a soar nas instituições internacionais como a ONU, como pode uma pessoa reerguer-se, reconstruir-se em circunstâncias tão avassaladoras?
Quer seja em termos nacionais — ao nível dos estados-nação —, quer seja em termos globais, todos nós temos uma capacidade de resiliência enorme. Temos passado nos últimos tempos crises que foram gravíssimas, sobretudo as do setor financeiro, mas também a pandemia. Temos tido crises muito fortes e muito próximas umas das outras, difíceis e diversas. Mas as pessoas têm mostrado uma resiliência enorme e uma capacidade de adaptação fora do normal. É assim, ao longo da história. Tivemos no século XX duas Grandes Guerras, com milhões de mortos, e a Europa reergueu-se.
Portanto, são tempos difíceis em que temos de estar alerta e em que temos de nos prevenir, na medida do possível, de modo a estarmos em boas condições para resistir às dificuldades que possam aparecer no futuro — mas também não podemos desesperar e perder a esperança. Estas crises que nos aparecem são fatores de mudança e de oportunidade, de reconversão e de reorientação de vidas, muitas vezes com dor e com pena, mas são fatores que permitem também outras conquistas. Acho que esta mensagem de esperança é importante para enfrentar momentos difíceis.
Somos sempre capazes de nos adaptar, ou pode haver algum ponto zero, de rutura, em que a adaptabilidade já não chega?
O ponto zero não me parece que exista, nem que haja oportunidade para isso. Vivemos em cima de um histórico, em cima de uma tradição, em cima de factos políticos, sociais, culturais que ocorrem, que evoluem e que se transformam — sobretudo se transformam. Os próprios estados democráticos ou a própria democracia têm evoluído. As ameaças à própria democracia — os movimentos de autocratização, o galopar dos populismos — não têm, no fundo, posto em causa a resiliência da própria democracia e o ato de se adaptar.
Em suma, são oportunidades para repensarmos onde estamos e para onde queremos ir, para redefinirmos o tal sentido da vida que lhe falava no início, para reconstruirmos horizontes de significado, mas essa construção terá sempre de ser feita em cima daquilo que é o nosso passado e a nossa tradição. Nessa medida, nunca será um ponto zero, mas uma evolução. E as crises permitem-nos fazer essa paragem para refletir onde é que estamos e para onde queremos ir. Porque a crise, no seu sentido, é isso: é uma mudança de estado. E a mudança de estado faz-se a partir do estado próprio para um outro estado. Nesse sentido, diria que não é propriamente um ponto zero, mas uma oportunidade sim, é.
E a justiça social? Manter os cidadãos comprometidos com uma ideia de comunidade? Deve ser uma preocupação permanente, nas políticas que se decidem a nível global, garantir um projeto de sociedade?
Sim. Fundamentalmente, a política é isso. Aristóteles dizia que a diferença da cidade face à aldeia residia no laço que unia as pessoas. Enquanto na aldeia — como comunidade ainda não politicamente organizada — esse laço seria o da amizade, na cidade, na polis, o laço que une as pessoas é o laço da justiça. E a justiça, aqui, não é só judicial: é a justiça nas relações pessoais e interpessoais, a justiça na procura do bem comum da cidade, e não dos bens particulares. Por isso, todos têm de estar comprometidos com a justiça social. Agora, dentro da justiça social, não quero meter-me na discussão sobre se ela é melhor alcançada de um ponto de vista liberal ou de um ponto de vista socialista — até porque parece que as ideologias já não fazem muito sentido.
Mas, se nós perdermos esse sentido da justiça social, as próprias cidades, a polis, as comunidades políticas, desagregam-se.
Não creio que estejamos num momento de desagregação para uma espécie de anarquia. Creio que poderíamos fomentar mais este sentido de justiça social naquilo que poderia ser uma eventual educação cívica — de nos orientarmos para um bem comum, e não tanto para um bem individual. Aí talvez haja muito a fazer ainda. Aí talvez possa ser uma oportunidade de reconstrução depois da crise. Mas não creio que possamos pôr em causa, ainda, um ideal de justiça social — porque aí a vida política deixaria de fazer sentido.
