Pilhagens em Gaza. "População desesperada e traumatizada"

A Faixa de Gaza está a ser varrida por uma onda de pilhagens e roubos, numa altura em que os palestinianos, cada vez mais desesperados, lutam para obter alimentos, enquanto grupos de criminosos exploram a rutura da lei e da ordem.

Cristina Sambado - RTP /
Haitham Imad - Reuters

Funcionários da ajuda humanitária e testemunhas no território devastado descrevem homens armados que atacam armazéns de ajuda humanitária, tiroteios por causa das reservas de alimentos que restam e uma vaga de roubos de bens vitais para a sobrevivência, como carregadores solares, pilhas, telefones e panelas.

As autoridades médicas relatam casos crescentes de desnutrição aguda e as cozinhas comunitárias que serviam um milhão de refeições por dia estão a fechar por falta de bens essenciais. As agências de ajuda humanitária afirmam ter distribuído todas as reservas de alimentos que restavam. Dezenas de padarias que forneciam pão gratuito vital fecharam no mês passado.A Faixa de Gaza está à beira da catástrofe após dois meses de bloqueio total por parte de Israel, dizem os trabalhadores humanitários, com muitas famílias a terem apenas uma refeição por dia. A farinha estragada está a ser vendida por um preço 30 ou 40 vezes superior ao habitual e não há combustível disponível para além de madeira ou plástico descartado.

Quando a fome for declarada, será demasiado tarde. A onda de crimes deve-se ao facto de haver dois milhões ou mais de pessoas desesperadas e traumatizadas, amontoadas e praticamente sem policiamento”, avançou ao jornal britânico The Guardian um funcionário humanitário em Gaza.

A cidade de Gaza tem sido a mais afetada pela onda de crimes, embora tenham sido registados alguns incidentes noutros pontos do território.

Na semana passada, um grupo de homens armados assaltou duas ou três padarias na cidade de Gaza, na esperança de encontrar farinha, e depois atacou uma sopa dos pobres quando não encontrou nada. Noutro incidente, os assaltantes levaram as últimas reservas de uma cozinha comunitária, bem como todos os seus tachos e panelas. Num terceiro roubo, o pessoal de um local de distribuição gerido por uma ONG foi mantido sob a mira de uma faca enquanto era saqueado.

A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados (Unrwa) teve de retirar o pessoal na quarta-feira, depois de milhares de palestinianos terem invadido o seu escritório na Cidade de Gaza e roubado medicamentos.

Louise Wateridge, funcionária da Unrwa, considerou os saques “o resultado direto de uma privação insuportável e prolongada”.

Testemunhas descreveram confrontos entre ladrões armados e guardas de segurança nos últimos dias. Há relatos generalizados de discussões violentas entre vizinhos e um aumento da violência doméstica. Os pequenos furtos aumentaram.

Durante o cessar-fogo de meados de janeiro a meados de março, o grupo Hamas enviou a polícia para as ruas de Gaza, mas esta foi retirada depois de ter sido alvo de ataques aéreos israelitas. O Ministério do Interior de Gaza, dirigido pelo Hamas, declarou no sábado que as suas forças de segurança executaram seis suspeitos e puniram 13 outros com tiros nas pernas, nos últimos dois dias, devido a atividades de pilhagem. O Ministério também impôs um recolher obrigatório a partir de sexta-feira em algumas das principais ruas da cidade de Gaza.

A pilhagem em Gaza atingiu o seu ponto mais alto no final do ano passado, quando os comboios de ajuda humanitária foram sistematicamente saqueados à medida que entravam no território, depois de atravessarem os pontos de entrada de Israel. Num incidente, mais de cem camiões foram levados e saqueados.

Israel acusa o Hamas de roubar e revender a ajuda para financiar as suas operações militares. A organização islâmica nega a acusação e os funcionários responsáveis pela ajuda humanitária afirmam que pouca assistência humanitária foi desviada durante o curto cessar-fogo que entrou em vigor em janeiro.

Na segunda-feira, os responsáveis israelitas afirmaram que iriam levantar o bloqueio de forma a implementar um esquema de distribuição de ajuda no âmbito de uma ofensiva “intensificada” nas próximas semanas.

O plano envolve uma série de centros de distribuição no sul de Gaza, que seriam geridos por contratantes privados e guardados pelo exército israelita. A ONU e outros responsáveis humanitários rejeitaram o plano, considerando-o impraticável, perigoso e potencialmente ilegal à luz do Direito Internacional.

O gabinete do primeiro-ministro israelita não respondeu a um pedido da Reuters para comentar os níveis de subnutrição em Gaza e os relatos de que pessoas vulneráveis, incluindo crianças que necessitam de suplementos, morreram em resultado do bloqueio.