Essa linha de raciocínio aplica-se também à polarização das sociedades? À transformação ao nível das democracias, em que a ordem internacional baseada em regras de respeito pelos estados e pelos direitos humanos parece estar a dar lugar a uma nova ordem em que prevalece o poder do mais forte, com essas regras a serem quebradas?
Diria que aí é mais difícil, porque no âmbito das relações internacionais temos, desde o século XIX, a noção da tal realpolitik — e é de facto o interesse do mais forte. Tivemos, pós-Segunda Guerra Mundial, aqueles que foram os vencedores e os vencidos — e, entre os vencedores, tivemos depois o antagonismo entre os dois mais fortes que durou toda a Guerra Fria. Numa nova ordem, continuamos a ver que o interesse dos mais fortes prevalece, quer seja no bloco oriental ou no bloco ocidental. E aqueles que não são fortes querem-se enturmar na cena política mundial como fortes, com projeção de poder, nem que seja de poder bélico, quando o poder económico não chega lá.
Mas é difícil. Os organismos internacionais globalistas — seja o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, as próprias Nações Unidas, etc. — funcionam e funcionam bem enquanto servirem os interesses dos mais fortes ou do mais forte. Se deixarem de servir esses interesses, essa solidariedade entre países não existe, porque de facto nunca existiu. O que existe são sempre os interesses nacionais.
Veja-se o exemplo dos Estados Unidos e da sua relação com a NATO, que é paradigmática nesse sentido; ou a ameaça dos Estados Unidos perante a Gronelândia, território de administração dinamarquesa, que é também paradigmática nesse sentido. Nem no âmbito da NATO se servem os interesses todos. Enquanto [a NATO] servir os interesses dos mais fortes, sim; se deixar de servir, já não. Essa é a realidade do mundo globalista.
O que há de novo, agora, é a existência de mais atores nesse mundo. Não são já apenas — como foram durante muito tempo — os Estados Unidos ou a Rússia. Existem agora muito mais atores na cena internacional que tornam essas relações muito mais complexas. Agora temos de nos saber mexer nesse quadro de complexidade: escolher os nossos amigos e evitar os nossos inimigos. Aqueles que, de facto, não têm esse poder na cena internacional têm de se basear num conjunto de alianças.
É um pouco a história da diplomacia. Aí é muito mais difícil termos alguma noção de direito internacional ou de justiça social entre nações. Não é um cenário muito positivo, mas penso que é o mais realista.
E isso também alimenta a tal desesperança de que falávamos?
Sim, de facto sim, porque por um lado verifica-se a impotência perante decisões que afetam todo o mundo, mas nas quais não participamos. Não somos tidos nem achados, mas sofremos as consequências das decisões dos outros.
Esta interdependência entre os estados mostra-nos isso, mas, com a polarização e a complexidade destas teias de interesses, esta desesperança e esta impotência acentuam-se. Às vezes, não consigo mudar a minha freguesia, quanto mais a minha cidade, o meu país ou o mundo. É essa noção de impotência, a noção de que os mecanismos democráticos que pressupunham uma relação entre representantes e representados já não são considerados desse modo — porque aquele que tem o poder, efetivamente, não representa aquele que nele votou e encara-se o voto como uma mera delegação do poder e não uma representação. Este afastamento também gera essa desesperança a nível interno, e muito mais a nível internacional porque os mecanismos de representatividade, mesmo que sejam indiretos (ao nível da União Europeia, por exemplo) tornam esse sentimento de delegação do poder e de não uma representação ainda mais acentuado.
Numa altura em que a ideologia fica em segundo plano, a reconstrução da comunidade pode fundar-se na justiça entre as relações e na capacidade de regressar à empatia (mas isso também pode não ser suficiente), conta o professor e especialista em Filosofia Social e Política, numa conversa alargada sobre o que se passa em Portugal e no mundo — e do significado da luta entre blocos de poder.
Afinal, numa asfixia de crises morais, económicas, políticas e militares, a desesperança global é uma inevitabilidade?