As autoridades israelitas disseram que não acreditam que Gaza enfrente uma crise de fome, que entrou ajuda suficiente para sustentar a população do enclave e que querem impedir que os fornecimentos passem para o controlo do Hamas. Israel também afirmou que planeia alargar a sua campanha, causando um sofrimento ainda maior aos deslocados de Gaza.

Com os campos de Gaza inacessíveis aos civis e os mares interditos aos pescadores, o território depende quase inteiramente de alimentos vindos do exterior, mas a última entrega que Israel permitiu foi a 2 de março, o último dia do cessar-fogo.
Crianças e grávidas em risco

A Reuters recorda o caso da bebé palestiniana Jenan Alskafi, que morreu em Gaza, no sábado, de desnutrição e problemas digestivos. O seu médico revelou que estes não podiam ser tratados devido ao bloqueio total israelita, que as agências de ajuda humanitária acreditam estar a minar a saúde de toda a população.

A menina de quatro meses necessitava de leite em pó hipoalergénico - um produto habitualmente comum e agora inexistente em Gaza - para a ajudar com a diarreia crónica que causava desnutrição e a deixava demasiado fraca para combater as infeções, frisou o médico Ragheb Warsh Agha do hospital de Rantissi, no norte de Gaza, onde Jenan morreu.As Nações Unidas e as agências internacionais de ajuda humanitária alertam para uma catástrofe crescente, com a agência humanitária das Nações Unidas OCHA a afirmar que mais de dois milhões de pessoas - a maior parte da população de Gaza, de 2,3 milhões de habitantes - enfrentam graves carências alimentares.

A subnutrição está a afetar gravemente as crianças, as mulheres grávidas e as pessoas com doenças crónicas, ao mesmo tempo que atrasa a recuperação dos doentes com ferimentos graves de guerra, uma vez que as reservas de ajuda estão quase a esgotar-se, afirmaram várias agências.

Temos entre nove mil a dez mil crianças que são tratadas por desnutrição”, afirmou Jonathan Crickx, diretor de comunicações da UNICEF, a agência das Nações Unidas para a infância.

A fome é um problema particular porque, para além de prejudicar o desenvolvimento cognitivo e físico das crianças, enfraquece os seus sistemas imunitários e quase toda a população de Gaza está sem casa devido à destruição causada pela campanha militar israelita. “Isto é extremamente preocupante, porque vai definitivamente aumentar o número de crianças que morrem de doenças evitáveis”, acrescentou Crickx.O Ministério da Saúde de Gaza afirmou que pelo menos 65 mil crianças apresentaram sintomas de subnutrição e o gabinete de imprensa do governo de Gaza disse que pelo menos 57 pessoas, na sua maioria crianças, morreram em consequência da subnutrição desde que Israel fechou as passagens em 2 de março. Ambos os organismos são dirigidos pelo Hamas.


A fome não está apenas a agravar os problemas de saúde das crianças. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirmou que está a assistir a um aumento do número de doentes que chegam aos hospitais com doenças crónicas, como a diabetes e a hipertensão, que não dispõem de alimentos suficientes ou de alimentos com proteínas, nutrientes e vitaminas suficientes.

Uma clínica de MSF na cidade de Gaza também tem recebido mais pacientes para tratamento de ferimentos graves, cujas condições se agravaram pela falta de acesso a alimentos e água potável, disse a instituição de caridade.

“Temos que manter os casos por meses no hospital, enquanto em uma situação normal, eles teriam sido tratados em poucas semanas”, afirmou à Reuters a coordenadora da MSF, Julie Faucon.

Há 350 mil pacientes com doenças crónicas em Gaza, incluindo cancro e diabetes, de acordo com dados da ONU.


O Crescente Vermelho Palestiniano, a filial local do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, disse que já não tem medicamentos para doenças cardíacas, hipertensão ou diabetes, nem reservas de suplementos nutricionais ou fórmulas infantis.

"Sem comida, água, material médico ou combustível, a sobrevivência está a tornar-se ainda mais difícil. A ajuda humanitária tem de entrar na Faixa de Gaza”, afirmou a organização num comunicado enviado à Reuters.

“Levantamo-nos e ficamos com tonturas devido à falta de comida. Não há ovos, carne, comida ou bebida. Estamos cansadas. Viemos buscar comprimidos, se os conseguirmos encontrar, só para nos podermos levantar e mexer”, disse Ola al-Kafarna, uma mulher grávida deslocada.

Entre 10 e 20 por cento das 4.500 mulheres grávidas e lactantes inquiridas estão subnutridas, segundo a Organização Mundial de Saúde em abril. As mulheres grávidas malnutridas enfrentam problemas como a anemia, a fadiga e o parto prematuro.

c/ agências
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