Este sentimento [de desesperança] é alimentado por uma noção de impotência — impotência sobretudo a nível dos governos nacionais, face à interdependência que se criou a partir da globalização económica alastrada no pós-guerra fria. E nesse sentido os países sentem-se impotentes — e quando digo os países, digo quer os governantes, quer os governados. Sentem-se impotentes para responder a crises que são globais. Eu recordo sempre uma frase famosa: “Os governos nacionais são demasiadamente grandes para resolver problemas pequenos, e demasiadamente pequenos para resolver problemas grandes.”
Aquilo com que estamos confrontados, parece-me, é com uma sucessão de problemas grandes para os quais os governos não têm instrumentos para responder. Nessa medida, apenas têm a hipótese de reagir, não de agir face a esses problemas, mas de reagir. Estamos agora, mais uma vez, expostos perante uma crise energética que é motivada por questões políticas, mas que afeta o mundo inteiro — e os governos nacionais não têm muitos instrumentos para fazer face a essas crises, a não ser reagir na medida do seu raio de ação limitado. E isso transfere-se dos governos para as populações, que se sentem impotentes, mesmo com o instrumento do voto, para alterar as suas próprias condições de vida.
De facto vemos, por exemplo, no aumento do custo do petróleo, como é que isso se repercute no preço dos combustíveis e nos instrumentos que o Governo tem para fazer face a essa situação. São, afinal de contas, instrumentos limitados. Mesmo que deixasse de cobrar impostos com autorizações legislativas que não tem, mesmo que isso fosse possível, o Governo não conseguiria fazer face a este aumento do custo de vida que se repercute não só nos combustíveis, mas em toda a energia. Este é só um exemplo de outras crises que também ocorrem, como ao nível da pandemia e crises climáticas, em que, de facto, os governos são impotentes e os governados sentem essa desesperança que ocorre — porque não há, ou parece não haver, mecanismos políticos que possam alterar esta situação.
Isto embora haja outros fatores de desesperança que não são essencialmente económicos, mas que parece que podem ser mais profundos, e que têm a ver sobretudo com o horizonte de sentido, o horizonte de significado para as vidas das pessoas em concreto. No fundo, o horizonte de significado foi-se construindo durante muito tempo na acumulação de riqueza, de bem-estar e de conforto. E se por um lado em algumas sociedades isso já foi alcançado — e agora não há outro horizonte para preencher —, em outras sociedades essa desesperança aparece como a impossibilidade de realizar ou de alcançar esse horizonte de significado.
Perdendo-se esse significado, a desesperança instala-se, como disse. Portanto, as crises são muitas, são de ordem diversa e contribuem para desenhar o caminho para uma certa desesperança que se instala e que se sente até no dia-a-dia, nas relações interpessoais.
Sendo que, nestes momentos de crise, geram-se sempre expectativas sobre o que pode a política, tanto a nível interno como externo, fazer perante esta realidade de problemas vários. E essas expectativas parecem, de certa maneira, ruir rapidamente — num embate com a realidade. De que forma a política pode atenuar os impactos desencadeados por crises múltiplas?
Parece-me que a solução para questões muito complexas, aparentemente, acaba por ser relativamente simples e já foi avançada há alguns milhares de anos, até na Grécia Antiga, que nos ensinou tantas lições sobre a democracia.
E a solução, parece-me, é haver verdade, transparência e confiança. Sobretudo uma relação de confiança entre governantes e governados. Isto, em termos nacionais ou mais globais, é fundamental no âmbito da política e da governação. Porque, se não existir essa confiança, então por mais positiva ou benévola que seja a ação dos governantes, ela não é percebida da mesma forma pelos governados. E essa confiança tem de ser alimentada pela transparência na comunicação e pela verdade na relação.
Muitas vezes, isso não acontece. É famosa a distinção entre a prosperidade dos países do norte da Europa e dos países do sul da Europa. Quando comparamos os graus de confiança entre os agentes sociais, económicos e políticos com os países do sul da Europa, os graus de confiança são menores e isso explica alguma menor prosperidade. Nos países do norte da Europa, os graus de confiança são maiores e isso implica, talvez também — ou justifica —, uma maior prosperidade destes países.
Mas o que é certo é que a velha máxima de que quem está no poder pretende manter-se no poder e de quem está na oposição pretende conquistar o poder, essa velha máxima que caracteriza a política, muitas vezes faz com que não haja transparência, não haja verdade. Procura-se transmitir aquilo que se pensa que se quer ouvir, do próprio ponto de vista daquilo que é o tal sentido de Estado. E ele parece não ser muitas vezes aplicado, numa ética republicana da verdade e da transparência. Creio que essa confiança é essencial para que aquilo que é feito seja compreendido e aceite, e para que aquilo que são as expectativas possam ser reequacionadas, se for o caso, com um melhor conhecimento da verdade.
E tem faltado verdade e transparência na forma como nos organizamos enquanto sociedade, a nível global, nesta catadupa de crises? Mesmo agora com esta crise mais recente, no Médio Oriente, que tem efeitos à escala global.
Com certeza. Creio que o cidadão comum compreende isso mesmo, assistindo a três notícias ou dois discursos no mesmo dia que são contraditórios e partem dos mesmos agentes. Por exemplo, ouvimos Donald Trump dizer uma coisa da parte da manhã e dizer o contrário da parte da tarde. E aquilo que ele diz tem implicações decisivas nos mercados financeiros, mas também nas relações diplomáticas, seja a nível da NATO, das Nações Unidas, da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo], enfim, nos organismos mais globalistas.
Mas, a nível interno também assistimos ao mesmo. Tivemos agora, recentemente, uma calamidade. O Governo anunciou medidas, planos de ação imediatos de apoio a àqueles que sofreram mais diretamente os impactos da tempestade, mas o que é certo é que havia medidas destinadas a superar as burocracias para que a ajuda chegasse rapidamente às pessoas, e, agora, verifica-se que a ajuda não chegou por causa das burocracias.
Portanto, são os mesmos agentes que dizem as mesmas coisas agora — e dizem depois outras. Essa transparência não é clara; não foi no princípio, não é no fim. E a confiança deteriora-se e afasta os governantes dos governados. É também um sintoma dos tempos modernos.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, veio assegurar que há empatia e compreensão do Governo perante o aumento do custo de vida, lembrando que vivemos tempos desafiantes. Mas também disse que ainda não há motivos para alarme. Devemos interpretar estas palavras com certeza e tranquilidade?
As certezas e a tranquilidade conquistam-se com uma relação transparente, verdadeira, e não tanto empática. Dou-lhe dois exemplos. Tivemos dois governantes em Portugal que foram muito empáticos; estou-me a lembrar do Dr. Jorge Sampaio e do engenheiro António Guterres. De facto, a sua empatia, a manifestação da sua empatia, era grande e era sentida e reconhecida. Mas, no fim do dia, o que se pretende é que os problemas sejam resolvidos e que a condição das pessoas, concretamente, melhore.
Um anúncio de medidas, a explicação daquelas que foram implementadas e daquelas que não puderam ser implementadas, a necessidade de responsabilização por tais medidas… esses anúncios são sempre positivos e são bem vistos, parece-me. Agora, se são considerados sólidos e dignos de crença, aí apontamos para outras questões, parece-me, que interferem com essa crença — a empatia, de facto, não resolve por si só.
A empatia tem de vir acompanhada de ações concretas?
Com certeza que sim, até porque os governados olham para os seus governantes no sentido de que estes possam agir concretamente, e que essas ações tenham impacto nas suas vidas. A compreensão da situação do outro — que é aquilo que define a empatia de um modo mais simples — é certamente importante, mas se isso não se traduzir na realização da ação concreta serve de pouco para os governantes e para os governados. E se não se refletir, essa empatia (que tem de ser genuína) é vista como uma falsa empatia. Se for vista como uma falsa empatia, a relação entre governantes e governados fica ferida. Não sei se de morte, porque o exercício democrático não aniquila ninguém, antes permite-se restaurar, mas sim, creio que são as ações concretas que contam mais do que a própria empatia.
Perante uma inflação que apenas sobe, ameaças globais de instabilidade e alarmes a soar nas instituições internacionais como a ONU, como pode uma pessoa reerguer-se, reconstruir-se em circunstâncias tão avassaladoras?
Quer seja em termos nacionais — ao nível dos estados-nação —, quer seja em termos globais, todos nós temos uma capacidade de resiliência enorme. Temos passado nos últimos tempos crises que foram gravíssimas, sobretudo as do setor financeiro, mas também a pandemia. Temos tido crises muito fortes e muito próximas umas das outras, difíceis e diversas. Mas as pessoas têm mostrado uma resiliência enorme e uma capacidade de adaptação fora do normal. É assim, ao longo da história. Tivemos no século XX duas Grandes Guerras, com milhões de mortos, e a Europa reergueu-se.
Portanto, são tempos difíceis em que temos de estar alerta e em que temos de nos prevenir, na medida do possível, de modo a estarmos em boas condições para resistir às dificuldades que possam aparecer no futuro — mas também não podemos desesperar e perder a esperança. Estas crises que nos aparecem são fatores de mudança e de oportunidade, de reconversão e de reorientação de vidas, muitas vezes com dor e com pena, mas são fatores que permitem também outras conquistas. Acho que esta mensagem de esperança é importante para enfrentar momentos difíceis.
Somos sempre capazes de nos adaptar, ou pode haver algum ponto zero, de rutura, em que a adaptabilidade já não chega?
O ponto zero não me parece que exista, nem que haja oportunidade para isso. Vivemos em cima de um histórico, em cima de uma tradição, em cima de factos políticos, sociais, culturais que ocorrem, que evoluem e que se transformam — sobretudo se transformam. Os próprios estados democráticos ou a própria democracia têm evoluído. As ameaças à própria democracia — os movimentos de autocratização, o galopar dos populismos — não têm, no fundo, posto em causa a resiliência da própria democracia e o ato de se adaptar.
Em suma, são oportunidades para repensarmos onde estamos e para onde queremos ir, para redefinirmos o tal sentido da vida que lhe falava no início, para reconstruirmos horizontes de significado, mas essa construção terá sempre de ser feita em cima daquilo que é o nosso passado e a nossa tradição. Nessa medida, nunca será um ponto zero, mas uma evolução. E as crises permitem-nos fazer essa paragem para refletir onde é que estamos e para onde queremos ir. Porque a crise, no seu sentido, é isso: é uma mudança de estado. E a mudança de estado faz-se a partir do estado próprio para um outro estado. Nesse sentido, diria que não é propriamente um ponto zero, mas uma oportunidade sim, é.
E a justiça social? Manter os cidadãos comprometidos com uma ideia de comunidade? Deve ser uma preocupação permanente, nas políticas que se decidem a nível global, garantir um projeto de sociedade?
Sim. Fundamentalmente, a política é isso. Aristóteles dizia que a diferença da cidade face à aldeia residia no laço que unia as pessoas. Enquanto na aldeia — como comunidade ainda não politicamente organizada — esse laço seria o da amizade, na cidade, na polis, o laço que une as pessoas é o laço da justiça. E a justiça, aqui, não é só judicial: é a justiça nas relações pessoais e interpessoais, a justiça na procura do bem comum da cidade, e não dos bens particulares. Por isso, todos têm de estar comprometidos com a justiça social. Agora, dentro da justiça social, não quero meter-me na discussão sobre se ela é melhor alcançada de um ponto de vista liberal ou de um ponto de vista socialista — até porque parece que as ideologias já não fazem muito sentido.
Mas, se nós perdermos esse sentido da justiça social, as próprias cidades, a polis, as comunidades políticas, desagregam-se.
Não creio que estejamos num momento de desagregação para uma espécie de anarquia. Creio que poderíamos fomentar mais este sentido de justiça social naquilo que poderia ser uma eventual educação cívica — de nos orientarmos para um bem comum, e não tanto para um bem individual. Aí talvez haja muito a fazer ainda. Aí talvez possa ser uma oportunidade de reconstrução depois da crise. Mas não creio que possamos pôr em causa, ainda, um ideal de justiça social — porque aí a vida política deixaria de fazer sentido.
Essa linha de raciocínio aplica-se também à polarização das sociedades? À transformação ao nível das democracias, em que a ordem internacional baseada em regras de respeito pelos estados e pelos direitos humanos parece estar a dar lugar a uma nova ordem em que prevalece o poder do mais forte, com essas regras a serem quebradas?
Diria que aí é mais difícil, porque no âmbito das relações internacionais temos, desde o século XIX, a noção da tal realpolitik — e é de facto o interesse do mais forte. Tivemos, pós-Segunda Guerra Mundial, aqueles que foram os vencedores e os vencidos — e, entre os vencedores, tivemos depois o antagonismo entre os dois mais fortes que durou toda a Guerra Fria. Numa nova ordem, continuamos a ver que o interesse dos mais fortes prevalece, quer seja no bloco oriental ou no bloco ocidental. E aqueles que não são fortes querem-se enturmar na cena política mundial como fortes, com projeção de poder, nem que seja de poder bélico, quando o poder económico não chega lá.
Mas é difícil. Os organismos internacionais globalistas — seja o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, as próprias Nações Unidas, etc. — funcionam e funcionam bem enquanto servirem os interesses dos mais fortes ou do mais forte. Se deixarem de servir esses interesses, essa solidariedade entre países não existe, porque de facto nunca existiu. O que existe são sempre os interesses nacionais.
Veja-se o exemplo dos Estados Unidos e da sua relação com a NATO, que é paradigmática nesse sentido; ou a ameaça dos Estados Unidos perante a Gronelândia, território de administração dinamarquesa, que é também paradigmática nesse sentido. Nem no âmbito da NATO se servem os interesses todos. Enquanto [a NATO] servir os interesses dos mais fortes, sim; se deixar de servir, já não. Essa é a realidade do mundo globalista.
O que há de novo, agora, é a existência de mais atores nesse mundo. Não são já apenas — como foram durante muito tempo — os Estados Unidos ou a Rússia. Existem agora muito mais atores na cena internacional que tornam essas relações muito mais complexas. Agora temos de nos saber mexer nesse quadro de complexidade: escolher os nossos amigos e evitar os nossos inimigos. Aqueles que, de facto, não têm esse poder na cena internacional têm de se basear num conjunto de alianças.
É um pouco a história da diplomacia. Aí é muito mais difícil termos alguma noção de direito internacional ou de justiça social entre nações. Não é um cenário muito positivo, mas penso que é o mais realista.
E isso também alimenta a tal desesperança de que falávamos?
Sim, de facto sim, porque por um lado verifica-se a impotência perante decisões que afetam todo o mundo, mas nas quais não participamos. Não somos tidos nem achados, mas sofremos as consequências das decisões dos outros.
Esta interdependência entre os estados mostra-nos isso, mas, com a polarização e a complexidade destas teias de interesses, esta desesperança e esta impotência acentuam-se. Às vezes, não consigo mudar a minha freguesia, quanto mais a minha cidade, o meu país ou o mundo. É essa noção de impotência, a noção de que os mecanismos democráticos que pressupunham uma relação entre representantes e representados já não são considerados desse modo — porque aquele que tem o poder, efetivamente, não representa aquele que nele votou e encara-se o voto como uma mera delegação do poder e não uma representação. Este afastamento também gera essa desesperança a nível interno, e muito mais a nível internacional porque os mecanismos de representatividade, mesmo que sejam indiretos (ao nível da União Europeia, por exemplo) tornam esse sentimento de delegação do poder e de não uma representação ainda mais acentuado.
Não temos poder para mudar esta orgânica a nível mundial e, não tendo esse poder, instala-se uma certa desesperança, por um lado, e uma certa esperança, por outro, de que as coisas corram bem — mesmo que não seja por nossa intervenção.